O MEU SONHO CAPIXABA

Pedro Sevylla de Juana

Meu sonho capixaba é um poema de quatrocentos versos, escrito de um puxão em língua portuguesa. Necessitei vinte dias, pesquisa incluída, para ter o texto completo; e outros dez para o corrigir. É necessário dizer que trabalhava durante o dia e parte da noite.
Minha imersão foi tão profunda, que cheguei a pensar em português; algo que nunca tinha ocorrido. O traduzi para o espanhol, tentando conseguir o ritmo próprio do idioma, em dois dias. E todo isso por quê? Acho que a razão é que me senti capixaba por cima de fronteiriço.

 

 

O MEU SONHO CAPIXABA

Passava eu o tempo me alimentando
de história, geografia e literatura,
de uma terra mais interessante
que nenhuma outra. Eram dias
e noites de trabalho intenso,
comendo e dormindo menos que um sabiá.
Olhando as estrelas para
as individualizar e as reconhecer,
caí num sono profundo com a cabeça
apoiada na mesa do jardim.

Tudo começa quando o planeta Terra
se torna habitável,
recebendo nos meteoritos a essência
e os primeiros indícios
da vida mais singela.

Logo aconteceu o período Cambriano,
lá na era Paleozoica,
faz disso
quinhentos milhões
de anos,
quando a existência estourou na totalidade
produzindo
a gigantesca explosão de vida
da que tanto se escreveu.

Eu era um trilobita
naquela época remota,
artrópode de três lóbulos, que,
certamente,
tinha visto com grande interesse,
já fossilizado, na aula de ciências
naturais do colégio La Salle.

Vivia fazendo amigos na água
para me defender dos inimigos,
ignorando que, fora,
a vida não seria possível
até que a camada de ozônio alcançasse
uma espessura suficiente
para deter as radiações solares
mais perigosas.

Estando no período Devônico
-abro um parêntese para dizer
que vem o nome do condado de Devon,
próximo a Cornwall,
onde passei um verão
estudando inglês com meus filhos-
assim pois, no Devônico
vejo deslizar mansamente,
ainda ingênuo, o primeiro entardecer
de uma solene primavera,
sossego indescritível
roto pelo ritmo inarmônico
do incremento e desaparição
das espécies evolutivas.

Enquanto eu salto da estrofe anterior
transcorrem centenas de milhões de anos,
e depois de esse lapso
a Terra muda na sua totalidade.
Os movimentos das placas tectônicas
sobre o manto
desfazem a crescida Pangeia,
estabelecendo ao sul
um supercontinente
conhecido como Gonduana.

Uma parte formidável dele
é o intrincado labirinto de possibilidades
que agora se chama Brasil.
A terra fecunda atravessada
por um casal de colibris,
atual Estado de Espírito Santo,
só era um campo carecente de frutos,
nem sequer os que produziriam
no seu momento
os melhores açúcar e café do mundo.

Na borda contemplo uma ilha alta e formosa
de origem vulcânica.
Há lava ardente no seu interior
embora não tenha nome ainda.
Emergindo da água mais próxima
aparece um promontório granítico
que algum de nós denominou
Penedo.

Pois bem,
no topo do Penedo
éramos quatro líricos épicos
sentados em círculo.
Cordados entusiastas do equilíbrio e da harmonia,
os quatro sonhadores intentávamos
produzir uma música espontânea
que, com algo de choro,
decidimos chamar Samba.

Joaquim Machado de Assis,
autodidata de vivo engenho,
vida plácida de literato grande,
superioridade intelectual,
serenidade e firmeza num rosto
cercado pela linha do cabelo,
barba e bigode crescidos,
lhe interessava tudo, admirava a Carola,
e vindo de baixo
chegou a ser o primeiro presidente
da Academia
Brasileira de Letras.

Hilda Hilst
filha única e aluna de internato,
a verdade, o amor, a liberdade e a dita,
ressoavam nela como palavras crescidas na cume
das nuvens inacessíveis.
Necessitava ser feliz
e a felicidade e o desejo,
horizonte atrás do horizonte,
brincavam com ela às escondidas.
Entroncada no tempo e no espaço,
catarata intermitente, égua alada
e bandeira ondeando agitada de dúvidas,
seu instante arderá
indefinidamente.

Antônio de Castro Alves,
cabeleira ao vento reclamando
liberdade e justiça para os oprimidos
-mocidade e morte-
vinte e quatro anos de existência,
vividos com intensidade poética admirável,
lhe bastaram para deixar
uma inspirada obra em duas vertentes,
épica e lírica,
complementares.

Sobre o já Penedo,
perto da não Vitória ainda
mas sempre ilha acolhedora,
no anoitecer quieto
quebrado pela indómita perseverança
do tempo transcorrendo e transcorrendo,
os quatro vates donos de uma
irreprimível paixão criadora,
soprávamos música na trombeta
de quem ia ser meu amigo Satchmo.

É fácil compreender
que o Penedo é para a Ilha
o que a Ilha é para o Brasil e o Continente:
sentinela da entrada,
defesa
e farol.

O sonho despreza a ordem
e distorce a continuidade do tempo,
mas é verdade que
há cinquenta mil anos
na garganta dos humanos nasceu a palavra,
e quando a palavra foi
a palavra tupi explicou a beleza
descoberta pelos cinco sentidos
e a intuída,
acrescentando as experiências próprias,
as ouvidas e as imaginadas.

A difusão oral de contos e estórias
entre os tupiniquins será,
por consequência, rica e proveitosa.
Tanto é assim que, segundo Elpídio Pimentel,
até o Penedo falava
contando às pessoas
saborosas histórias capixabas.
Embora a relação
paterno-filial do autor com a sua obra
não se afiançará até chegar a escrita.
Depois de ler o pensamento
de Policarpo Quaresma,
filho intelectual de Lima Barreto,
achei muito laudável
que o Padre Anchieta começara
a escrever a língua tupi.

Penso que, se o Reformista
no tivesse substituído inteiramente
o uso do Nheengatu
pelo português,
as duas línguas ainda conviveriam
se fortalecendo;
de modo que os escritores profissionais
chegado o ano mil novecentos
e vinte e um, se reuniriam no mesmo
Clube Boêmios
para instituir a Academia
Espírito-santense de Letras.

A erosão e o homem lhe foram tirando
e tirando,
mas então era mais alto o Rochedo,
mais dilatado, maior;
por isso pude me encontrar ali
com escritores amigos:
_____Garota de Sacramento,
mulher de favela,
saiu teu livro desse Quarto de Despejo,
voou alto e longe, pombinha mensageira,
choveu o dinheiro em forma de dilúvio universal
e te chegou na distribuição
uma parte pequena.
_____Discutíamos Ester Abreu e eu
sobre alguns aspectos confusos de Don Juan
baixando aos infernos
para surgir de novo
andrógino,
triunfante,
celestial.
_____Miscigenação. Diz de mim Gilberto
de Mello Freyre, que sou a afortunada conjunção
de origens miscíveis, de misturadas culturas;
e assegura que é a mestiçagem
o princípio do progresso progressivo
e a constante dos avanços todos.
_____ Desenvolviam-se o sonho e o sono
intemporais
ou com os tempos misturados,
num Sertão imaginário
que,
partindo de Euclides da Cunha, Graciliano
Ramos, Guimarães Rosa
e Jô Drumond,
era a soma de todos os Sertões:
arideces existenciais, aleph,
vidas secas,
imaginação e utopia.

Fronteiriço eu, estava no centro
quando pude contemplar desde o Penedo,
trezentos e sessenta graus ao redor,
os trigais,
mar de primavera em Valdepero, ermida
de San Pedro e da Virgen del Consuelo,
castelo, arco da muralha,
colegiada de Husillos, sítios históricos de Muqui
e São Mateus,
Santuário de Nossa Senhora da Penha
e frei Pedro Palácios na gruta,
estações de Marechal Floriano e Matilde,
os troncos erguidos
e firmes da Mata Atlântica Capixaba,
a Pedra Soares de Ponto Belo.
Fazia calor e chovia.

Eu vi abaixo o alentejano Vasco
Fernandes Coutinho na Prainha,
desembarcando da nau Gloria
com a decidida intenção de estabelecer
a Vila do Espírito Santo e, depois,
Vila Nova de ser necessário
como aconteceu logo
com ajuda dos indígenas tupiniquins.
O sonhei desse jeito
ao contemplar seu marcial porte,
adereços de gala,
em um retrato majestoso
do acervo da Casa da Memória
em Vila Velha.

Acho que observei, estou convencido,
o Padre José de Anchieta
caminhando catorze léguas
pelo caminho da praia,
desde Reritiva até Vitória,
onde se alçavam a igreja e o colégio
de São Tiago.

Vivi o momento prateado da vertigem
na Ladeira de Pelourinho em Vitória.
Maria Ortiz se fiz heroína
-madeira em chamas, pedras, agua fervente-
ardor e coragem contagiosos
contra os atacantes
holandeses.

Alagava o sol minhas pupilas,
não obstante, pude pensar
que é obrigação do escravo escapar,
e de quem assina um contrato
conseguir que se cumpra
do princípio ao fim
no tempo acordado.

Pelo que tenho lido de Afonso Cláudio,
que se tornou abolicionista em Recife,
efeito natural e lógico;
e o que ouvi da boca do protagonista quando
desde Mestre Álvaro chegou a meu amado Rochedo,
Elisiário escapou da morte pela audácia
de sua vontade indomável.

Ide a Queimado, em Serra,
vereis que aí estão,
ainda firmes, os restos da igreja
lembrando -causa e consequência-
os inolvidáveis acontecimentos.

Elos de uma cadeia inacabável,
os anos chegam
a mil novecentos e vinte e dois
quando,
Amazônia cultural com a força
de um período geológico,
Brasil dá à luz
o Modernismo.

Leitor fascinado desde a infância,
no Penedo leio a revista Klaxon
junto a Mario e Oswald de Andrade,
confidência do Itabirano Carlos
Drummond, também de Andrade,
Pagu, Tarsila e Bandeira;
sete amantes
da liberdade e da renovação
escrevendo, pintando, ruas cheias de gente,
pessoas que saem das casas
e caminham pelos povos
e pelas cidades,
falando de suas coisas em sua linguagem clara.
Abaporú e Antropofagia, potência
para impulsionar A máquina do mundo
que transportará o Brasil ao mundo
com o mundo.

Penso em Pagu no Largo de São Francisco.
A inteligente, bela e forte lutadora,
saia azul e branca de normalista,
lábios pintados de roxo,
caminho à Escola Normal onde aprendia,
chamava a atenção dos estudantes
da Faculdade de Direito.
Amei a Pagu ao ler Parque Industrial,
ainda a amo.

Eu queria escrever
um soneto com o conteúdo deste poema;
pois sei
que o soneto, mais que diamante literário
é turmalina de Paraíba.
Contudo
o soneto exige a perfeição
para alcançar seu efeito mais atraente.

Estamos em terra de sonetistas,
tenho na minha memória exemplos
como os de Beatriz Monjardin
em Floradas de inverno
mais os de Ainda o soneto de Athayr Cagnin
ou os Sonetos insones de Matusalém
Dias de Moura.
Em consequência,
o soneto foi descartado
dada minha incapacidade manifesta.

Nas escritoras capixabas pretendo
homenagear as mulheres
que tiveram
obstáculos de toda espécie
para desembrulhar sua paixão criadora e,
perseverantes, os venceram.

Adelina Tecla Correia Lyrio, capixaba
desde o ano 1863,
foi avançada na publicação de
poemas próprios em jornais,
participando nas campanhas abolicionistas
e nos saraus literários onde
se declamavam poemas
escritos pelas mulheres.

Haydée Nicolussi,
nascida em Alfredo Chaves no ano 1905,
com produção literária reconhecida
em todo o país,
“originalidade de estilo e audácia de ideias”,
publicou o livro Festa na sombra, depois
de sair da cadeia acusada
de ter participado na Revolta Vermelha
a favor da reforma agrária.

Maria Antonieta de Siqueira Tatagiba,
de São Pedro de Itabapoana,
nascida em 1916 morreu na idade
dos elegidos, trinta e três anos.
Dificuldades económicas a impediram
seguir os estudos de medicina.
Foi a primeira mulher
capixaba
em publicar um livro.
Divulgou, em 1927, Frauta agreste,
de poesia rítmica cheia de beleza.
“A Natureza toda é frescor, louçania…”

Maria Bernardette Cunha de Lyra,
nascida em Conceição da Barra
no ano 1938,
ocupa a cadeira número 1 da Academia
Espírito-santense de Letras,
tem publicada uma obra copiosa e magnífica
onde ilumina as mulheres
e o mundo feminino.

E assim, há outras autoras,
capixabas de raiz, coração ou pensamento,
muito valiosas.

Nestes tempos de incerteza,
ano dois mil e vinte,
quando a pandemia abate as pessoas
em várias vertentes,
Ester Abreu assume a presidência
da Academia Espírito-santense de Letras,
instituição sólida que pronto
cumprirá cem anos.

A mesma Ester
o dez de agosto convoca a reunião
dos acadêmicos de cadeira
e membros correspondentes.

Por isso, todos nós,
para evitar o maior contágio de lugar fechado,
deixamos momentaneamente
a sede da Casa Kosciuszko Barbosa Leão
e ocupamos o Penedo às dezoito horas,
vestindo máscara facial
e mantendo a distância social preventiva.

Tratados os assuntos comuns
cada um fala dos seus trabalhos atuais
e dos propósitos
para um futuro que não mostra a nariz.

Eu exponho a minha conclusão.
Filosofia, metafísica, teosofia, naturalismo,
sociologia, psicologia: entendo a espécie
humana no conjunto e nas partes:
homo homini lupus; amor, primeira
força
metafórica.
Estou bem preparado: me disse.
Mas, ¿sei aonde vou?
Não estou seguro, embora este sonho
quiçá marque o caminho.

No alto da coluna do Penedo,
ao modo de São Simão o Estilita,
deixo o relato de meu sonho capixaba
para que vocês,
se esse é seu gosto,
possam interpretá-lo.

PSde J, Vitória ES, através dos séculos.

 

 

 

 

 

 

MI SUEÑO CAPIXABA

Pedro Sevylla de Juana

Mi sueño capixaba es un poema de cuatrocientos versos, escrito de un tirón en lengua portuguesa. Tardé veinte días, investigación incluida, en tener el texto completo; y otros diez en corregirlo. Es necesario añadir que trabajaba durante el día y parte de la noche. Mi inmersión fue tan profunda que llegué a pensar en portugués; algo que nunca había ocurrido. En dos días lo traduje al castellano, tratando de conseguir el ritmo propio del idioma. Y todo ¿por qué? La razón, creo, es que me sentí capixaba por encima de fronterizo.

 

 

MI SUEÑO CAPIXABA

Pasaba el tiempo alimentándome
de historia, geografía y literatura,
de una tierra más interesante que ninguna otra.
Eran días y noches de trabajo intenso,
comiendo y durmiendo menos que un saviá.
Mirando las estrellas para individualizarlas y reconocerlas,
caí en un sueño profundo con la cabeza
apoyada en la mesa del jardín.

Todo comienza cuando el planeta Tierra
se torna habitable,
recibiendo en los meteoritos la esencia
y los primeros indicios
de la vida más sencilla.

Luego sucedió el período Cámbrico,
allá en la era Paleozoica,
hace de eso
quinientos millones de años,
cuando la existencia estalló en su totalidad
produciendo
la gigantesca explosión de vida
de la que tanto se ha escrito.

Yo era un trilobites
en aquella época remota,
artrópodo de tres lóbulos, que,
ciertamente,
había visto con gran interés,
ya fosilizado, en la clase de ciencias
naturales del colegio La Salle.

Vivía haciendo amigos en el agua
para defenderme de los enemigos,
ignorando que, fuera,
la vida no sería posible
hasta que la capa de ozono alcanzara
un espesor suficiente
para detener las radiaciones solares
más peligrosas.

Estando en el período Devónico
-abro un paréntesis para decir
que viene el nombre del condado de Devon,
próximo a Cornwall, donde pasé un verano
estudiando inglés con mis hijos-
así pues, en el Devónico
veo deslizarse mansamente,
aún ingenuo, el primer atardecer
de una solemne primavera,
silencio indescriptible
roto por el ritmo inarmónico
del incremento y desaparición
de especies evolutivas.

Mientras salto de la estrofa anterior
pasan cientos de millones de años,
y después de ese lapso
la Tierra cambia del todo.
Los movimientos de las placas tectónicas
sobre el manto
deshacen la crecida Pangea,
estableciendo al sur un continente inmenso
conocido como Gondwana.

Una parte formidable de él
es el intrincado laberinto de posibilidades
que ahora se llama Brasil.
La tierra fecunda cruzada por una pareja
de colibríes,
actual Estado de Espíritu Santo,
solo era un campo carente de frutos,
ni siquiera aquellos que producirían
en su momento
los mejores azúcar y café del mundo.

En el borde contemplo una isla alta y hermosa
de origen volcánico.
Hay lava ardiente en su interior
aunque carezca aún de nombre.
Emergiendo del agua más cercana
aparece un promontorio granítico
que alguno de nosotros denominó
Peñedo.

Pues bien,
en la cima de la roca
éramos cuatro líricos épicos
sentados en círculo.
Cordados entusiastas del equilibrio y la armonía,
los cuatro soñadores intentábamos
producir una música espontánea
que, con algo de choro,
decidimos llamar Samba.

Joaquim Machado de Assis,
autodidacta de vivo ingenio,
vida plácida de literato grande,
superioridad intelectual,
serenidad y firmeza en un rostro
rodeado por la línea del cabello,
barba y bigotes crecidos,
le interesaba todo, admiraba a Carola,
y viniendo de abajo
llegó a ser el primer presidente
de la Academia
Brasileira de Letras.

Hilda Hilst
hija única y alumna de internado,
la verdad, el amor, la libertad y la dicha,
resonaban en ella como palabras crecidas en lo alto
de las nubes inaccesibles.
Necesitaba ser feliz
y la felicidad y el deseo,
horizonte detrás del horizonte,
jugaban con ella al escondite.
Entroncada en el tiempo y en el espacio,
catarata intermitente, yegua alada
y bandera ondeando agitada de dudas,
su instante arderá
indefinidamente.

Antonio de Castro Alves,
cabellera al viento reclamando
libertad y justicia para los oprimidos
-mocidade e morte-
veinticuatro años de existencia,
vividos con intensidad poética admirable,
le bastaron para dejar
una inspirada obra en dos vertientes,
épica y lírica,
complementarias.

Sobre el ya Peñedo,
cerca de la no Vitória todavía
pero siempre isla acogedora,
en el tranquilo anochecer
roto por la indómita perseverancia
del tiempo transcurriendo y transcurriendo,
los cuatro vates dueños de una
irreprimible pasión creadora,
soplábamos música en la trompeta
de quien iba a ser mi amigo Satchmo.

Es fácil comprender
que el Peñedo es para la Isla
lo que la Isla es para Brasil y el Continente:
centinela de la entrada,
defensa
y faro.

El sueño desprecia el orden
y tergiversa la continuidad del tiempo,
pero es cierto que hace cincuenta mil años
en la garganta de los humanos nació la palabra,
y cuando la palabra fue
la palabra tupí explicó la belleza
descubierta por los cinco sentidos
y la intuida,
añadiendo las experiencias propias,
las oídas y las imaginadas.

La difusión oral de cuentos e historias
entre los tupiniquins
será, por consiguiente, rica y provechosa.
Tanto es así que, según Elpídio Pimentel,
hasta O Penedo hablaba,
contando a las personas
sabrosas historias capixabas.
Aunque la relación paterno-filial
del autor con su obra no se afianzará
hasta llegar la escritura.
Después de leer el pensamiento
de Policarpo Cuaresma,
hijo intelectual de Lima Barreto,
me pareció muy encomiable
que el Padre Anchieta comenzara
a escribir la lengua tupí.

Pienso que, si el Reformista no hubiera
sustituido completamente
el uso del Nheengatu por el portugués,
las dos hablas aún convivirían
fortaleciéndose;
de modo que los escritores profesionales,
llegado el año mil novecientos veintiuno,
se habrían reunido
en el mismo Club Boémios
para fundar la Academia
Espíritu-santense de Letras.

La erosión y el hombre fueron quitando
y quitando,
pero entonces era más alto el Roquedo,
más dilatado, mayor;
por eso pude encontrarme allí
con escritores amigos:
_____Muchacha de Sacramento,
mujer de favela,
salió tu libro de ese Quarto de Despejo,
voló alto y lejos, palomita mensajera,
llovió el dinero en forma de diluvio universal
y te llegó en la distribución
una parte pequeña.
_____Discutíamos Ester Abreu y yo
sobre algunos aspectos confusos de Don Juan
bajando a los infiernos
para surgir de nuevo
andrógino,
triunfante,
celestial.
_____Miscigenação. Dice de mí Gilberto
de Mello Freyre, que soy la afortunada conjunción
de orígenes miscibles, de mezcladas culturas;
y asegura que es el mestizaje
el principio del progreso progresivo
y la constante de los avances todos.
_____ Se desarrollaban el sueño y el ensueño
intemporales
o con los tiempos mezclados,
en un Sertão imaginario
que,
partiendo de Euclides da Cunha, Graciliano
Ramos, Guimarães Rosa
y Jô Drumond,
era la suma de todos los Sertões:
arideces existenciales, aleph,
vidas secas,
imaginación
y utopía.

Fronterizo yo, estaba en el centro
cuando pude contemplar desde el Peñedo,
trescientos sesenta grados alrededor,
los trigales
mar de primavera en Valdepero, ermita
de San Pedro y de la Virgen del Consuelo,
castillo, arco de la muralla,
Colegiata de Husillos, sitios históricos de Muqui
y São Mateus,
Santuário de Nossa Senhora da Penha
y fray Pedro Palacios en la gruta,
estaciones de Marechal Floriano y Matilde,
los troncos erguidos y firmes de la Mata Atlántica Capixaba,
la Pedra Soares de Ponto Belo.
Hacía calor y llovía.

Vi abajo al alentejano Vasco
Fernandes Coutinho en la Prainha,
desembarcando de la nave Gloria
con la decidida intención de establecer
la Vila do Espírito Santo y, después,
Vila Nova de ser necesario
como sucedió luego
con la ayuda
de los indígenas tupiniquim.
Lo soñé de esa manera
al contemplar su porte marcial,
vestimenta de gala,
en un retrato majestuoso
del acervo de la Casa da Memória
en Vila Velha.

Creo que observé, estoy convencido,
al Padre José de Anchieta caminando
catorce leguas
por el camino de la playa,
desde Reritiva hasta Victoria,
donde se alzaban la iglesia y el colegio
de Santiago.

Viví un momento plateado del vértigo,
Ladeira de Pelourinho en Vitória.
María Ortiz se hizo heroína
-madera en llamas, piedras, agua hirviendo-
ardor y coraje contagiosos
contagiados
contra los atacantes holandeses.

Inundaba el sol mis pupilas,
no obstante, pude pensar
que es obligación del esclavo escapar,
y de quien firma un contrato
conseguir que se cumpla
de principio a fin
en el tiempo acordado.

Por lo que he leído de Afonso Cláudio,
que se hizo abolicionista en Recife,
efecto natural y lógico;
y lo que oí de la boca del protagonista cuando
desde Mestre Álvaro llegó a mi amado Roquedo,
Elisiário escapó de la muerte por la audacia
de su voluntad indomable.

Id a Quemado, en Serra,
veréis que allí están,
aún firmes, los restos de la iglesia
recordando -causa y consecuencia-
los inolvidables acontecimientos.

Eslabones de una cadena inacabable,
los años llegan
a mil novecientos veintidós
cuando,
Amazonía cultural con la fuerza de un período geológico,
Brasil da a luz
el Modernismo.

Lector fascinado desde la infancia,
en el Peñedo leo la revista Klaxon
junto a Mario y Oswald de Andrade,
confidência do Itabirano Carlos
Drummond, también de Andrade,
Pagu, Tarsila y Bandera;
siete amantes
de la libertad y de la renovación
escribiendo, pintando, calles llenas de gente,
personas que salen de las casas
y caminan por los pueblos
y las ciudades
hablando de sus cosas en su lenguaje claro.
Abaporú y Antropofagia, potencia
para impulsar A máquina do mundo
que transportará Brasil al mundo
con el mundo.

Pienso en Pagu, Largo de São Francisco.
La inteligente, bella y fuerte luchadora,
falda azul y blanca de normalista,
labios pintados de color púrpura,
camino de la Escuela Normal donde aprendía
llamaba la atención de los estudiantes
de la Facultad de Derecho.
Amé a Pagu cuando leía Parque Industrial,
aún la amo.

Yo quería escribir
un soneto con el contenido de este poema;
pues sé
que el soneto, más que diamante literario,
es turmalina de Paraíba.
Sin embargo,
el soneto exige perfección
para lograr su efecto más atractivo.

Estamos en tierra de sonetistas,
tengo en mi memoria ejemplos
como los de Beatriz Monjardin
en Floradas de inverno
más los de Ainda o soneto de Athayr Cagnin
o los Sonetos insones de Matusalén
Dias de Moura.
En consecuencia,
el soneto fue descartado
dada mi incapacidad manifiesta.

En las escritoras capixabas pretendo
homenajear a las mujeres
que tuvieron
obstáculos de toda especie
para desenredar su pasión creadora y,
perseverantes,
los vencieron.

Adelina Tecla Correia Lyrio,
capixaba desde el año 1863,
fue avanzada de la publicación de poemas
en los periódicos,
participando en campañas abolicionistas
y en fiestas literarias donde
se declamaban poemas
escritos por las mujeres participantes.

Haydée Nicolussi, nacida en Alfredo Chaves
el año 1905, es dueña
de una producción literaria reconocida
en todo el país.
«Originalidad de estilo y audacia de ideas»,
publicó el libro Festa na sombra, después
de salir de la cárcel, acusada
de haber participado en la «revuelta roja»
a favor de la reforma agraria.

María Antonieta de Siqueira Tatagiba,
de San Pedro de Itabapoana,
nacida en 1916 murió a la edad
de los elegidos, treinta y tres años.
Dificultades económicas le impidieron
seguir los estudios de medicina.
Fue la primera mujer
capixaba
en publicar un libro.
Divulgó, en 1927, Frauta agreste,
de poesía rítmica llena de belleza.
«La Naturaleza toda es frescura, lozanía…»

Maria Bernardette Cunha de Lyra,
nacida en Conceição da Barra
en el año 1938,
ocupa la silla número 1 de la Academia
Espíritu-santense de Letras,
ha publicado una obra copiosa y magnífica
donde ilumina a las mujeres
y al mundo femenino.

Y así, hay otras autoras,
capixabas de raíz, corazón o pensamiento,
ciertamente valiosas.

En estos tiempos de incertidumbre,
año dos mil veinte,
cuando la pandemia abate a las personas
en varias vertientes,
Ester Abreu asume la presidencia
de la Academia Espíritu-santense de Letras,
institución sólida que pronto
cumplirá cien años.

La misma Ester
el día diez de agosto convoca la reunión
de los académicos de silla
y miembros correspondientes.

Por eso, todos nosotros,
para evitar el mayor contagio de lugar cerrado,
dejamos momentáneamente
la sede de Casa Kosciuszko Barbosa Leão
y ocupamos el Peñedo a las 18 horas,
vistiendo máscara facial
a más de mantener la distancia preventiva.

Tratados los asuntos comunes,
cada uno habla de sus trabajos actuales
y de los propósitos
para un futuro que no muestra la nariz.

Yo expongo mi conclusión.
Filosofía, metafísica, teosofía, naturalismo,
sociología, psicología: entiendo la especie
humana en conjunto y en las partes:
homo homini lupus; amor, primera
fuerza
metafórica.
Estoy bien preparado: me dije.
Pero, ¿sé adónde voy?
No estoy seguro, aunque este sueño
quizás marque el camino.

En lo alto de la columna del Peñedo,
al modo de San Simón el Estilita,
dejo el relato de mi sueño capixaba
para que ustedes,
si ese es su gusto,
puedan interpretarlo.

PSdeJ, Victória ES, a través de los siglos.

 

 

 

 

Praia de Camburi, espaço de arribadas

Poema de Pedro Sevylla de Juana

Água de mar feita espuma
terminal e instável; explosivas
borbulhas sobre os grãos
dessa areia que é prólogo e epílogo,
logradouro de entrelaçados
ritmos mutáveis dos passos múltiplos,
palmeiras
firmes,
erguidas,
escuro asfalto ardente
e elevadas torres cidadãs
origem de miradas
extensas, intensas, satisfeitas.

Na cerimônia de aproximação
eu vi a fita completa desde o ar
ao aterrissar no vizinho aeroporto
Eurico de Aguiar Salles
onde encontrei a bagagem perdida em Guarulhos,
milagre ainda não explicado
pela ciência mais prática.

Com a satisfação de ter chegado
ao sonho vivido em vários sonos
vi a longa e estreita tira
abraçada pela água e os veículos,
crescendo ao comprido como única
solução possível
para seu afã expansivo
e a luminosidade respeitosa.

A soube logo
praia ilustrada como os frisos das aulas,
como os pássaros do campus
pela sua proximidade à UFES
onde conferenciei ao redor de minha escrita
e sobre Ibéria e sua consequência:
Universo ibérico
aliança de enorme projeção nesse
aglomerado americano de ideias e culturas,
sul do norte, centro, verdadeiro sul, em dois idiomas
principais, minhas duas pátrias.

Atalaias de edifícios vicinais,
carros avançando em ordem aleatória
sobre um pavimento de ida e volta
que descansa nos domingos;
passeio povoado de aguadeiros de coco,
pedestres descuidados e ondulantes bicicletas.
Fotografei um homem,
africano ainda e já brasileiro íntegro,
elevado ele sobre dois patins e sorrindo
ao fazer uma quebra amigável
que ajudava a alinhar
minha momentânea confusão.

Mar, mar, mar
inseparável companheiro da praia, cúmplice
desse amor desejado e impossível;
árvores e arbustos famintos de afetos
sobre areia incontável,
fina língua disgregada em finos grãos
e água chegada em ondas moribundas,
agonizantes
séculos e séculos, noite e dia;
Praia de Camburi, domesticada orla,
caminho
vereda
senda
relações pessoais, esportes, dança, vida
lugar do mundo situado
em Vitória ES Brasil.

Praia continental que procura
o amoroso encontro
com a Ilha de solidão:
bastião forte,
castelo outrora inexpugnável
e hoje quase península,
pontes que são braços
de seda ou amarras de navio.

Amável Praia de Camburi:
areia,
areia,
areia
milímetros, centímetros, decímetros, metros;
decâmetros, hectómetros, quilómetros
de areia, areia, areia, seis
quilómetros para caminhar,
correr, saltar, praticar ou ver
os jogos de equipa confrontados
em nobre lide.

Jovens esculturas de carne e osso,
homens e mulheres de combinadas
origens levam ao limite as inesgotáveis
possibilidades que oferece a praia:
Roma humana e viva, Atenas
de esbeltos corpos íntegros;
atletas e ginastas,
cabeça, corpo
e extremidades
ativos,
vivos,
sangue e nervos,
músculos ungidos
em conjunção insuperável.

Areal de nascimentos, crescenças e agonias,
de abraços amigáveis e amorosos,
mãos à conquista da pele
bocas famintas de antigas expressões
amor em todas formas e intensidades.

Água contaminada de resíduos
humanos e desumanos,
sob o céu azul com pinceladas
cinzentas, esbranquiçadas, turvas.
Aves marinhas sobrevoando as moribundas
ondas
me comovem hoje tanto como
os peixes ao engolir o anzol coberto de isca
que os pescadores lançam desde o píer
da Orixá Yèyé omo ejá, dita aqui Iemanjá,
mãe dos peixes
filhos seus capturados nesse espaço.

Orla húmida de pegadas antigas,
amanhecer do primeiro dia
da Nova História,
quando as músicas Tupinambá e Tupiniquim
soavam no confim oriental
e foram silenciadas de repente
pelo arribo dos indefiníveis conquistadores:
espada e cruz sobre armaduras
a cavalo
falantes da língua portuguesa
vencedora final da resistente tupi-guarani
arengas e orações
versos de Anchieta:
evangelizador enraizado na Castela
daqueles nobres camponeses
dos que provenho.

Tenho visto nascer o sol magnífico
se elevando sobre Tubarão como uma hóstia
no ato da transubstanciação,
mãos do sacerdote alçadas
desde essa margem terminal,
que é ponta
e cabo
conformando a extensa baía.

Meu coração, em sua parte capixaba,
se despede na distância a cada ano do ano
velho que se vai à intangível inspiração:
água, areia, fogo,
ar
e tempo:
os cinco elementos se fazendo unidade
inseparável.

Mitifiquei essa praia de contrastes
e tanto, tanto a sinto,
tão palpável
e tão vivo guardo ainda o seu recordo
que, as minhas saudades
muitas noites nela me sonham.

PSdeJ Vitória ES, novembro de 2016

 

 

 

 

Playa de Camburi, espacio de arribadas

Pedro Sevylla de Juana

Agua de mar hecha espuma
terminal e inestable;
explosivas
burbujas sobre los granos
de esa arena que es prólogo y epílogo,
paseo de entrelazados
ritmos cambiantes
de los pasos múltiples,
palmeras estables,
enhiestas,
oscuro asfalto caliente
y elevadas torres ciudadanas
origen de miradas
extensas, intensas, satisfechas.

En la ceremonia de aproximación
vi la cinta completa desde el aire
al tomar tierra en el vecino aeropuerto
Eurico de Aguiar Salles
donde encontré el equipaje perdido en Guarulhos,
milagro aún no explicado
por la ciencia más práctica.
Con la satisfacción de haber llegado
al sueño vivido en varios sueños
vi la larga y estrecha tira
abrazada por el agua y los vehículos,
creciendo a lo largo como única
solución posible
para su afán expansivo
y la luminosidad respetuosa.

La supe luego
playa ilustrada como los frisos de las aulas
como los pájaros del campus
por su proximidad a la UFES
donde conferencié alrededor de mi escritura
y sobre Iberia y su consecuencia:
Universo Ibérico
alianza de enorme proyección en ese
aglomerado americano de ideas y culturas
sur del norte, centro, verdadero sur, en dos idiomas.
principales, mis dos patrias.

Atalayas de edificios vecinales,
automóviles avanzando en orden aleatorio
sobre un pavimento de ida y vuelta
que descansa los domingos;
paseo poblado de aguadores de coco,
peatones descuidados y ondulantes bicicletas.
Fotografié a un hombre,
africano aún y ya brasileño íntegro,
elevado sobre dos patines y sonriendo
al hacer un quiebro amistoso
que ayudaba a alinear
mi momentánea confusión.

Mar, mar, mar
inseparable compañero de la playa,
cómplice
de ese amor deseado e imposible;
árboles y arbustos hambrientos de afectos
sobre la arena incontable,
delgada lengua disgregada en finos granos
y agua llegada en olas moribundas,
agonizantes,
siglos y siglos, noche y día,
Playa de Camburi, domesticada orla
camino
vereda
senda
relaciones personales, deportes, danza, vida,
lugar del mundo situado
en Vitória ES Brasil.

Playa continental que busca
el amoroso encuentro
con la Isla de soledad,
bastión fuerte,
castillo otrora inexpugnable
y hoy casi península,
puentes que son brazos
de seda o amarras de navío.

Amable Playa de Camburi:
arena
are
na
arena;
milímetros, centímetros, decímetros, metros;
decámetros, hectómetros, kilómetros
de arena, arena, arena,
seis
kilómetros para caminar,
correr, saltar, practicar o ver
los juegos de equipos confrontados
en noble lid.

Jóvenes esculturas de carne y hueso,
varones y hembras de combinados
orígenes llevan al límite las inagotables
posibilidades que ofrece la playa:
Roma humana y viva, Atenas
de esbeltos cuerpos íntegros,
atletas y gimnastas,
cabeza, cuerpo y extremidades
activos,
vivos,
sangre y nervios,
músculos ungidos
en conjunción insuperable.

Arenal de nacimientos, desarrollos y agonías,
de abrazos amigables y amorosos,
manos a la conquista de la piel,
bocas hambrientas de antiguas expresiones
amor en todas sus formas e intensidades.

Agua contaminada de residuos humanos
e inhumanos
bajo el cielo azul con pinceladas grises,
blanquecinas, turbias.
Aves marinas sobrevolando
las moribundas olas,
me conmueven hoy
tanto como los peces al engullir
el anzuelo cubierto de cebo,
que los pescadores lanzan desde el muelle
de la orisa Yèyé omo ejá,
dicha aquí, Iemanjá,
madre de los peces,
hijos suyos
en ese espacio capturados.

Orla cuajada de antiguas huellas,
amanecer del primer día
de la Nueva Historia,
cuando las músicas tupinambá y tupiniquim
sonaban en el confín oriental
y de pronto fueron silenciadas
por el arribo de los indefinibles conquistadores:
espada y cruz sobre armaduras a caballo
hablantes de la lengua portuguesa
vencedora final de la resistente tupí guaraní
arengas y oraciones
versos de Anchieta:
evangelizador enraizado en la Castilla
de aquellos nobles campesinos
de los que provengo.

He visto nacer el sol magnífico
elevándose sobre Tubarão como una hostia
en el acto de la transustanciación
manos del sacerdote alzadas
desde esa orilla terminal,
que es punta
y cabo
conformando la extensa bahía.

Mi corazón, en su parte capixaba,
se despide en la distancia cada año del año
viejo que se va a la intangible inspiración:
agua, arena, fuego
aire
y tiempo:
los cinco elementos haciéndose unidad
inseparable.

Mitifiqué esa playa de contrastes
y tanto, tanto la siento,
tan palpable
y tan vivo guardo aún su recuerdo
que, mis saudades,
muchas noches en ella me sueñan.

PSdeJ Vitória noviembre de 2016

 

 

 

Rev. Acad. Espírito-santense de Letras, Vitória, v.25, p. 105, 2020

 

Dilúvio na resseca terra da fome

Pedro Sevylla de Juana

Escritor e poeta espanhol, publicou vinte e oito livros e é membro correspondente da AEL.

Com uma pena de cálamo partido,
o homem desguarnecido se acastela,
pó em água diluído,
tinta viscosa surgida da testa.

É uma pluma somente
e a branca superfície do papel
em seta, em adaga a converte;
a palavra que perfilo é um ipê
lançado contra o céu inexpugnável e inclemente,
para desaguar, face e invés,
seus transbordantes recipientes.

Vão sendo as seis e o ativo povo
-do acampamento alçado num córrego ressequido-
em círculos de pedra aviva o fogo,
e com a tranquilidade de quem ignora os perigos,
apressa lidas diferidas pelo breve ócio
ou desprega lembranças dos tempos idos.

Placas de lata formam tetos e paredes,
entulhos de algum derrubo, tabelas rompidas,
frágil refúgio destinado a proteger da intempérie.

O vento avisa com seu assobio ralo,
um cheiro de crisântemo vivo
vem do Norte carregado de presságios:
calaram-se os grilos
e os pardais agitados
revolteiam em círculo.

Recolhe raios o sol, embainha sua soberba,
retrocede e foge dos horizontes nublados
embutidos em armaduras pretas,
guerreiros sobre apocalípticos cavalos
que manifestam uma cólera densa.

Urgidas galopadas das pernas,
a primeira gota inaugura o desconcerto,
cauta emissária das companheiras,
as que ocultam o sol fátuo e incerto
esperando instruções mais concretas.

Chove a negrura que a perspectiva afasta,
nos confines se confundem as linhas de chegada e de partida,
piscando resplendores se agita o deus da borrasca
visos perversos que agigantam as vistas,
numa tarde de verão bem bastarda.

Presto o altar, a oblação desconhece os desígnios;
procissões de nuvens chegam ao lugar dos fatos
seguindo a ordem imutável dos avisos.

As temperaturas elevadas,
necessitadas de paciência,
perfuram a barreira da exígua enramada;
os indômitos vales desfocados centelham
e desde o alto das nuvens altas
desordenadamente desce a tragédia.

Descobre o olho torvo em solitária cavalgada,
o temor oculto dos campos às ingratas sementeiras;
neste lugar o mau augúrio aguarda,
em toda parte a ferida fica aberta,
por ali chega a morte acaçapada,
suspeitada e, sem embargo, manifesta.

As gotas compõem milhões dilatados
e uma sozinha é vida no deserto,
adição do mar não desbordado;
uma gota não é perigo verdadeiro,
nem cem juntas, nem mil vezes um vaso.

Com quatro nuvens irritadas se forma uma tormenta,
três tormentas cabem num vale,
são três os vales convergentes, e mais de quarenta
as nuvens que acumula a grande nuvem resultante.

Toneladas de água vão ressoprando a galerna,
ingente quantidade de metros cúbicos desprendidos da altura,
uma fortuna se cai no lugar da carência:
terra resseca e esquartejada,
balbuciante agricultura,
feijões, tubérculos, centeio, aveia
erva agostada e murcha,
alimento que salva da morte verdadeira
protegendo da fome uma temporada curta.

Apedrejam as nuvens com ouro a puna e a savana,
centos de milhões de onças caem no absorvente solo,
valioso pasto para milhares de vacas
que morreriam num jejum novo.

Água vai!: exclama o céu perto da porta,
e a nuvem total, o universo inteiro, as líquidas esferas,
abrem as comportas e em menos duma hora
cai destruidora a água chegada de todos os planetas.

Os pés não encontram solo, se dissolve a terra,
todo é líquido solto e sua força de arrasto,
arrasta rolando as roladas pedras.

Os ramos se desgalham de choupos e albízias
troncham-se os caules das plantas,
o deus da morte exige um centenar de vítimas
e a dor das sobrevivências rasgadas.

Há famílias abaixo, pessoas de todas as idades,
borbotões de sensibilidade e de ternura,
cachorros e gatos em plena liberdade,
utensílios, úteis de pesca, ferramentas rústicas,
amor à Natureza muito grande.

Se volta contra o homem o enxoval diário,
arrasa arrasado e é espada;
é martelo, é estaca, é maço;
é machado violento, é cortante navalha.

Resistem os valentes esbanjando brios
e agonizam em tentativa vã de minorar o desamparo
impelindo os mortos aos vivos
enquanto escapam os covardes ficando salvos.

Troca-se a terra em pegajoso limo,
formam dique as lenhas e as pedras,
fixação de mares bem nutridos;
e num instante que os fados desprezam
escapam os desbordantes fluidos.

Exaltados relinchos de cavalo
das gargantas irrompem fugitivos,
bramidos de touro ensanguentado
e desgarradores gritos
nascidos do sofrimento desumano
elevam sua queixa ate o divino.

É angustiosa a impotência,
e depois do instante eterno que dura a agonia,
insultam os feridos a quem executa a sentença.

A morte forma feixes de corpos:
mãos unidas às mãos,
braços suspendidos dos pescoços,
rostos pegados aos lábios,
dentes mordendo o nervo afetuoso
do amor apaixonado.

São alicerces os troncos em carne viva abertos,
suportando o peso dos muros derrubados,
dos precipitados tetos.

As lascas, incisivas como alfanjes,
e as árvores arrancadas da terra mãe,
são armas para o descomunal gigante
que vomita a água dos sete mares
sobre pessoas acostumadas ao abuso do grande.

Quando o céu aclara sua cor e o temporal decresce,
oferecendo evidências ficam os despojos:
cabeças aplastadas por pedras inocentes,
extremidades presas debaixo dos escombros,
ventres inchados sobre desnutridos ventres,
corpos oprimidos cobertos de lodo.

O lodo, o lodo, o lodo detido;
o lodo desprende de seu seio improvisado,
a expectativa de encontrar algum respiro
e o fedor dos restos putrefatos.

Os cadáveres descobertos pela água,
são empurrados rio abaixo,
até o espaço que acolhe na enseada,
o varro e a madeira, os seixos rolados.

O amanhecer acorda destruído:
a batalha desigual -só um bando-
tem deixado um esplendor despido,
coberto por membros descarnados,
de impossível retorno aos caminhos.

Nos morros inclinados, nos rochedos,
nas sumidas adjacências,
nos álveos lisos dos rios secos,
alçam os párias da terra,
seus arraiais efêmeros, as frágeis vivendas.

E o céu castiga
sua extrema pobreza
e a ousadia.

(PSdeJ, Diversos lugares desde o ano 2011)

 

 

Traducción

Diluvio en la reseca tierra del hambre

Con una pluma de cálamo partido,
el hombre desguarnecido se defiende,
polvo en agua desleído,
tinta viscosa surgida de su frente.

Es una pluma solamente
y la blanca superficie del papel
en flecha, en daga la convierte;
la palabra que perfilo es un ciprés
lanzado contra el cielo ilusorio e inclemente,
para desaguar, haz y envés,
sus rebosantes recipientes.

Van siendo las seis y el campamento
-alzado en la madre de un torrente dormido-
en círculos de piedra aviva el fuego,
y con la placidez de quien ignora los peligros,
apura faenas diferidas por el breve asueto
o desata recuerdos de los tiempos idos.

Planchas de hojalata forman techos y paredes,
cascotes de algún derribo, tablas rotas,
refugio destinado a expulsar a la intemperie.

El viento lo avisa con su silbo ralo,
un olor a crisantemo marchito
viene del Norte cargado de presagios:
se han callado los grillos
y los gorriones turbados
revolotean en círculo.

Recoge rayos el sol, envaina su soberbia,
retrocede y huye ante ejércitos de nubes
embutidas en armaduras prietas,
amazonas sobre corceles infernales
que hostigan una cólera densa.

Urgidas galopadas de las piernas,
la primera gota inaugura el desconcierto,
cauta avanzadilla de sus compañeras,
las que ocultan el sol fatuo e incierto
esperando instrucciones más concretas.

Llueve la negrura que aleja la esperanza,
se enredan las líneas de llegada y de partida,
retador se agita el dios de la borrasca
visos perversos que agigantan lejanías,
en una tarde de verano bien bastarda.

Presto el improvisado altar,
la ofrenda desconoce los designios;
hileras de nubes van llegando al lugar
siguiendo el orden inmutable del aviso.

Las temperaturas elevadas, faltas de paciencia,
perforan la barrera de la exigua enramada;
los indóciles montes desdibujados centellean
y desde lo alto de las nubes altas
ordenadamente se dispone la tragedia.

Descubre el ojo torvo en solitaria cabalgada,
el temor del campo a las malas cosechas;
por doquier el mal augurio aguarda,
por doquier la herida se sincera,
por doquier la muerte presentida,
insospechada y, sin embargo, manifiesta.

Son millones las gotas
y una sola es vida en el desierto,
añadidura del mar no desbordado;
una gota no es peligro verdadero,
ni diez juntas, ni mil veces un vaso.

Con cuatro nubes se forma una tormenta,
tres tormentas caben en un valle,
son tres los valles convergentes, y treinta
las nubes que acumula la nube resultante.

Toneladas de agua resopla la galerna,
infinidad de metros cúbicos caídos de la altura,
una fortuna si se lleva al lugar de la carencia:
tierra reseca y cuarteada, enerve agricultura,
fréjoles, tubérculos, centeno, avena
hierba agostada y mustia,
alimento que salva de la muerte cierta
protegiendo un tiempo breve de la hambruna.

¡Agua va!: exclama el cielo como en broma,
y la nube total, el universo de líquidas esferas,
abren las compuertas y en menos de una hora
cae el agua reunida por todos los planetas.

Los pies no pisan suelo, se disuelve la tierra,
todo es líquido suelto y su fuerza de arrastre,
arrastra rodando las rodadas piedras.

Las ramas se desgajan de chopos y de encinas
se tronchan los tallos de las plantas,
el dios de la muerte exige cien víctimas
y el dolor de las supervivencias desgarradas.

Hay familias abajo, niños de todas las edades,
borbotones de sensibilidad y de ternura,
mansos humanizados animales,
enseres, útiles de pesca, herramientas rústicas,
amor a la Naturaleza inmensurable.

Se vuelve contra el hombre el ajuar diario,
arrasa arrasado y es espada;
es martillo, es estaca, es mazo;
es hacha violenta, es hiriente navaja.

Resisten los valientes derrochado brío
y agonizan intentando remediar el abandono
alentando a los muertos en los vivos
mientras huyen los cobardes y se salvan solos.

Trócase la tierra en pegajoso limo,
los leños y las piedras se hacen presa,
sujeción de mares bien nutridos;
y en un momento que la fatalidad desdeña,
suelta el incontenible contenido.

Exaltados relinchos de caballo
de las gargantas escapan fugitivos;
los bramidos de toro ensangrentado
y los desgarradores gritos
expresan la cicatriz del desengaño
y la crueldad del espejismo.

Es abrumadora la impotencia,
y tras el instante eterno que dura la congoja,
insultan los heridos a quien dicta la sentencia.

La muerte forma haces de cuerpos:
manos enlazadas a las manos,
brazos colgados de pescuezos,
cuellos pegados a los labios;
mordiendo los dientes el sensitivo nervio
del amor enamorado.

Troncos abiertos en canal se hacen cimientos,
y soportan el peso de los muros derribados,
de los precipitados techos.

Las astillas, incisivas como alfanjes,
y los árboles arrancados de cuajo,
son armas para el descomunal gigante
que vomita el agua de los siete mares
sobre gentes hechas al abuso de lo grande.

Cuando el cielo clarea y el temporal decrece,
ofreciendo evidencias quedan los despojos:
cabezas aplastadas por piedras inocentes,
extremidades presas bajo escombros,
vientres hinchados sobre desnutridos vientres,
cuerpos oprimidos rebozados en el lodo.

El lodo, el lodo, el lodo detenido;
el lodo desprende de su seno improvisado,
la expectativa de encontrar algún respiro
y el hedor de los restos putrefactos.

Los cadáveres preferidos por el agua,
son arrastrados río abajo,
hasta el delta que acoge en la ensenada,
el barro y la madera, los cantos rodados.

El amanecer amanece destruido:
la batalla despareja -sólo un bando-
ha dejado un esplendor corito,
cubierto por miembros descarnados,
de imposible retorno a los caminos.

En los morros verticales descubiertos
en el cauce yermo de las vacías torrenteras,
en los meandros de los ríos secos,
levantan los parias de la tierra,
sus pobres campamentos,
sus frágiles viviendas.

Y el cielo los castiga
por su extremada pobreza
y su osadía.

PSdeJ, diversos lugares desde el año 2011

www.ael.org.br

2019

Revista da Academia Espírito-santense de Letras, Vitória ES, v.24, página. 94, 2019

Poesia: Teoria e prática

Pedro Sevylla de Juana

Escritor e poeta espanhol, publicou vinte e sete livros e é membro correspondente da AEL.

Poesia é beleza e equilíbrio, é síntese e é ritmo. Poesia é pesquisa. Poesia é progresso. É doação é ar, é aço, é espuma, é raiz, é vertigem. Eu não sei se quem me fiz o presente foi Bécquer, aquele Gustavo Adolfo doente no mosteiro cisterciense de Veruela, onde eu caminhei peregrino muito antes que a Collioure, prévio a Soria meu passo, em busca de Machado e seu amor transformado em noiva, em esposa, em filha, em companheira; entregado do todo ao fruto atraente de Leonor, horto ela e hortelão a um tempo, terra, água e canal de irrigação. Ou eram Lorca, Darío, Vallejo e Neruda, tão diferentes e tão meus; ou Juan Ramón, talvez, entrincheirado na pureza, retirando as pétalas alvas da margarita, despojando-a de tules, de adornos que mascaram a essência; ou o pastor Miguel e a vida que afogou seu coração ao respirar a terra úmida e germinada. Rociavam esplendor os meus olhos sobre a alvorada, luz e calor em efêmera convivência com o orvalho no momento de começar a cavalgada, posto um pé no estribo. Acaso o mérito seja de Góngora, portador da beleza em fardos no ombro, na vereda eu do poético embelezo. Pode ser, ignoro esse ponto particular, que recebera a poesia refletida de maneira indireta, filtrada ou enriquecida, me mostrando ela as nuances adicionadas por alguns daqueles que chamam, e não sei a ração, poetas menores -Gabriel y Galán, Grilo, Campoamor, Villaespesa, considerados sem motivo, estou convencido, de segunda linha- trovadores que, por sua vez, haveriam encontrado a poesia nos excelsos. Luna eu que recebera da Terra a luz estelar, e logo, conhecida a fonte, fora ao sol para bebê-la; porque as estrelas, senhoras de seus planetas, possuem o esplendor noturno, o verdadeiro brilho esmaltado: uma luz pura, delas por inteiro; e desfrutam difundindo-a, a irradiando até os limites, derretendo a escuridão ao penetrá-la. Os estranhos me saíram à vereda no meu trânsito, Tagore, Elitis, Maiakovski, Byron, Yeats, Whitman, TS Eliot, Blake, Martinson, Ekelöff ou Lundkvist, acompanhados por Apollinaire, Rimbaud, Camões, Pessoa, Régio, Baudelaire, Gothe, Kazakova, Leopardi, Bandeira, Drummond, Meireles, Hilst e tantos outros. Todos contribuíram, sem dúvida, para a coroação; mas a poesia já estava na beleza que ia descobrindo à direita e à esquerda, ao nível do solo ou no topo. O tempo e minha poesia não sempre avançaram de mãos dadas. Talvez porque, com demasiada frequência, eu pus minha intenção no espaço. A mitologia grega me mostrou deusas nas moças que eu conhecia diariamente. Menino imaginativo, jovem imaginativo, adulto imaginativo; o imaginado, mais intenso, substituiu na memória a realidade vivida. Os labores do campo, e o ciclo anual das colheitas, me fizeram trabalhador para o futuro, permitindo-me indultar o granizo quando degranava as espigas. O rio Carrión, Nubis dos romanos, me desvelou muitos dos mistérios que os estudos de geografia não tinham resolvido: os meandros seguidos eram causa e consequência; as cheias acolhiam as exceções ampliando a regra. Corpo e mente cresciam a par. Razão e emoção caminhavam juntas.

Ode à mulher madura

Proêmio:

A vinte e nove de outubro cheguei a tua casa mulher,
Bahia, Minas, São Paulo, Rio, Espírito Santo,
e tua morada era o campo aberto.
Cacauais, cafezais,
teu espaço tinha o horizonte posto na Natureza toda:
terra fértil de cor avermelhado,
ervas, trepadeiras,
arbustos de fruto comestível,
árvores retas, eretas,
se elevando como flechas dirigidas ao infinito
desejosas de atingir um céu protetor
azul e cinzento que chovesse água favorável
sobre todas as terras, sobre todas as plantas
e sobre os animais, teus irmãos do bosque:
símios inocentes, cobras ondeantes
e pássaros cantores filhos da música e do vento
na pintada Aurora.

Te encontrei nesse sítio de liberdade que queres
sustentável e protegido, aberto ao viajante
que sossego procure.
Me entregaste teus versos
em dois cadernos manuscritos
e eu levava na cabeça meu poema à fêmea madura
palavras belas e sensuais
que ainda não tinham destino de mulher,
abstratas como a alvorada do primeiro dia
amanhecer cósmico inundado de fulgor primigênio.
E ao te ver ali, elevada em pedestal de deusa,
forte silhueta circundada de luz,
senhora de miscigenadas origens,
luz escultora delineando teu perfil,
corpo poderoso junto à porta da casa acolhedora,
soube que eras tu a mulher madura
o poema era teu e a ti te tinha sido escrito.

O poema:

Minha desejada mulher madura,
fêmea plena e florescente
de carne frugal e entendimento reflexivo
és a deusa Hera, esposa do grande Zeus;
e de teus peitos, manancial generoso,
brota a diário em espiral a Via Láctea,
galáxia formada por duzentos e cinquenta bilhões
de planetas travessos.
Filho do pai dos deuses e da humana Alcmena,
eu sou Héracles, o herói que procura
em teus peitos a imortalidade vedada.
És Penélope, mulher;
eu sou o novo Ulisses, e regresso a Ítaca
cansado de guerras e aventuras enganosas.
Tudo é hostil, muros de intriga cercam a casa,
os inimigos têm tomado posse do meu,
mas tua agredida fortaleza ainda resiste.
Teus peitos me reconhecem, esposa fidelíssima;
identificam meu rosto, minhas mãos e minha voz;
teus peitos, só eles,
sabem quem é este mendigo estrangeiro
dantes de me ver entesar o arco e passar
a seta através dos doze olhos de machado.
Crê-os!, teus peitos, mulher madura
conhecem a verdade
sabem que meu coração os quer esféricos e vaidosos,
minha tímida gazela, minha flor do Paraíso,
sabem que meu coração os ama impávidos e exaltados.
És Helena, mulher, a espartana Helena;
tua perturbadora beleza seduze a deuses e a mortais;
eu sou teu esposo Menelau, rei consorte,
e se perdoo tua veleidosa conduta,
deves saber que à memória
de teus formosos peitos obedeço.
Mulher nascida da terra fértil e as fragorosas ondas,
teus peitos são o portentoso acerto da Natureza prática,
um mistério que os sete sábios de Atenas
não poderiam desvelar,
um presente de Míron, um obsequio de Fídias
uma doação de Praxíteles e Policleto.
És Esther, a valorosa hebreia,
minha alígera corça, minha doce apaixonada,
minha dona e rainha,
eu sou Asuero, o Rei,
cento vinte e sete províncias se inclinam ante mim,
as donzelas mais cobiçadas povoam meu harém
mas, unicamente, teus peitos
estimulante, vivificadora companheira,
enchem de festa a vida.
Adorada mulher madura, minha virginal donzela,
minha desejada
fêmea sensual e prazenteira;
teus peitos convidam-me, me convidam:
desde sua posição de privilégio me convocam
a um banquete carnal imoderado.
Possuem uma titilação ictíaca quando os procuro,
noturnidade marinha da areia fresca
túrgidos e altos na sua entrega pudorosa,
pálidos à luz da lua túrbida
perturbados pelos luzeiros esplendentes.
Fêmea total, minha animosa mulher,
minha marinheira de imaginárias singraduras,
teus formosos e erguidos peitos,
sólidos, firmes, resistentes, obstinados;
são o mascarão de proa e a proa intrépida
de teu corpo navegante.
Teus peitos, mulher, sabem a tâmaras
a papaia sucosa, a palmitos de sagu
a mango maduro, a amêndoa e a maçã;
teus peitos rotundos, minha inteligente e intuitiva
companheira, sabem a glória.
São de absenta de noventa graus teus peitos,
de mandrágora e beladona, fêmea soberana,
estrela polar e cruzeiro do sul de minha existência,
alucinógenos são, certamente aditivos
e os bebo para suavizar por dentro
antigas cicatrizes ainda em carne viva.
A jacinto cheiram teus peitos,
pulquérrima mulher,
a laurel, a estoraque, a mirto
a eucalipto, a sálvia, a madressilva e a magnólia;
aos aromas bravios da flora silvestre
e à substância fecunda do tornadiço mar salobre.
Os peitos da mulher madura são tersos e sensuais;
de dia cobrem sua timidez nua
de noite despem sua temerária ousadia.
Na penumbra se fazem fortes
alardeiam, me desafiam, me provocam
e os pezões se inflamam
pronunciando meu nome inominado.
Nada me atrai tanto como os esféricos, alçados
orgulhosos peitos da mulher madura,
lei da gravitação universal hostil e aliada.
Brilhantes estrelas que me fazem piscadas
nas noites escuras, quando o céu é transparente
e a vista cruza as enormes distâncias.
Minha desconfiança vem da primeira juventude
sou um precavido a prova de razões,
e tudo o fundamento nos peitos da mulher madura
única realidade visível e palpável.
Deuses do Olimpo e Monte Olimpo eles mesmos
a sua cume subo para libar
minha diária ração de ambrosia.
Admirável mulher, compendio de mulheres
baixo teus cálidos e harmônicos peitos
minha experimentada sagacidade descobre
um coração amante que aprecia o arrojo e a ternura;
uma vontade de entrega –filha, mãe e esposa-
levada a se esforçar pelos seus;
a grandeza de ânimo da mulher emancipada
oposta às diretoras bridas;
e o empenho social orientado à conquista
do direito a se expressar e atuar livremente.

PSdeJ, Salvador de Bahia, 2015

 

 

 

Traducción

Poesía: Teoría y Práctica

Pedro Sevylla de Juana

Poesía es belleza y equilibrio, es síntesis y es ritmo. Poesía es investigación. Poesía es progreso. Es donación es aire, es acero, es espuma, es raíz, es vértigo. No sé si quien me hizo el regalo fue Bécquer, ese Gustavo Adolfo enfermo en el monasterio cisterciense de Veruela, donde caminé peregrino mucho antes que a Collioure, previo a Soria mi paso, en busca de Machado y su amor convertido en novia, en esposa, en hija, en compañera; entregado del todo al atractivo frutal de Leonor, huerto ella y hortelano a un tiempo, tierra, agua y canal de riego. O eran Lorca, Darío, Vallejo y Neruda, tan diferentes y tan míos; o Juan Ramón, quizás, atrincherado en la pureza, retirando los pétalos níveos de la margarita, despojándola de tules, de adornos que enmascaran la esencia; o el pastor Miguel y la vida que ahogó su corazón al respirar la tierra húmeda y germinada. Rociaban esplendor mis ojos sobre el alba, luz y calor en efímera convivencia con el rocío en el momento de comenzar la cabalgata, puesto un pie en el estribo.
Acaso el mérito fue de Góngora, portador de la belleza en fardos sobre el hombro, en la vereda yo del poético embeleso. Puede ser, ignoro ese punto particular, que recibiera la poesía reflejada de manera indirecta, filtrada o enriquecida, mostrándome ella los matices añadidos por algunos de aquellos que llaman, y no sé la ración, poetas menores -Gabriel y Galán, Grillo, Campoamor, Villaespesa, considerados sin motivo, estoy convencido, de segunda línea- trovadores que, a su vez, habrían encontrado la poesía en los excelsos. Luna yo que había recibido de la Tierra la luz estelar, y luego, conocida la fuente, fuera al sol para beberla; porque las estrellas, señoras de sus planetas, poseen el esplendor nocturno, el verdadero brillo esmaltado: una luz pura, de ellas por entero; y disfrutan difundiendola, irradiando hasta los límites, derritiendo la oscuridad al penetrarla.
Los extraños me salieron a la vereda de mi tránsito, Tagore, Elitis, Maiakovski, Byron, Yeats, Whitman, TS Eliot, Blake, Martinson, Ekelöff o Lundkvist, acompañados por Apollinaire, Rimbaud, Camões, Pessoa, Régio, Baudelaire, Gothe, Kazakova, Leopardi, Bandeira, Drummond, Meireles, Hilst y tantos otros. Todos contribuyeron, sin duda, a la coronación; pero la poesía ya estaba en la belleza que iba descubriendo a la derecha y a la izquierda, a nivel del suelo o en la cima. El tiempo y mi poesía no siempre avanzaron de la mano. Tal vez porque, con demasiada frecuencia, puse mi intención en el espacio. La mitología griega me mostró diosas en las muchachas que conocía a diario. Niño imaginativo, joven imaginativo, adulto imaginativo; lo imaginado, más intenso, substituyó en la memoria a la realidad vivida. Las labores del campo, y el ciclo anual de las cosechas, me hicieron trabajador para el futuro, permitiéndome detener al granizo cuando desgranaba espigas. El río Carrión, Nubis de los romanos, me desveló muchos de los misterios que los estudios de geografía no habían resuelto: los meandros seguidos eran causa y consecuencia; las inundaciones acogían las excepciones ampliando la regla. El cuerpo y la mente crecían juntos. Razón y emoción caminaban a la par.

Oda a la mujer madura

Proemio:

El veintinueve de octubre llegué a tu casa mujer,
Bahia, Minas, São Pablo, Río, Espírito Santo,
y tu morada era el campo abierto.
Cacaotales, cafetales,
tu espacio tenía el horizonte puesto en la Naturaleza toda:
tierra fértil de color rojizo,
hierbas, enredaderas, arbustos de fruto comestible,
árboles rectos, erectos,
elevándose como flechas dirigidas al infinito
deseosas de alcanzar un cielo protector
azul y gris que lloviera agua favorable
sobre todas las tierras, sobre todas las plantas
y sobre los animales, tus hermanos del bosque:
simios inocentes, serpientes ondeantes
y pájaros cantores hijos de la música y del viento
en la pintada Aurora.
Te encontré en ese lugar de libertad que quieres
sustentable y protegido, abierto al viajero
que sosiego busque.
Me entregaste tus versos
en dos cuadernos manuscritos
y yo llevaba en la cabeza mi poema a la hembra madura
palabras bellas y sensuales
que aún no tenían destino de mujer,
abstractas como la alborada del primer día
amanecer cósmico inundado de fulgor primigenio.
Y al verte allí, elevada en pedestal de diosa,
fuerte silueta circundada de luz,
señora de mezclados orígenes,
luz escultora delineando tu perfil,
cuerpo poderoso junto a la puerta de la casa acogedora,
supe que eras tú la mujer madura
el poema era tuyo y a ti había sido escrito.

El poema:

Mi deseada mujer madura,
mujer plena y floreciente
de carne frutal y entendimiento reflexivo
eres la diosa Hera, esposa del gran Zeus;
y de tus pechos, ubre generosa,
brota a diario en espiral la Vía Láctea,
galaxia formada por doscientos mil millones
de planetas inquietos.

Hijo del padre de los dioses
y de la humana Alcmena,
yo soy Heracles,
el héroe que busca en tus pechos
la inmortalidad vedada.

Eres Penélope, mujer;
yo soy el nuevo Ulises, y regreso a Ítaca
cansado de guerras y aventuras engañosas.
Todo es hostil,
muros de intriga cercan la casa,
los enemigos han tomado posesión de lo mío,
pero tu agredida fortaleza aún resiste.

Tus pechos me reconocen,
esposa fidelísima;
identifican mi rostro, mis manos y mi voz;
tus pechos,
sólo ellos,
saben quién es este mendigo extranjero
antes de verme tensar el arco y pasar
la flecha a través de los doce ojos de hacha.

¡Créelos!,
tus pechos
mujer madura
conocen la verdad:
saben que mi corazón los quiere esféricos
y vanidosos,
mi tímida gacela, mi flor del Paraíso,
ellos notan que mi corazón los ama
impávidos y encumbrados.

Eres Helena, mujer,
la espartana Helena;
tu perturbadora belleza seduce
por igual a dioses y a mortales;
yo soy tu esposo Menelao, rey consorte,
y si perdono tu veleidosa conducta,
debes saber que a la memoria
de tus hermosos pechos obedezco.

Mujer nacida de la tierra fértil
y las fragorosas olas,
tus pechos son el portentoso acierto
de la Naturaleza práctica, un misterio
que los siete sabios de Atenas
no podrían desvelar,
un regalo de Mirón, un obsequio de Fidias.
una donación de Policleto.

Eres Esther, la valerosa hebrea,
mi alígera corza, mi dulce enamorada,
mi señora,
mi reina,
yo soy Asuero, el Rey,
ciento veintisiete
provincias se inclinan ante mí,
las doncellas más codiciadas pueblan mi harén
pero, únicamente, tus pechos
estimulante
vivificadora compañera,
llenan de fiesta mi vida.

Mi adorada mujer madura,
mi virginal doncella,
mi deseada
hembra sensual y placentera;
tus pechos me invitan, me convidan:
desde su posición de privilegio me convocan
a un banquete carnal inmoderado.

Poseen una titilación ictínea cuando los busco,
nocturnidad marina de la arena fresca
turgentes y altos en su entrega pudorosa,
pálidos a la luz de la luna turbia
perturbados por los luceros esplendentes.

Hembra total, mi animosa mujer,
mi marinera de imaginarias singladuras,
tus hermosos y erguidos pechos,
sólidos, firmes, resistentes, obstinados;
son el mascarón de proa y la proa intrépida
de tu cuerpo navegante.

Tus pechos, mujer, saben a dátiles
a papaya jugosa, a palmitos de sagú
a mango maduro, a almendra y a manzana;
tus pechos rotundos,
mi inteligente e intuitiva compañera,
saben a gloria.

Son de absenta de noventa grados tus pechos,
de mandrágora y belladona,
hembra soberana,
estrella polar de mi existencia;
alucinógenos son,
ciertamente adictivos
y los bebo para suavizar por dentro
antiguas cicatrices aún en carne viva.

A jacinto huelen tus pechos,
pulquérrima mujer,
a laurel, a estoraque, a mirto
a eucalipto, a salvia,
a madreselva y a magnolia;
a los aromas bravíos de la flora silvestre
y a la substancia
fecunda del tornadizo mar salobre.

Los pechos de la mujer madura
son tersos y sensuales;
de día cubren su timidez desnuda
de noche desnudan su temeraria osadía.
En la penumbra se hacen fuertes
fanfarronean, me desafían, me provocan
y los pezones se inflaman
pronunciando mi nombre innominado.

Nada me atrae tanto como tus esféricos,
enhiestos, orgullosos pechos,
ley de la relatividad universal hostil y aliada,
radiantes estrellas haciendo guiños a las noches
oscuras, cuando el cielo es transparente
y la vista cruza las enormes distancias.

Dioses del Olimpo y Monte Olimpo
ellos mismos, a su cima subo para libar
mi diaria ración de ambrosía.

Admirable mujer, epítome de mujeres
bajo tus cálidos y armónicos pechos
mi ejercitada sagacidad descubre
un corazón amante
que aprecia el arrojo y la ternura;
una voluntad de entrega
–hija, madre y esposa-
llevada a desvivirse por los suyos;
la grandeza de ánimo de la mujer emancipada
opuesta a las directoras bridas;
y el empeño social orientado a la conquista
del derecho a expresarse y actuar libremente
un día y otro y otro día.

PSdeJ, Salvador de Bahia 2015

 

 

2018

 

Revista da Academia Espírito-santense de Letras, Vitória, v.22, página 79, 2018

 

Fazendo memória, conto

Pedro Sevylla de Juana

Escritor espanhol. Membro correspondente da AEL. Para Jô Drumond e Anaximandro Amorim

Fernando esqueceu o nome do presenteador há muito tempo, não obstante, ele ou ela, entregaram-lhe a cópia 84, pertencente à edição numerada de La Flûte enchantée, Liege 1956, de Les Charités d’Alcippe, obra de Marguerite Yourcenar. Impresso em papel vélin pur fil Lafuma-Navarre, foi retirado da venda a pedido da autora, devido aos muitos erros tipográficos que continha. Ignorante de seu valor econômico, Fernando o mantinha como ouro em pó por causa de seu valor poético. Um mistério mais de minha vida, disse-se Fernando, o idoso solitário que ia caminho adiante olhando os lados. Era o momento preciso em que a mente e os olhos se põem ao serviço da ideia inconclusa ou do objeto perdido. E a necessidade inicial de descobrir o motivo, causa ou razão, se fixa com força no cérebro. Havia na cópia uma dedicatória escrita a lápis com letra clara: Para o abelhão, da rosa; para a escuma da rocha; para a fênix, da fogueira, para F de L. Indubitavelmente era grafia feminina, e o cuidado posto no lápis tênue para que pudesse ser apagado, sem dúvida, era feminino. Se ele soubesse quem assinou L … Fernando não se lembrava de nenhuma Lúcia ou Laura. Assim que continuou esclarecendo o mistério. Se sua esposa vivesse, ela o ajudaria como sempre fez. O livro foi escrito em francês, era, portanto, do seu tempo de solteiro, quando comprava livros nos bouquinistes das margens do Sena, principalmente a rive droite, da ponte Marie até o cais do Louvre. Poe um tempo ele amou intelectualmente Marguerite Yourcenar: Mémoires d’Hadrien, L’Oeuvre au noir e os seus poemas iniciais. Abelhão, rosa, espuma, rocha, lembravam-lhe algo; deu voltas e voltas até que as pôs em francês, pensando numa amiga espanhola de seu tempo de poeta romântico, pintor abstrato e boêmio despreocupado. Frelon, rose écume, Phénix. A estrofe completa chegou pronto a sua mente:

Toi le frelon et moi la rose
Toi l’écume et moi le rocher
Dans l’étrange métamorphose
Toi le phénix et moi le bûcher.

Era o primeiro quarteto dum soneto da Yourcenar, o intitulado Érotique. Mas esse poema não estava entre os 21 da edição de La flûte enchantée de 1956. Não, não estava; mas aparecia na edição de Gallimard, impressa por l’Imprimerie Floch em Mayenne, o dia 10 de setembro de 1984, com outras 50 páginas mais de poemas que a edição de La Flûte. Ambos livros dignificavam sua biblioteca, de modo que quem assinou com o L a dedicatória pôde ser uma mulher muito próxima, talvez da família. Esforço após esforço, Fernando espremeu a memória, até conseguir algumas gotas de elixir relativas à esposa amante, momento em que ela o considerava uma abelha capaz de libar nela, sendo ela sua flor. Sim, abelha, talvez uma abelha macha em vez dum abelhão, considerando-o depreciativo. Bem, mas L? A letra ele está em Elisa, nome da esposa, embora por dentro. O processo seguiu, e o elixir da memória pressionada o levou aos primeiros tempos do namoro, quando ela, brincando, se identificou como uma modistazinha chamada Lissette. Seguindo a brincadeira, ele deixou o nome fictício em Lissi. Uma vez casados, as conveniências sociais impuseram o nome autêntico; e a professora universitária foi já Elisa de modo permanente. Descoberto o mistério, Fernando se sentiu espuma no areal da esposa amada, uma onda de amor que retorna para ela de novo e de novo, memória e vazio e memória.
(PSdeJ, Paris 1987).

Revista da Academia Espírito-santense de Letras, Vitória, v.22, página 81, 2018

Poemas de Cesar Vallejo traduzidos

Pedro Sevylla de Juana

Para a hispanista Ester Abreu

“En esta noche rara que tanto me has mirado / la Muerte ha estado alegre y ha cantado en su huesa”. (O poeta para a sua amada) A poesia é dúctil e maleável: fios finos que vêm e vão costurando os pães de ouro para cobrir o existente e o imaginado. A poesia é um poço sem fundo onde tudo se acomoda, incluindo as contradições pessoais do poeta. Aqui ponho os poemas de César Vallejo, recebendo-os em minha casa, quarto de hóspedes, o melhor de todos; tornando-os meus no novo idioma, porque nisso consiste minha tradução. Uma noite daquelas tão numerosas e tão grandes do Brasil, eu disse para mim mesmo ao iniciar a versão de uma língua para outra: vou inaugurar a alma de um amigo. Hoje sei a quem pertence essa alma e quem é o amigo.
Desejo despertar quando o sol nasce, chegar até a planície para seguir o curso do rio, ver a terra esverdeando nos cafezais e o azul do céu manchado de branco. Estavam chovendo naquela noite e ainda chovem pétalas de rosa se transformando em colibris.
O condor andino vê tudo desde acima, e ele me dita, escriba eu, seu ditado.

Los textos originales en castellano pueden verse en http://www.literatura.us/vallejo/completa.html

Os Heraldos Negros

Há golpes na vida, tão fortes… Eu não sei.
Golpes como do ódio de Deus; como se diante eles,
a ressaca de todo o suportado
se empoçara na alma… Eu não sei.

São poucos; mas são… Abrem valetas escuras
no rosto mais feroz e no lombo mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos envia a Morte.

São as quedas profundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno se nos queima.

E o homem… Coitado… infeliz! Volta os olhos, como
quando sobre o ombro nos chama uma palmada;
volta os olhos loucos, e todo o vivido
se empoça, como um charco de culpa, na mirada.

Há golpes na vida, tão fortes … Eu não sei!

Nervosismo de Angústia

Doce hebreia, desprega meu trânsito de argila;
descrava minha tensão nervosa e minha dor….
Desprega, amada eterna, meu longo afã e os
dois pregos de minhas asas e o prego de meu amor!

Regresso do deserto onde desci muito;
retira a cicuta e obsequia-me teus vinhos:
espanta com um pranto de amor a meus sicários,
cujos gestos são férreas cegueiras de Longinos!

Desprega meus pregos ¡oh nova mãe minha!
¡Sinfonia de oliveiras, escanceia teu chorar!
E tens de esperar, sentada junto a minha carne morta,
como cede a ameaça, e a calandra se vai!

Passas… voltas… Teus lutos entrançam meu grande cilício
com gotas de curare, fios de humanidade,
a dignidade roqueira que há em tua castidade,
e o judithesco azougue de teu mel interior.

São as oito de uma manhã em creme bruxo….
Há frio… Um cão passa roendo o osso de outro
cão que foi… E começa a chorar em meus nervos
um fósforo que em cápsulas de silêncio apaguei!

E na minha alma herege canta sua doce festa asiática
um dionisíaco fastio de café….!

O poeta para a sua amada

Amada, nesta noite tu me tens crucificado
sobre os dois madeiros curvados de meu beijo;
e tua pena me disse que Jesus tem chorado,
e que há uma sexta santa mais doce que esse beijo.

Nesta noite rara que tanto me tens olhado,
a Morte estive alegre e cantou em seu buraco.
Nesta noite de setembro tem-se oficiado
minha segunda queda e o beijo mais humano.

Amada, morreremos os dois juntos, muito juntos;
se irá secando a pausas nossa excelsa amargura;
e terão tocado a sombra nossos lábios defuntos.

E já não haverá reproches nos teus olhos benditos;
nem voltarei a ofender-te. E numa sepultura
os dois dormiremos, como irmãozinhos.

Verão

Verão, já me vou. E me dão pena
as mãozinhas submissas de tuas tardes.
Chegas devotamente; chegas velho;
e já não encontrarás ninguém em minha alma.

Verão! e passarás por meus balcões
com grande rosário de ametistas e ouros,
como um bispo triste que chegasse
de longe a procurar e abençoar
os rompidos aneis duns noivos mortos.

Verão, já me vou. Lá, em setembro
tenho uma rosa que te encarrego muito;
a regarás de água bendita todos
os dias de pecado e de sepulcro.

Se a força de chorar o mausoléu,
com luz de fé seu mármore adeja,
levanta em alto teu responso, e pede
a Deus que siga para sempre morta.
Todo tem de ser já tarde;
e tu não encontrarás a ninguém na minha alma.

Já não chores, Verão! Naquele sulco
morre uma rosa que renasce muito…

Idílio morto

Que estará fazendo nesta hora minha andina e doce Rita
de junco e cerejeira;
agora que me asfixia Bizâncio, e que dormita
o sangue, como frouxo conhaque, dentro de mim.

Onde estarão suas mãos que em atitude contrita
passavam nas tardes brancuras por vir;
agora, nesta chuva que me tira
a vontade de viver.

Que será de sua saia de flanela; de seus
afãs; de seu andar;
de seu sabor a canas de maio do lugar.

Tem de estar na porta olhando alguma celagem,
e ao fim dirá tremendo: «Que frio há… Jesus!»
e chorará nas telhas um pássaro selvagem.

Os Dados Eternos
___Para Manuel González Prada, esta emoção bravia
___e seleta, uma das que, com mais entusiasmo,
___me aplaudiu o grande mestre.

Deus meu, estou chorando o ser que vivo;
me pesa ter tomado teu pão;
mas este pobre barro pensativo
não é crosta fermentada em teu custado:
tu não tens Marias que se vão!

Deus meu, se tivesses sido homem,
hoje soubesses ser Deus;
mas tu, que estiveste sempre bem,
não sentes nada de tua criação.
E o homem sim te sofre: o Deus é ele!

Hoje que em meus olhos bruxos há candeias,
como num condenado,
Deus meu, acenderás todas tuas velas,
e jogaremos com o velho dado.
Talvez, oh jogador! ao dar a sorte
do universo tudo,
surgirão as olheiras da Morte,
como dois ases fúnebres de lodo.

Deus meus, e esta noite surda, escura,
já não poderás jogar, porque a Terra
é um dado roído e já redondo
a força de rodar à aventura,
que não pode parar senão num oco,
no oco de imensa sepultura.

Poema IV de
Espanha, afasta de mim este Cálice

Os mendigos peleiam pela Espanha,
mendigando em Paris, em Roma, em Praga
e referendando assim, com mão gótica, implorante,
os pés dos Apóstolos, em Londres, em New York, em México.
Os mendicantes lutam suplicando infernalmente
a Deus Por Santander,
a lide em que já ninguém é derrotado.
Ao sofrimento antigo
dão-se, encarniçam-se em chorar chumbo social
ao pé do indivíduo,
e atacam a gemidos, os mendigos,
matando com tão só ser mendigos.

Rogos de infantaria,
em que a arma roga do metal para acima,
e roga a ira, mais cá da pólvora iracunda.
Tácitos esquadrões que disparam,
com cadencia mortal, sua mansidão,
desde uma ombreira, desde si mesmos, ai! desde si mesmos.
Potenciais guerreiros
sem meias ao calçar o trovão,
satânicos, numéricos,
arrastando seus títulos de força,
migalha ao cinto,
fuzil duplo calibre: sangue e sangue.
O! poeta cumprimenta ao sofrimento armado!

Poema XIV de Espanha, afasta de mim este Cálice

Cuida-te, Espanha, da tua própria Espanha!
Cuida-te da foice sem o martelo,
cuida-te do martelo sem a foice!
Cuida-te da vítima apesar seu,
do verdugo apesar seu
e do indiferente apesar seu!
Cuida-te do que, antes de que cante o galo,
te negara três vezes,
e do que te negou, depois, três vezes!
Cuida-te das caveiras sem as tíbias,
e das tíbias sem as caveiras!
Cuida-te dos novos poderosos!
Cuida-te do que come teus cadáveres,
do que devora mortos a teus vivos!
Cuida-te do leal cento por cento!
Cuida do céu mais cá do ar
e cuida do ar para além do céu!
Cuida-te dos que te amam!
Cuida-te de teus heróis!
Cuida-te de teus mortos!
Cuida-te da República!
Cuida-te do futuro!…

Poema XV de Espanha, afasta de mim este Cálice

Meninos do mundo,
se cai Espanha —digo, é um dizer—
se cai do céu abaixo seu antebraço que asem,
em cabeçada, duas lâminas terrestres;
meninos, que idade a das têmporas côncavas!
que cedo no sol o que vos dizia!
que pronto em vosso peito o ruído ancião!
que velho vosso 2 no caderno!

Meninos do mundo, está
a mãe Espanha com seu ventre nas costas;
está nossa mãe com suas férulas,
está mãe e mestra,
cruz e madeira, porque vos deu a altura,
vertigem e divisão e soma, meninos;
está com ela, pais processuais!

Se cai —digo, é um dizer— se cai
Espanha, da terra para abaixo,
meninos, como vais cessar de crescer!
como vai castigar o ano ao mês!
como vão ficar-se em dez os dentes,
em rabisco o ditongo, a medalha em pranto!
Como vai o cordeirinho a continuar
atado pela pata ao grande tinteiro!
Como vais baixar as escadarias do alfabeto
até a letra em que nasceu a pena!

Meninos,
filhos dos guerreiros, entretanto,
baixem a voz que Espanha está agora mesmo repartindo
a energia entre o reino animal,
as florezinhas, os cometas e os homens.
Baixai a voz, que está
em seu rigor, que é grande, sem saber
que fazer, e está em sua mão
a caveira, aquela da trança;
a caveira, aquela da vida!

Baixai a voz, vos digo;
baixem a voz, o canto das sílabas, o pranto
da matéria e o rumor menos das pirâmides, e ainda
o das têmporas que andam com duas pedras!
Baixem o alento, e se
o antebraço baixa,
se as férulas soam, se é a noite,
se o céu cabe em dois limbos terrestres,
se há ruído no som das portas
se demoro,
se não vedes a ninguém, se vos assustam
os lápis sem ponta, se a mãe
Espanha cai —digo, é um dizer—,
saiam, meninos, do mundo; vão procurá-la!…

Traducción

 

 

 

Haciendo memoria

Pedro Sevylla de Juana

“Fernando olvidó su nombre hace mucho tiempo; sin embargo, él o ella, le regaló el ejemplar 84, perteneciente a la edición numerada de La Flûte enchantée, Liege 1956, de Les Charités d’Alcippe, obra de Marguerite Yourcenar. Imprimido sobre papel vélin pur fil Lafuma-Navarre, fue retirado de la venta a petición de la autora debido a los muchos errores tipográficos que contenía. Ignorante de su valor económico, lo guardó Fernando como oro en paño debido a su valor poético. Un misterio más de mi vida, se dijo el anciano desguarnecido que iba camino adelante mirando a los lados. Era el momento preciso en que la mente y los ojos se ponen al servicio de la idea inconclusa o del objeto perdido. Y la necesidad inicial de descubrir el motivo, causa o razón, se agarra con fuerza al cerebro. Había en el ejemplar una dedicatoria escrita a lápiz con letra clara: Para el abejorro, de la rosa; para la espuma, del peñasco; para el fénix, de la hoguera, Para F de L. Sin duda era letra femenina y ese cuidado puesto en el lápiz tenue para que pudiera ser borrado, sin duda, era femenino.
Si al menos supiera quien firmaba L… No recordaba a ninguna Lucía o Laura. Así que Fernando siguió dando vueltas al misterio. Si viviera su esposa, ella lo ayudaría como tantas veces. El libro estaba escrito en francés, era por tanto de su época de soltero, cuando compraba libros a los bouquinistes de las orillas del Sena, principalmente la rive droite, desde el puente Marie hasta el muelle del Louvre. Durante un tiempo amó intelectualmente a Marguerite Yourcenar: Mémoires d’Hadrien, L’Oeuvre au noir y sus poemas iniciales. Abejorro, rosa, espuma, peñasco le recordaban algo, dio vueltas y vueltas hasta que los tradujo al francés, pensando en alguna amiga española de su época de poeta romántico, de pintor abstracto, de bohemio despreocupado. Frelon, rose, écume, Phénix. Le vino enseguida a la memoria la estrofa completa:

Toi le frelon et moi la rose
Toi l’écume et moi le rocher
Dans l’étrange métamorphose
Toi le phénix et moi le bûcher

Era el primer cuarteto de un soneto de la Yourcenar, el titulado Érotique. Pero ese poema no estaba entre los 21 de la edición de La flûte enchantée de 1956. No, no estaba; pero aparecía en la edición de Gallimard, imprimida por l’Imprimerie Floch en Mayenne, el 10 de septiembre de 1984, con 50 páginas más de poemas que la edición de La Flûte. Ambos libros engrandecían su biblioteca, de modo que la L firmante de la dedicatoria había de ser una mujer muy cercana, acaso de la familia.
Esfuerzo tras esfuerzo, estrujaba Fernando la memoria, hasta que logró unas gotas de elixir relativas a la esposa amante, época en que ella le consideraba abeja capaz de libar en ella, siendo ella flor. Sí abeja, abeja macho acaso, en lugar de abejorro por considerarlo despectivo. Bien, ¿pero esa sola L? La letra ele está en Elisa, nombre de la esposa, aunque en el interior. Siguió el proceso y el elixir de la memoria presionada lo llevó a los primeros tiempos del noviazgo, cuando ella, en broma, se identificó como una modistilla llamada Lissette. Siguiendo la corriente, él dejó en Lissi ese nombre ficticio. Una vez casados, las conveniencias sociales impusieron el nombre auténtico; y la profesora de universidad fue Elisa de manera permanente. Descubierto el misterio, Fernando se sintió espuma en el acantilado de la esposa amada, ola amorosa que a ella vuelve una y otra vez, memoria y hueco.

Poemas de César Vallejo traducidos

Pedro Sevylla de Juana

“En esta noche rara que tanto me has mirado / la Muerte ha estado alegre y ha cantado en su huesa”. (El poeta a su amada)
La poesía es dúctil y maleable: hilos finos que vienen y van cosiendo los panes de oro para cubrir lo existente y lo imaginado. La poesía es un pozo sin fondo donde todo se acomoda, incluyendo las contradicciones personales del poeta. Aquí pongo los poemas de César Vallejo, recibiéndolos en mi casa, cuarto de huéspedes, el mejor de todos; volviéndolos míos en el nuevo idioma, porque en eso consiste mi traducción. Una noche de aquellas tan numerosas y tan grandes de Brasil, me dije a mí mismo al iniciar la versión de una lengua a otra: voy a inaugurar el alma de un amigo. Hoy sé a quién pertenece esa alma y quién es el amigo.
Deseo despertar cuando el sol sale, llegar hasta la llanura para seguir el curso del río, ver la tierra verdosa en los cafetales y el azul del cielo manchado de blanco. Estaba lloviendo esa noche y todavía llovían pétalos de rosa que caían convirtiéndose en colibríes. El cóndor andino lo ve todo desde arriba, y él me dicta, escriba yo, su dicho.

Los textos originales de los poemas pueden verse en http://www.literatura.us/vallejo/completa.html

Os Heraldos Negros

Há golpes na vida, tão fortes… Eu não sei.
Golpes como do ódio de Deus; como se diante eles,
a ressaca de todo o suportado
se empoçara na alma… Eu não sei.

São poucos; mas são… Abrem valetas escuras
no rosto mais feroz e no lombo mais forte.
Serão talvez os potros de bárbaros átilas;
ou os arautos negros que nos envia a Morte.

São as quedas profundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o Destino blasfema.
Esses golpes sangrentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno se nos queima.

E o homem… Coitado… infeliz! Volta os olhos, como
quando sobre o ombro nos chama uma palmada;
volta os olhos loucos, e todo o vivido
se empoça, como um charco de culpa, na mirada.

Há golpes na vida, tão fortes … Eu não sei!

Nervosismo de Angústia

Doce hebreia, desprega meu trânsito de argila;
descrava minha tensão nervosa e minha dor….
Desprega, amada eterna, meu longo afã e os
dois pregos de minhas asas e o prego de meu amor!

Regresso do deserto onde desci muito;
retira a cicuta e obsequia-me teus vinhos:
espanta com um pranto de amor a meus sicários,
cujos gestos são férreas cegueiras de Longinos!

Desprega meus pregos ¡oh nova mãe minha!
¡Sinfonia de oliveiras, escanceia teu chorar!
E tens de esperar, sentada junto a minha carne morta,
como cede a ameaça, e a calandra se vai!

Passas… voltas… Teus lutos entrançam meu grande cilício
com gotas de curare, fios de humanidade,
a dignidade roqueira que há em tua castidade,
e o judithesco azougue de teu mel interior.

São as oito de uma manhã em creme bruxo….
Há frio… Um cão passa roendo o osso de outro
cão que foi… E começa a chorar em meus nervos
um fósforo que em cápsulas de silêncio apaguei!

E na minha alma herege canta sua doce festa asiática
um dionisíaco fastio de café….!

O poeta para a sua amada

Amada, nesta noite tu me tens crucificado
sobre os dois madeiros curvados de meu beijo;
e tua pena me disse que Jesus tem chorado,
e que há uma sexta santa mais doce que esse beijo.

Nesta noite rara que tanto me tens olhado,
a Morte estive alegre e cantou em seu buraco.
Nesta noite de setembro tem-se oficiado
minha segunda queda e o beijo mais humano.

Amada, morreremos os dois juntos, muito juntos;
se irá secando a pausas nossa excelsa amargura;
e terão tocado a sombra nossos lábios defuntos.

E já não haverá reproches nos teus olhos benditos;
nem voltarei a ofender-te. E numa sepultura
os dois dormiremos, como irmãozinhos.

 

Verão

Verão, já me vou. E me dão pena
as mãozinhas submissas de tuas tardes.
Chegas devotamente; chegas velho;
e já não encontrarás ninguém em minha alma.

Verão! e passarás por meus balcões
com grande rosário de ametistas e ouros,
como um bispo triste que chegasse
de longe a procurar e abençoar
os rompidos aneis duns noivos mortos.

Verão, já me vou. Lá, em setembro
tenho uma rosa que te encarrego muito;
a regarás de água bendita todos
os dias de pecado e de sepulcro.

Se a força de chorar o mausoléu,
com luz de fé seu mármore adeja,
levanta em alto teu responso, e pede
a Deus que siga para sempre morta.
Todo tem de ser já tarde;
e tu não encontrarás a ninguém na minha alma.

Já não chores, Verão! Naquele sulco
morre uma rosa que renasce muito…

Idílio morto

Que estará fazendo nesta hora minha andina e doce Rita
de junco e cerejeira;
agora que me asfixia Bizâncio, e que dormita
o sangue, como frouxo conhaque, dentro de mim.

Onde estarão suas mãos que em atitude contrita
passavam nas tardes brancuras por vir;
agora, nesta chuva que me tira
a vontade de viver.

Que será de sua saia de flanela; de seus
afãs; de seu andar;
de seu sabor a canas de maio do lugar.

Tem de estar na porta olhando alguma celagem,
e ao fim dirá tremendo: «Que frio há… Jesus!»
e chorará nas telhas um pássaro selvagem.

Os Dados Eternos
___Para Manuel González Prada, esta emoção bravia
___e seleta, uma das que, com mais entusiasmo,
___me aplaudiu o grande mestre.

Deus meu, estou chorando o ser que vivo;
me pesa ter tomado teu pão;
mas este pobre barro pensativo
não é crosta fermentada em teu custado:
tu não tens Marias que se vão!

Deus meu, se tivesses sido homem,
hoje soubesses ser Deus;
mas tu, que estiveste sempre bem,
não sentes nada de tua criação.
E o homem sim te sofre: o Deus é ele!

Hoje que em meus olhos bruxos há candeias,
como num condenado,
Deus meu, acenderás todas tuas velas,
e jogaremos com o velho dado.
Talvez, oh jogador! ao dar a sorte
do universo tudo,
surgirão as olheiras da Morte,
como dois ases fúnebres de lodo.

Deus meus, e esta noite surda, escura,
já não poderás jogar, porque a Terra
é um dado roído e já redondo
a força de rodar à aventura,
que não pode parar senão num oco,
no oco de imensa sepultura.

Poema IV de
Espanha, afasta de mim este Cálice

Os mendigos peleiam pela Espanha,
mendigando em Paris, em Roma, em Praga
e referendando assim, com mão gótica, implorante,
os pés dos Apóstolos, em Londres, em New York, em México.
Os mendicantes lutam suplicando infernalmente
a Deus Por Santander,
a lide em que já ninguém é derrotado.
Ao sofrimento antigo
dão-se, encarniçam-se em chorar chumbo social
ao pé do indivíduo,
e atacam a gemidos, os mendigos,
matando com tão só ser mendigos.

Rogos de infantaria,
em que a arma roga do metal para acima,
e roga a ira, mais cá da pólvora iracunda.
Tácitos esquadrões que disparam,
com cadencia mortal, sua mansidão,
desde uma ombreira, desde si mesmos, ai! desde si mesmos.
Potenciais guerreiros
sem meias ao calçar o trovão,
satânicos, numéricos,
arrastando seus títulos de força,
migalha ao cinto,
fuzil duplo calibre: sangue e sangue.
O! poeta cumprimenta ao sofrimento armado!

Poema XIV de Espanha, afasta de mim este Cálice

Cuida-te, Espanha, da tua própria Espanha!
Cuida-te da foice sem o martelo,
cuida-te do martelo sem a foice!
Cuida-te da vítima apesar seu,
do verdugo apesar seu
e do indiferente apesar seu!
Cuida-te do que, antes de que cante o galo,
te negara três vezes,
e do que te negou, depois, três vezes!
Cuida-te das caveiras sem as tíbias,
e das tíbias sem as caveiras!
Cuida-te dos novos poderosos!
Cuida-te do que come teus cadáveres,
do que devora mortos a teus vivos!
Cuida-te do leal cento por cento!
Cuida do céu mais cá do ar
e cuida do ar para além do céu!
Cuida-te dos que te amam!
Cuida-te de teus heróis!
Cuida-te de teus mortos!
Cuida-te da República!
Cuida-te do futuro!…

Poema XV de Espanha, afasta de mim este Cálice

Meninos do mundo,
se cai Espanha —digo, é um dizer—
se cai do céu abaixo seu antebraço que asem,
em cabeçada, duas lâminas terrestres;
meninos, que idade a das têmporas côncavas!
que cedo no sol o que vos dizia!
que pronto em vosso peito o ruído ancião!
que velho vosso 2 no caderno!

Meninos do mundo, está
a mãe Espanha com seu ventre nas costas;
está nossa mãe com suas férulas,
está mãe e mestra,
cruz e madeira, porque vos deu a altura,
vertigem e divisão e soma, meninos;
está com ela, pais processuais!

Se cai —digo, é um dizer— se cai
Espanha, da terra para abaixo,
meninos, como vais cessar de crescer!
como vai castigar o ano ao mês!
como vão ficar-se em dez os dentes,
em rabisco o ditongo, a medalha em pranto!
Como vai o cordeirinho a continuar
atado pela pata ao grande tinteiro!
Como vais baixar as escadarias do alfabeto
até a letra em que nasceu a pena!

Meninos,
filhos dos guerreiros, entretanto,
baixem a voz que Espanha está agora mesmo repartindo
a energia entre o reino animal,
as florezinhas, os cometas e os homens.
Baixai a voz, que está
em seu rigor, que é grande, sem saber
que fazer, e está em sua mão
a caveira, aquela da trança;
a caveira, aquela da vida!

Baixai a voz, vos digo;
baixem a voz, o canto das sílabas, o pranto
da matéria e o rumor menos das pirâmides, e ainda
o das têmporas que andam com duas pedras!
Baixem o alento, e se
o antebraço baixa,
se as férulas soam, se é a noite,
se o céu cabe em dois limbos terrestres,
se há ruído no som das portas
se demoro,
se não vedes a ninguém, se vos assustam
os lápis sem ponta, se a mãe
Espanha cai —digo, é um dizer—,
saiam, meninos, do mundo; vão procurá-la!…

PSdeJ

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