O MEU SONHO CAPIXABA

Pedro Sevylla de Juana

Meu sonho capixaba é um poema de quatrocentos versos, escrito de um puxão em língua portuguesa. Necessitei vinte dias, pesquisa incluída, para ter o texto completo; e outros dez para o corrigir. É necessário dizer que trabalhava durante o dia e parte da noite.
Minha imersão foi tão profunda, que cheguei a pensar em português; algo que nunca tinha ocorrido. O traduzi para o espanhol, tentando conseguir o ritmo próprio do idioma, em dois dias. E todo isso por quê? Acho que a razão é que me senti capixaba por cima de fronteiriço.

 

 

O MEU SONHO CAPIXABA

Passava eu o tempo me alimentando
de história, geografia e literatura,
de uma terra mais interessante
que nenhuma outra. Eram dias
e noites de trabalho intenso,
comendo e dormindo menos que um sabiá.
Olhando as estrelas para
as individualizar e as reconhecer,
caí num sono profundo com a cabeça
apoiada na mesa do jardim.

Tudo começa quando o planeta Terra
se torna habitável,
recebendo nos meteoritos a essência
e os primeiros indícios
da vida mais singela.

Logo aconteceu o período Cambriano,
lá na era Paleozoica,
faz disso
quinhentos milhões
de anos,
quando a existência estourou na totalidade
produzindo
a gigantesca explosão de vida
da que tanto se escreveu.

Eu era um trilobita
naquela época remota,
artrópode de três lóbulos, que,
certamente,
tinha visto com grande interesse,
já fossilizado, na aula de ciências
naturais do colégio La Salle.

Vivia fazendo amigos na água
para me defender dos inimigos,
ignorando que, fora,
a vida não seria possível
até que a camada de ozônio alcançasse
uma espessura suficiente
para deter as radiações solares
mais perigosas.

Estando no período Devônico
-abro um parêntese para dizer
que vem o nome do condado de Devon,
próximo a Cornwall,
onde passei um verão
estudando inglês com meus filhos-
assim pois, no Devônico
vejo deslizar mansamente,
ainda ingênuo, o primeiro entardecer
de uma solene primavera,
sossego indescritível
roto pelo ritmo inarmônico
do incremento e desaparição
das espécies evolutivas.

Enquanto eu salto da estrofe anterior
transcorrem centenas de milhões de anos,
e depois de esse lapso
a Terra muda na sua totalidade.
Os movimentos das placas tectônicas
sobre o manto
desfazem a crescida Pangeia,
estabelecendo ao sul
um supercontinente
conhecido como Gonduana.

Uma parte formidável dele
é o intrincado labirinto de possibilidades
que agora se chama Brasil.
A terra fecunda atravessada
por um casal de colibris,
atual Estado de Espírito Santo,
só era um campo carecente de frutos,
nem sequer os que produziriam
no seu momento
os melhores açúcar e café do mundo.

Na borda contemplo uma ilha alta e formosa
de origem vulcânica.
Há lava ardente no seu interior
embora não tenha nome ainda.
Emergindo da água mais próxima
aparece um promontório granítico
que algum de nós denominou
Penedo.

Pois bem,
no topo do Penedo
éramos quatro líricos épicos
sentados em círculo.
Cordados entusiastas do equilíbrio e da harmonia,
os quatro sonhadores intentávamos
produzir uma música espontânea
que, com algo de choro,
decidimos chamar Samba.

Joaquim Machado de Assis,
autodidata de vivo engenho,
vida plácida de literato grande,
superioridade intelectual,
serenidade e firmeza num rosto
cercado pela linha do cabelo,
barba e bigode crescidos,
lhe interessava tudo, admirava a Carola,
e vindo de baixo
chegou a ser o primeiro presidente
da Academia
Brasileira de Letras.

Hilda Hilst
filha única e aluna de internato,
a verdade, o amor, a liberdade e a dita,
ressoavam nela como palavras crescidas na cume
das nuvens inacessíveis.
Necessitava ser feliz
e a felicidade e o desejo,
horizonte atrás do horizonte,
brincavam com ela às escondidas.
Entroncada no tempo e no espaço,
catarata intermitente, égua alada
e bandeira ondeando agitada de dúvidas,
seu instante arderá
indefinidamente.

Antônio de Castro Alves,
cabeleira ao vento reclamando
liberdade e justiça para os oprimidos
-mocidade e morte-
vinte e quatro anos de existência,
vividos com intensidade poética admirável,
lhe bastaram para deixar
uma inspirada obra em duas vertentes,
épica e lírica,
complementares.

Sobre o já Penedo,
perto da não Vitória ainda
mas sempre ilha acolhedora,
no anoitecer quieto
quebrado pela indómita perseverança
do tempo transcorrendo e transcorrendo,
os quatro vates donos de uma
irreprimível paixão criadora,
soprávamos música na trombeta
de quem ia ser meu amigo Satchmo.

É fácil compreender
que o Penedo é para a Ilha
o que a Ilha é para o Brasil e o Continente:
sentinela da entrada,
defesa
e farol.

A erosão e o homem lhe foram tirando
e tirando,
mas então era mais alto o Rochedo,
mais dilatado, maior;
por isso pude me encontrar ali
com escritores amigos:
_____Garota de Sacramento,
mulher de favela,
saiu teu livro desse Quarto de Despejo,
voou alto e longe, pombinha mensageira,
choveu o dinheiro em forma de dilúvio universal
e te chegou na distribuição
uma parte pequena.
_____Discutíamos Ester Abreu e eu
sobre alguns aspectos confusos de Don Juan
baixando aos infernos
para surgir de novo
andrógino,
triunfante,
celestial.
_____Miscigenação. Diz de mim Gilberto
de Mello Freyre, que sou a afortunada conjunção
de origens miscíveis, de misturadas culturas;
e assegura que é a mestiçagem
o princípio do progresso progressivo
e a constante dos avanços todos.

Fronteiriço eu, estava no centro
quando pude contemplar desde o Penedo,
trezentos e sessenta graus ao redor,
os trigais,
mar de primavera em Valdepero, ermida
de San Pedro e da Virgen del Consuelo,
castelo, arco da muralha,
colegiada de Husillos, sítios históricos de Muqui
e São Mateus,
Santuário de Nossa Senhora da Penha
e frei Pedro Palácios na gruta,
estações de Marechal Floriano e Matilde,
os troncos erguidos
e firmes da Mata Atlântica Capixaba,
a Pedra Soares de Ponto Belo.
Fazia calor e chovia.

Eu vi abaixo o alentejano Vasco
Fernandes Coutinho na Prainha,
desembarcando da nau Gloria
com a decidida intenção de estabelecer
a Vila do Espírito Santo e, depois,
Vila Nova de ser necessário
como aconteceu logo.
O sonhei desse jeito
ao contemplar seu marcial porte,
adereços de gala,
em um retrato majestoso
do acervo da Casa da Memória
em Vila Velha.

Acho que observei, estou convencido,
o Padre José de Anchieta
caminhando catorze léguas
pelo caminho da praia,
desde Reritiva até Vitória,
onde se alçavam a igreja e o colégio
de São Tiago.

Vivi o momento prateado da vertigem
na Ladeira de Pelourinho em Vitória.
Maria Ortiz se fiz heroína
-madeira em chamas, pedras, agua fervente-
ardor e coragem contagiosos
contra os atacantes
holandeses.

Alagava o sol minhas pupilas,
não obstante, pude pensar
que é obrigação do escravo escapar,
e de quem assina um contrato
conseguir que se cumpra
do princípio ao fim
no tempo acordado.

Pelo que tenho lido de Afonso Claudio,
que se tornou abolicionista em Recife,
efeito natural e lógico;
e o que ouvi da boca do protagonista quando
desde Mestre Álvaro chegou a meu amado Rochedo,
Elisiário escapou da morte pela audácia
de sua vontade indomável.

Ide a Queimado, em Serra,
vereis que aí estão,
ainda firmes, os restos da igreja
lembrando -causa e consequência-
os inolvidáveis acontecimentos.

Elos de uma cadeia inacabável,
os anos chegam
a mil novecentos e vinte e dois
quando,
Amazônia cultural com a força
de um período geológico,
Brasil dá á luz
o Modernismo.

Leitor fascinado desde a infância,
no Penedo leio a revista Klaxon
junto a Mario e Oswald de Andrade,
confidência do Itabirano Carlos
Drummond, também de Andrade,
Pagu, Tarsila e Bandeira;
sete amantes
da liberdade e da renovação
escrevendo, pintando, ruas cheias de gente,
pessoas que saem das casas
e caminham pelos povos
e pelas cidades,
falando de suas coisas em sua linguagem clara.
Abaporú e Antropofagia, potência
para impulsionar A máquina do mundo
que transportará o Brasil ao mundo
com o mundo.

Penso em Pagu no Largo de São Francisco.
A inteligente, bela e forte lutadora,
saia azul e branca de normalista,
lábios pintados de roxo,
caminho à Escola Normal onde aprendia,
chamava a atenção dos estudantes
da Faculdade de Direito.
Amei a Pagu ao ler Parque Industrial,
ainda a amo.

Eu queria escrever
um soneto com o conteúdo deste poema;
pois sei
que o soneto, mais que diamante literário
é turmalina de Paraíba.
Contudo
o soneto exige a perfeição
para alcançar seu efeito mais atraente.

Estamos em terra de sonetistas,
tenho na minha memória exemplos
como os de Beatriz Monjardin
em Floradas de inverno
mais os de Ainda o soneto de Athayr Cagnin
ou os Sonetos insones de Matusalém
Dias de Moura.
Em consequência,
o soneto foi descartado
dada minha incapacidade manifesta.

Nas escritoras capixabas pretendo
homenagear as mulheres
que tiveram
obstáculos de toda espécie
para desembrulhar sua paixão criadora e,
perseverantes, os venceram.

Adelina Tecla Correia Lyrio, capixaba
desde o ano 1863,
foi avançada na publicação de
poemas próprios em jornais,
participando nas campanhas abolicionistas
e nos saraus literários onde
se declamavam poemas
escritos pelas mulheres.

Haydée Nicolussi,
nascida em Alfredo Chaves no ano 1905,
com produção literária reconhecida
em todo o país,
“originalidade de estilo e audácia de ideias”,
publicou o livro Festa na sombra, depois
de sair da cadeia acusada
de ter participado na Revolta Vermelha
a favor da reforma agrária.

Maria Antonieta de Siqueira Tatagiba,
de São Pedro de Itabapoana,
nascida em 1916 morreu na idade
dos elegidos, trinta e três anos.
Dificuldades económicas a impediram
seguir os estudos de medicina.
Foi a primeira mulher
capixaba
em publicar um livro.
Divulgou, em 1927, Frauta agreste,
de poesia rítmica cheia de beleza.
“A Natureza toda é frescor, louçania…”

Maria Bernardette Cunha de Lyra,
nascida em Conceição da Barra
no ano 1938,
ocupa a cadeira número 1 da Academia
Espírito-santense de Letras,
tem publicada uma obra copiosa e magnífica
onde ilumina as mulheres
e o mundo feminino.

E assim, há outras autoras,
capixabas de raiz, coração ou pensamento,
muito valiosas.

Nestes tempos de incerteza,
ano dois mil e vinte,
quando a pandemia abate as pessoas
em várias vertentes,
Ester Abreu assume a presidência
da Academia Espírito-santense de Letras,
instituição sólida que pronto
cumprirá cem anos.

A mesma Ester
o dez de agosto convoca a reunião
dos acadêmicos de cadeira
e membros correspondentes.

Por isso, todos nós,
ocupamos o Penedo às dezoito horas,
vestindo máscara facial
e mantendo a distância social preventiva.
Tratados os assuntos comuns
cada um fala dos seus trabalhos atuais
e dos propósitos
para um futuro que não mostra a nariz.

Eu exponho a minha conclusão.
Filosofia, metafísica, teosofia, naturalismo,
sociologia, psicologia: entendo a espécie
humana no conjunto e nas partes:
homo homini lupus; amor, primeira
força
metafórica.
Estou bem preparado: me disse.
Mas, ¿sei aonde vou?
Não estou seguro, embora este sonho
quiçá marque o caminho.

No alto da coluna do Penedo,
ao modo de São Simão o Estilita,
deixo o relato de meu sonho capixaba
para que vocês,
se esse é seu gosto,
possam interpretá-lo.

PSde J, Vitória ES, através dos séculos.

 

 

 

 

 

 

MI SUEÑO CAPIXABA

Pedro Sevylla de Juana

Mi sueño capixaba es un poema de cuatrocientos versos, escrito de un tirón en lengua portuguesa. Tardé veinte días, investigación incluida, en tener el texto completo; y otros diez en corregirlo. Es necesario añadir que trabajaba durante el día y parte de la noche. Mi inmersión fue tan profunda que llegué a pensar en portugués; algo que nunca había ocurrido. En dos días lo traduje al castellano, tratando de conseguir el ritmo propio del idioma. Y todo ¿por qué? La razón, creo, es que me sentí capixaba por encima de fronterizo.

 

 

MI SUEÑO CAPIXABA

Pasaba el tiempo alimentándome
de historia, geografía y literatura,
de una tierra más interesante que ninguna otra.
Eran días y noches de trabajo intenso,
comiendo y durmiendo menos que un saviá.
Mirando las estrellas para individualizarlas y reconocerlas,
caí en un sueño profundo con la cabeza
apoyada en la mesa del jardín.

Todo comienza cuando el planeta Tierra
se torna habitable,
recibiendo en los meteoritos la esencia
y los primeros indicios
de la vida más sencilla.

Luego sucedió el período Cámbrico,
allá en la era Paleozoica,
hace de eso
quinientos millones de años,
cuando la existencia estalló en su totalidad
produciendo
la gigantesca explosión de vida
de la que tanto se ha escrito.

Yo era un trilobites
en aquella época remota,
artrópodo de tres lóbulos, que,
ciertamente,
había visto con gran interés,
ya fosilizado, en la clase de ciencias
naturales del colegio La Salle.

Vivía haciendo amigos en el agua
para defenderme de los enemigos,
ignorando que, fuera,
la vida no sería posible
hasta que la capa de ozono alcanzara
un espesor suficiente
para detener las radiaciones solares
más peligrosas.

Estando en el período Devónico
-abro un paréntesis para decir
que viene el nombre del condado de Devon,
próximo a Cornwall, donde pasé un verano
estudiando inglés con mis hijos-
así pues, en el Devónico
veo deslizarse mansamente,
aún ingenuo, el primer atardecer
de una solemne primavera,
silencio indescriptible
roto por el ritmo inarmónico
del incremento y desaparición
de especies evolutivas.

Mientras salto de la estrofa anterior
pasan cientos de millones de años,
y después de ese lapso
la Tierra cambia del todo.
Los movimientos de las placas tectónicas
sobre el manto
deshacen la crecida Pangea,
estableciendo al sur un continente inmenso
conocido como Gondwana.

Una parte formidable de él
es el intrincado laberinto de posibilidades
que ahora se llama Brasil.
La tierra fecunda cruzada por una pareja
de colibríes,
actual Estado de Espíritu Santo,
solo era un campo carente de frutos,
ni siquiera aquellos que producirían
en su momento
los mejores azúcar y café del mundo.

En el borde contemplo una isla alta y hermosa
de origen volcánico.
Hay lava ardiente en su interior
aunque carezca aún de nombre.
Emergiendo del agua más cercana
aparece un promontorio granítico
que alguno de nosotros denominó
Peñedo.

Pues bien,
en la cima de la roca
éramos cuatro líricos épicos
sentados en círculo.
Cordados entusiastas del equilibrio y la armonía,
los cuatro soñadores intentábamos
producir una música espontánea
que, con algo de choro,
decidimos llamar Samba.

Joaquim Machado de Assis,
autodidacta de vivo ingenio,
vida plácida de literato grande,
superioridad intelectual,
serenidad y firmeza en un rostro
rodeado por la línea del cabello,
barba y bigotes crecidos,
le interesaba todo, admiraba a Carola,
y viniendo de abajo
llegó a ser el primer presidente
de la Academia
Brasileira de Letras.

Hilda Hilst
hija única y alumna de internado,
la verdad, el amor, la libertad y la dicha,
resonaban en ella como palabras crecidas en lo alto
de las nubes inaccesibles.
Necesitaba ser feliz
y la felicidad y el deseo,
horizonte detrás del horizonte,
jugaban con ella al escondite.
Entroncada en el tiempo y en el espacio,
catarata intermitente, yegua alada
y bandera ondeando agitada de dudas,
su instante arderá
indefinidamente.

Antonio de Castro Alves,
cabellera al viento reclamando
libertad y justicia para los oprimidos
-mocidade e morte-
veinticuatro años de existencia,
vividos con intensidad poética admirable,
le bastaron para dejar
una inspirada obra en dos vertientes,
épica y lírica,
complementarias.

Sobre el ya Peñedo,
cerca de la no Vitória todavía
pero siempre isla acogedora,
en el tranquilo anochecer
roto por la indómita perseverancia
del tiempo transcurriendo y transcurriendo,
los cuatro vates dueños de una
irreprimible pasión creadora,
soplábamos música en la trompeta
de quien iba a ser mi amigo Satchmo.

Es fácil comprender
que el Peñedo es para la Isla
lo que la Isla es para Brasil y el Continente:
centinela de la entrada,
defensa
y faro.

La erosión y el hombre fueron quitando
y quitando,
pero entonces era más alto el Roquedo,
más dilatado, mayor;
por eso pude encontrarme allí
con escritores amigos:
_____Muchacha de Sacramento,
mujer de favela,
salió tu libro de ese Quarto de Despejo,
voló alto y lejos, palomita mensajera,
llovió el dinero en forma de diluvio universal
y te llegó en la distribución
una parte pequeña.
_____Discutíamos Ester Abreu y yo
sobre algunos aspectos confusos de Don Juan
bajando a los infiernos
para surgir de nuevo
andrógino,
triunfante,
celestial.
_____Miscigenação. Dice de mí Gilberto
de Mello Freyre, que soy la afortunada conjunción
de orígenes miscibles, de mezcladas culturas;
y asegura que es el mestizaje
el principio del progreso progresivo
y la constante de los avances todos.

Fronterizo yo, estaba en el centro
cuando pude contemplar desde el Peñedo,
trescientos sesenta grados alrededor,
los trigales
mar de primavera en Valdepero, ermita
de San Pedro y de la Virgen del Consuelo,
castillo, arco de la muralla,
Colegiata de Husillos, sitios históricos de Muqui
y São Mateus,
Santuário de Nossa Senhora da Penha
y fray Pedro Palacios en la gruta,
estaciones de Marechal Floriano y Matilde,
los troncos erguidos y firmes de la Mata Atlántica Capixaba,
la Pedra Soares de Ponto Belo.
Hacía calor y llovía.

Vi abajo al alentejano Vasco
Fernandes Coutinho en la Prainha,
desembarcando de la nave Gloria
con la decidida intención de establecer
la Vila do Espírito Santo y, después,
Vila Nova de ser necesario
como sucedió luego.
Lo soñé de esa manera
al contemplar su porte marcial,
vestimenta de gala,
en un retrato majestuoso
del acervo de la Casa da Memória
en Vila Velha.

Creo que observé, estoy convencido,
al Padre José de Anchieta caminando
catorce leguas
por el camino de la playa,
desde Reritiva hasta Victoria,
donde se alzaban la iglesia y el colegio
de Santiago.

Viví un momento plateado del vértigo,
Ladeira de Pelourinho en Vitória.
María Ortiz se hizo heroína
-madera en llamas, piedras, agua hirviendo-
ardor y coraje contagiosos
contagiados
contra los atacantes holandeses.

Inundaba el sol mis pupilas,
no obstante, pude pensar
que es obligación del esclavo escapar,
y de quien firma un contrato
conseguir que se cumpla
de principio a fin
en el tiempo acordado.

Por lo que he leído de Afonso Claudio,
que se hizo abolicionista en Recife,
efecto natural y lógico;
y lo que oí de la boca del protagonista cuando
desde Mestre Álvaro llegó a mi amado Roquedo,
Elisiário escapó de la muerte por la audacia
de su voluntad indomable.

Id a Quemado, en Serra,
veréis que allí están,
aún firmes, los restos de la iglesia
recordando -causa y consecuencia-
los inolvidables acontecimientos.

Eslabones de una cadena inacabable,
los años llegan
a mil novecientos veintidós
cuando,
Amazonía cultural con la fuerza de un período geológico,
Brasil da a luz
el Modernismo.

Lector fascinado desde la infancia,
en el Peñedo leo la revista Klaxon
junto a Mario y Oswald de Andrade,
confidência do Itabirano Carlos
Drummond, también de Andrade,
Pagu, Tarsila y Bandera;
siete amantes
de la libertad y de la renovación
escribiendo, pintando, calles llenas de gente,
personas que salen de las casas
y caminan por los pueblos
y las ciudades
hablando de sus cosas en su lenguaje claro.
Abaporú y Antropofagia, potencia
para impulsar A máquina do mundo
que transportará Brasil al mundo
con el mundo.

Pienso en Pagu, Largo de São Francisco.
La inteligente, bella y fuerte luchadora,
falda azul y blanca de normalista,
labios pintados de color púrpura,
camino de la Escuela Normal donde aprendía
llamaba la atención de los estudiantes
de la Facultad de Derecho.
Amé a Pagu cuando leía Parque Industrial,
aún la amo.

Yo quería escribir
un soneto con el contenido de este poema;
pues sé
que el soneto, más que diamante literario,
es turmalina de Paraíba.
Sin embargo,
el soneto exige perfección
para lograr su efecto más atractivo.

Estamos en tierra de sonetistas,
tengo en mi memoria ejemplos
como los de Beatriz Monjardin
en Floradas de inverno
más los de Ainda o soneto de Athayr Cagnin
o los Sonetos insones de Matusalén
Dias de Moura.
En consecuencia,
el soneto fue descartado
dada mi incapacidad manifiesta.

En las escritoras capixabas pretendo
homenajear a las mujeres
que tuvieron
obstáculos de toda especie
para desenredar su pasión creadora y,
perseverantes,
los vencieron.

Adelina Tecla Correia Lyrio,
capixaba desde el año 1863,
fue avanzada de la publicación de poemas
en los periódicos,
participando en campañas abolicionistas
y en fiestas literarias donde
se declamaban poemas
escritos por las mujeres participantes.

Haydée Nicolussi, nacida en Alfredo Chaves
el año 1905, es dueña
de una producción literaria reconocida
en todo el país.
«Originalidad de estilo y audacia de ideas»,
publicó el libro Festa na sombra, después
de salir de la cárcel, acusada
de haber participado en la «revuelta roja»
a favor de la reforma agraria.

María Antonieta de Siqueira Tatagiba,
de San Pedro de Itabapoana,
nacida en 1916 murió a la edad
de los elegidos, treinta y tres años.
Dificultades económicas le impidieron
seguir los estudios de medicina.
Fue la primera mujer
capixaba
en publicar un libro.
Divulgó, en 1927, Frauta agreste,
de poesía rítmica llena de belleza.
«La Naturaleza toda es frescura, lozanía…»

Maria Bernardette Cunha de Lyra,
nacida en Conceipção da Barra
en el año 1938,
ocupa la silla número 1 de la Academia
Espíritu-santense de Letras,
ha publicado una obra copiosa y magnífica
donde ilumina a las mujeres
y al mundo femenino.

Y así, hay otras autoras,
capixabas de raíz, corazón o pensamiento,
ciertamente valiosas.

En estos tiempos de incertidumbre,
año dos mil veinte,
cuando la pandemia abate a las personas
en varias vertientes,
Ester Abreu asume la presidencia
de la Academia Espíritu-santense de Letras,
institución sólida que pronto
cumplirá cien años.

La misma Ester
el día diez de agosto convoca la reunión
de los académicos de silla
y miembros correspondientes.

Por eso, todos nosotros
ocupamos el Peñedo a las 18 horas,
vistiendo máscara facial
y manteniendo la distancia preventiva.
Tratados los asuntos comunes,
cada uno habla de sus trabajos actuales
y de los propósitos
para un futuro que no muestra la nariz.

Yo expongo mi conclusión.
Filosofía, metafísica, teosofía, naturalismo,
sociología, psicología: entiendo la especie
humana en conjunto y en las partes:
homo homini lupus; amor, primera
fuerza
metafórica.
Estoy bien preparado: me dije.
Pero, ¿sé adónde voy?
No estoy seguro, aunque este sueño
quizás marque el camino.

En lo alto de la columna del Peñedo,
al modo de San Simón el Estilita,
dejo el relato de mi sueño capixaba
para que ustedes,
si ese es su gusto,
puedan interpretarlo.

PSdeJ, Victória ES, a través de los siglos.

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