IMAGO UNIVERSI MEI

Contenido: Imago Universi Mei. Introdução. A Crítica. Testemunho de Cesáreo Gutiérrez Cortés. Seleção de poemas de Pedro Sevylla de Juana. Oito poemários em português.

Somos filhos dum pretérito, que é o da humanidade inteira e o do Universo ao completo; duma evolução produzida seguindo regras naturais, nas que o acaso joga um papel essencial.
MAGO UNIVERSI MEI, é o resultado de sessenta anos de trabalho poético: vivência, leitura e escrita. Está composto por uma seleção revisada dos meus primeiros livros e uma reescrita dos últimos; em total oito poemários que diferem dos livros publicados individualmente, pois, ainda que tenho tentado seguir em seu progressão a ordem temporária, há fusões
e modificações que o convertem num livro único, recém acabado, obediente a minhas ética e estética atuais. Complementando a poesia vão algumas críticas, recebidas tanto na Espanha como na Ibero-América; e uma cronologia, assinada pelo heterônimo Cesáréo Gutiérrez Cortés, nascido ele como personagem no ensaio Ad Memoriam, de 2007.

 

 

Menção:
A poesia é a saída que a pessoa dá a seu labirinto
(Cesáreo Gutiérrez Cortês)

Dedicatória:
Às fêmeas de todas as espécies: Arranque e Empurro da Vida.

Análises e Críticas:
O crítico não é a bússola, nem o vento, nem a vela, nem o remo; mas tem um pouco deles e ajuda o veleiro a navegar.(PSdeJ)

ESTER ABREU VIEIRA DE OLIVEIRA, doutora em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Rio de Janeiro, pesquisadora, professora, diretora de teses e Professor Emérito da Universidade Federal de Espírito Santo, é poeta, narradora e crítica literária. Possui uma obra muito extensa e variada sobre a Literatura Espanhola, tanto clássica como contemporânea. A grande hispanista brasileira, Ester Abreu, escreveu:

Pedro Sevylla de Juana é dono duma linguagem elaborada e clara, e de um vocabulário preciso, ao mesmo tempo clássico e popular (metáforas, provérbios, ciência e folclore). Em seu tecer literário filosofa sobre a vida, aponta críticas sociais e literárias, recreia arquétipos, conceitua a arte e a poesia, revive o passado e abre sua alma, o alma que diz não ter.
Encarnando a poesia a dor humana, e a realidade projetada das emoções; sendo a mensagem um canto íntimo do interior que o produz, os impulsos proporcionados pelo conhecimento da boa poesia, encontram neste poeta terreno fértil para a tarefa de tecer seus versos.
Pedro Seylla de Juana: tem uma linguagem poética autêntica; é move as palavras com a propriedade de um regente de orquestra, para produzir harmonia; é lançar silêncios em palavras, e palavras que subam, que voem até as nuvens e aos espaços siderais, e desçam ao interior da terra, aos pântanos, aos mais infernais caminhos dantescos; é assim representar e imaginar no `irreal’ e projetar-se na verdade de uma maneira propria. Elas vêm à luz na recriação do mundo por um ato livre e voluntário, que se liberta do inconsciente nas palavras, para serem absorvidas pela ação do leitor, como nos mostra o conceito de poemas de Pedro Sevylla: “Os poemas são jaulas que o leitor abre, para que a águia ou o colibri escapem.”

ALHUCEMA, Revista Internacional de Teatro e Literatura, no seu número 16, publicou: La Deriva del Hombre de Pedro Sevylla de Juana, Cento nove poemas em prosa duma beleza inclassificável e personalíssima. Filosóficos, vitalistas, vigorosos, seus poemas procuram num universo inabarcável e exploram as diferentes vertentes da existência”.

SABAS MARTÍN, poeta, narrador, dramaturgo, ensaísta, crítico, e jornalista; é Académico honorário da Academia Canaria de la Lengua, e recebeu numerosos prêmios literários y radiofónicos. No programa Los libros en Radio Cinco, de Radio Nacional de Espanha, Sabas Martín, disse:

“Com uma poesia que participa dos registros da poesia, a prosa e a reflexão ensaística, Pedro Sevylla de Juana oferece em “La deriva del hombre”, uma singular proposta de emigração de gêneros embora ancorada firmemente no dizer poético. Poeta e romancista, nascido em Valdepero, Palencia, em 1946, Pedro Sevylla de Juana propõe, uma poesia de pesquisa, síntese e exploração sobre as muitas faces de existência, juntamente com um imbricamento ativo do ser na realidade do Universo. La deriva del hombre, de Pedro Sevylla de Juana, aparece como um trabalho original e diferente dentro do panorama da atual poesia em espanhol.
O título remete-nos à deriva, o transcorrer do homem sobre a Terra e, como fica mencionado, um dos elementos que distinguem este livro é a peculiaridade da sua escrita, em que narração e ensaio adquirem a beleza da poesia e a ductilidade da prosa. Concebida como a soma de quatro livros, no primeiro deles, Amanecer de pan y de simiente, predominam os poemas na terceira pessoa com um sujeito plural coletivo como protagonista imerso nos ciclos da Terra. Em La aldea Itinerante, Pedro Sevylla de Juana, nos oferece uma sucessão de textos, caracterizados pela disparidade geográfica: de Acerbaian a El Escorial, de Nairobi ao Tibet, os poemas compõem uma geografia múltipla e diversa como cenário no que conflui e se expande o ser.
Mis pies sobre la Tierra, terceiro dos livros de La deriva del hombre, manifesta em forma direita, com o uso do eu sujeito, a intimidade do poeta se revelando na expressão conjunta de Experiência e Pensamento
Finalmente, Crecido a la intemperie, resume a mirada do ser como um inabarcável todo, onde o transcorrer da vida reflete a precariedade e a incerteza, o desejo de transformar em um único destino, desejo e realidade, o intangível e o certo. Com tales elementos, Pedro Sevylla de Juana, constrói em La Deriva del hombre, uma obra poética intensa e sugestiva, escrita em prosa e cheia de nuances reflexivas”.

MANUEL DE LA PUEBLA, doutor em Estudios Hispánicos, professor de Literatura na Universidad de Puerto Rico, fundador e diretor de Ediciones Mairena e a revista Julia; é crítico, ensaísta, antólogo, poeta e narrador. Em Análisis sobre La Deriva del Hombre, Manuel de la Puebla, escreveu:

Numa primeira impressão, o livro impacta pela intensidade do pensamento e pelo domínio da linguagem. Não é obra da improvisação, filha duma explosão romântica; sim duma paixão duradoura. Embora às vezes nos deslumbra com disparos geniais, o discurso vem mais da reflexão do que do relâmpago. Obra do tempo, como se esclarece na contracapa: “O autor reúne no presente livro o trabalho dos últimos dez anos e a filosofia destilada no alambique da vida, somando-se às vanguardas poéticas atuais”. O livro não é fácil de classificar. Pertence ao ensaio devido à natureza da exposição, disseminada em numerosos fragmentos. À filosofia, pela visão e julgamento da realidade. E pertence à poesia – a classificação que o autor prefere – porque muitas das ideias são poéticas em si e por configurar uma entidade poética, a exibem e modelam, e porque o fazem na linguagem mais original e apropriada: a das imagens, novas, frescas, audaciosas; sem importar a forma aparente de prosa dos parágrafos, porque essa prosa carrega ritmo, entonação e volatilidade própria da poesia. É, ademais, o livro todo, uma autobiografia e uma poética.

Vislumbro um processo desarrolhado em círculos concêntricos. Um que ata a infinitude com a individualidade; outro a universalidade com o poeta, e o da cosmogonia original que absorve o biográfico. No referente à estrutura externa, a primeira das quatro partes, “Amanecer de pan y de simiente” é a mais densa no relacionamento, na expressão conceitual e no envolvimento poético, correspondente ao nascimento. A segunda, “La aldea itinerante”, é uma extensão do itinerário pessoal no mundo cultural e humano. A terceira, “Mis pies sobre la Tierra”, é a fixação na história humana e na vida, através duma caracterização muito acentuada do sujeito falante. E a quarta, “Crecido a la intemperie”, pertence à mesma natureza que a primeira: meditação, visão filosófica, interpretação racional e poética. O todo constitui uma parábola sintetizada do homem.

Desde as páginas iniciais da primeira parte, vi o reflexo dum conhecimento preciso e imenso; um reflexo dum pensar profundo, tão seguro em suas afirmações (esta é uma palavra chave) que parece a fala dum avançado a seu tempo. Pensar e dizer parece simultâneos. Simultâneos também vão filosofia e poesia, numa sintética desova do espírito. É o poema da gênese; a ordenação dum mundo que nasce na eternidade e se desenvolve na infinitude. Possui, por essa razão, um alento cósmico, um âmbito natural do pensamento anterior à palavra. Mundo nascente num momento chave, a origem do tempo historial, já sujeito aos números. Pensamento e poesia são simultâneos, eu disse, porque quando nascem, quando recebem a luz, estão cobertos de imagens, porque nascem da unidade em que a linguagem se origina. A eternidade, a infinitude, o cósmico e o telúrico, se entrelaçam para formar um universo conceitual imensurável, no qual todas as coisas participam e até as opostas adquirem significado.

Após o impacto do primeiro capítulo, ao caminhar por “La aldea itinerante” se adverte um descenso na intensidade (poética e filosófica), embora o pensador e poeta que há no falante captem o mundo visto nos viagens em forma transcendente, e o livro recolha a dispersão geográfica do homem primitivo e a mestiçagem permanente que explicam o homem atual. Há em Pedro Sevylla um observador e um informador bem capacitados. Assim, o conteúdo, mais livro de viagem que texto de pensamento e interpretação poética, dá sentido ao título e o justifica: “A deriva do homem”, um termo marinheiro que expressa a distância entre o ponto de destino e ponto de chegada, entre o que é desejado e o que foi alcançado. Na terceira parte, os fragmentos narrativos estão entrelaçados com breves descrições e notas autobiográficas. Aqui se vê o nascimento da vocação poética, o mundo de suas leituras e de sua educação; a filosofia de vida e as reflexões de ordem social que conduzem à profunda caracterização do poeta.

A quarta, da mesma natureza que a primeira, se resume na entrada do ser humano na existência, sua acomodação no mundo e seu desenvolvimento; na realização duma obra como função criativa e no traslado do aprendido para aqueles que o sucedem. A esse ser corresponde a imagem de ente superior, embora flutue entre ilusões e crises, dúvidas e clarezas, encontros e rupturas. Passando, imediatamente, desta figura modelo, para a representação do sujeito falante, em si mesmo e na sociedade. Nela perdura a ligação com o passado, que fixa as pistas ao presente e ao futuro. “Ferve o homem de entusiasmo, caldeira exposta ao sol avermelhado do verão, e se agita como uma criança obstinada, insatisfeita e crítica, que quer ver adaptado o universo ao seu capricho. Portador dum jarro de luz sobre a cabeça, o vazia insistente e obsessivo, lago escuro da noite interna “. “O homem, a pessoa -não o deus, o semideus ou o herói de lenda- o indivíduo, o ser humano, alberga no altar erguido do seu peito uma incoerência dolorosa: ama o animal que leva dentro e, sem embargo, deseja se distanciar pelo menos vinte metros “. (P. 105) Se trata dum ser que superou “os velhos conceitos, as regras que não regulam já o irreprimível” (p. 106) O homem tem uma liberdade onímoda que Pedro Sevylla de Juana vê confirmada na arte e na redação da doutrina universal inovadora. Essas ideias conduzem-lhe à reafirmação da grandeza humana e “nesse momento culminante, esquecendo antigos desagrados, a filosofia, a técnica e a arte -como acontece a cada dois ou três gerações- entre trejeitos renascem”.

Como descansos duma linha expositiva tensa, aparecem algumas belas páginas, dedicadas ao silêncio, à solidão, ao tempo da colheita em Tierra de Campos ou El Cerrato, tempestade e seca; ao qual se soma a encenação apocalíptica causada pelo terrorismo em 11 de março de 2004 Madri. Entre medos e dúvidas conclui o poeta se perguntando sobre o destino, o curso do mundo e sua defesa contra os poderosos:

Quem impedirá que deem forma a nossa argila
em desumanos moldes
os que fazem ferramentas das vidas;
quem acolherá as exceções,
quem será do diverso garantia?

Quem nos livrará da inocência,
quem nos sacará da estatística,
quem sobreviverá ao sistema,
se morre a Utopia?

“A deriva do homem”, soma seus versos ao “inconcluso poema que escreve sem descanso a Velha Humanidade”. Magnífico poema concluinte de Pedro Sevylla de Juana, que em alguns de seus versos diz:

Fêmea ou varão emergidos da besta,
vigorosa mocidade, debilitada velhice,
cada um dos múltiplos poetas
lança um grito de esplendor incandescente
ou um vagido de tímidas trevas,
somando ao conjunto
suas linhas incompletas.

Contraditórios versos do homem confundido
mas basta examinar com atenção o prolongado Poema,
de acima até abaixo
e de esquerda a direita,
para conhecer o caminhar errante da tribo,
o ziguezague inteiro,
a desencantada fugida
e o esperançado regresso.

Revista Ceiba Universidade de Puerto Rico.

 

Janela aberta para o interior

O nó central da inclemência
se resolve em verdes prados,
em pálidos cores o verão se resseca
murcha-se o outono em ocres arrebatos
em folhas amarelas,
em crostas, em bagaços.

Ante as instáveis gotas de orvalho me amoleço,
ante a diminuta névoa suspendida
gelosia natural do Firmamento.
Granizo, escarcha, chuva ou neve
persigo a água cristalina
regeneradora e renascente.

Quero descer na catarata
eflúvio ser de seu vapor evaporado
ser espuma da água fustigada.
Cai gota a gota o chuvisco
passo a passo, rama a rama
desfalece ritmo a ritmo
grão a grão se desgrana.

Moldou o rio seus meandros,
leito aberto,
seixos rolados;
cavalgou a madrugada sobre formas mais precisas
fomos muitos para as escassas lebres
e levantou irmão contra irmão a cobiça.

“Que iniciem o ataque os arqueiros
acometam depois os de a cavalo
terminem corpo a corpo os infantes a refrega”:
com agressivo brado
arengou o estrategista na traseira .

“Os mortos recolhidos atrás da linha de partida
não atingirão o ansiado paraíso”:
sentenciou iracundo o druida.

Não houve vitória que admitisse terna os pacíficos
feridos pelas armas dum e doutro bando
nem leito de plumas
que acolhesse os inválidos.

Foram pícaros os que reivindicaram o triunfo
conseguido pelos mais ferozes;
e para premiar aos heróis inúmeros
faltaram prezados galardões.

Bandeiras, tambores e trombetas,
páginas abertas dos livros;
cada um no seu sítio: luta ou cautela
campo de batalha ou caminhos.

Tinta indelével das plumas,
sentimentos, intenções, desígnios:
tudo o aniquila a crueldade das disputas.

Arrasa a guerra povoados e colheitas
afasta os horizontes de chegada
abandona barbechos abertos à relha
arranca corações robustos de lava
separa aos potros da égua
mata a vida na vida engastada
tergiversa a liturgia, e o mel das abelhas
pelo solo esparrama.

Cada punhado de terra oculta uma gota de sangue:
veias confiadas no raso
artérias surpreendidas nos vales
e no mais elevado do alto,
a desmedida ambição culpável.

(Fragmento de As espigas tronchadas
Pedro Sevylla de Juana)

 

 

Casa onde nasceu Pedro Sevylla de Juana em Valdepero

 

 

TESTEMUNHO
de Cesáreo Gutiérrez Cortés

Pedro Sevylla de Juana nasceu às onze horas da manhã do dia 16 de março de 1946. Sucedeu em Valdepero, vila próxima à cidade de Palencia, capital da província de mesmo nome na Espanha. Ocorre que eu nasci naquele lugar no mesmo dia, embora às cinco da tarde. O horóscopo nos descobre quase iguais, ainda a vida estivesse formando personalidades muito diferentes. Éramos companheiros na escola mista infantil e no início da escola primária. Ainda tinha três anos de idade, Pedro, quando já lia. Dos seis aos nove anos, ele era um estudante brincalhão que distraía os outros com suas piadas, e bastava-lhe apenas uma leitura para saber a lição quando Don Roque perguntava. Tivemos como professor a Don Roque Mediavilla, e éramos coroinhas de Don Jesús Fernández Pinacho, ótimas pessoas, cruciais em nossa formação e comportamento.
A primeira vez que Pedro Sevylla falou em público, foi nessa época. Contava oito anos de idade. Desde o topo da escada do altar-mor, na igreja da Vila, por iniciativa de Don Jesús e Don Roque, declamou um poema de Gerardo Diego dedicado à Virgem. Aconteceu na missa principal no dia quinze de maio, festa da Assunção, com o grande templo cheio de fiéis. O mestre e o pároco eram o complemento ideal dos pais, que fizeram tudo o que puderam por nós; pouco no meu caso, pastores de ovelhas; mais em o seu, lavradores de terra seca em Valdepero e úmida em Husillos.

Com nove anos, alcançou os primeiros postos da escola municipal, sessenta alunos que acabavam aos quatorze. Por sugestão do professor, os pais de Pedro o levaram interno para o colégio La Salle em Palencia. Eu continuei na escola e na aldeia, ansiando sua companhia. Era divertido nos jogos e contava seus sonhos convertidos em histórias certas. Valente e determinado, ele estava na cabeça das façanhas, aquelas aventuras que sua imaginação tingia de heroísmo. O castelo, as adegas, pombais, os cercados e as hortas de Valdegayán; acéquia e ladeiras de Husillos e Monzón, Taragudo e as gesseiras: naqueles lugares estava o nosso mundo épico infantil. Ali, mentidas contendas a pedradas certas, lutas corpo a corpo de pares até que um derribava o outro. Incursões para a acéquia e o Río Carrión, páramos, montes e os povos limítrofes, satisfazendo uma crescente curiosidade. Pedro propunha, instigava, estimulava, encerando lugares e feitos, polindo-os.

Do colégio francês em Palencia volvia a cada três meses, de férias; e eu esperava no pombal de Don Manuel quando seu pai o trazia. Me confiava seus sucessos e decepções sem orgulho nem pesar. Assim sei, que no segundo ano do ensino médio, devorava os textos ilustrativos do livro de literatura espanhola; e os livretos que cambiava na livraria da Calle de San Bernardo, escapando pela capela-oratório aberta ao público. Naquele tempo, quando Pedro cumpriu doze anos, castigado por descrente a estudar durante a missa diária obrigatória, ele reuniu um curto romance: quarenta ou cinquenta páginas, onde suas leituras copiosas foram vertidas sem ordem definida, como vômito após comer demais. Aos quatorze anos ele conheceu Gilbert Keith Chesterton, e esse encontro com as obras do mestre do paradoxo, facilitou a visão duma luz transformadora da escrita. No final do curso, início dos exames de revalidação no instituto Jorge Manrique, recebeu Pedro a aparição de Ana María Inmaculada. Sorriso, naturalidade, modéstia, simpatia, e a profundidade dos olhos curiosos da garota de quinze anos, ficaram nele quando aprovou os exames com nota alta. Ele o relatou assim nestes versos descritivos:

Ela e eu

Eu era apenas uma ilha
e ela uma ilha era.
Ela ilha pronta a abrir-se
e eu ilha muito aberta.
Eu uma ilha agitada
e ela uma ilha inquieta.
Era Amor quem se acercava
com seu carcás e suas setas,
e logrou que nos amássemos
ao superar a primavera.

Naquele verão, é minha opinião atual, sempre precoce e fronteiriço, se fez adulto. No meu caso, posso dizer que dei um salto qualitativo, pois, conduzido por Don Roque e pelo próprio Pedro, acabada a escolarização, comecei a estudar na Escola de Artes e Ofícios de Palencia, onde ia todos os dias de bicicleta. Conversávamos com ilusão e medo do amanhã, um futuro que mostrava seu focinho e, timidamente, o escondia de novo

“ Um lago, um barco balançado pela agitação da água, uma mulher inclinada lendo um romance de amor: La Nouvelle Héloïse, de Jean Jacques Rousseau. Seu amante pratica esgrima na floresta da beira, recitando de memória o poema `Le Lac’ de Lamartine: Ainsi, toujours poussés vers de nouveaux rivages. O oponente, em sua recitação paralela, entre guardas e paradas, tem a oportunidade de corrigir dois versos seguidos: `Tu mugissais ainsi sous ces roches profondes / ainsi tu te brisais sur leurs flancs déchirés´, que o amante minimamente confundiu. É quando o corrigido responde: touché; e abandona o lugar por uma alameda que chega até a mansão. O duelo acabou: o vencedor, deixando o florete fincado na grama, se joga na água e nada em direção ao barco. A mulher alça a mirada do livro, olha para o nadador e sorri comprazida.”.

Alegoria da In-firmeza, titulou este breve texto Pedro Sevylla de Juana ao escrevê-lo, recém obtido o título de Bacharel Superior, ainda namorado de Ana María Inmaculada. Naquele momento crucial, final do internado, a nova realidade chegou com tantas possibilidades, que meu amigo fraterno necessitou quase um ano para se decidir em liberdade. Ajudava ele nos trabalhos da família, escrevendo, ademais, intensamente sobre temas variados: versos de amor, análise da linguagem ouvida dos vizinhos e, preocupado com a questão social, pensamentos filosóficos destinados a melhorar a vida das pessoas. A agricultura de tração animal havia sido sua pátria; mas quando as mulas foram substituídas por máquinas, que ia ele fazer lá? Não tinha Pedro lugar nem tarefa na agricultura industrial que chegava. Reconheço que para mim Pedro foi um estímulo, um exemplo de ação. Projetamos quimeras irreais, e pouco a pouco descemos às possíveis: preparando-me para elas me ensinou o abc da língua francesa.

 

 

Pedro Sevylla, dezessete anos, recém chegado a Madri

Meses depois, quando ele tinha dezessete anos, foi para Madri, estudante lá de ensino superior. Daquela época na cidade grande é esse poema:

 

Saudades

Eu tinha uma mula parda,
forte, mansa, nobre
brava.

E tinha um arado
com as rabiças de faia
e o timão curvado,
vertedora extensa
e uma relha aguda
para abrir a terra.

Eu tinha uma mula parda
e tinha um arado,
e juntos, os três,
nos íamos ao campo;
e no campo abríamos sulcos
e nos sulcos semeávamos o grão.

Eu tinha um plaustro,
varas de roble velho
eixo temperado,
e seu movimento
me aquietava o ânimo.

Eu tinha uma mula parda
e tinha um plaustro,
e juntos, os três,
nos íamos ao campo,
trazíamos a sega à era
e a parva era um pão dourado;
oro a palha
oro o grão.

Eu tinha uma mula parda
e tinha um arado,
eu tinha uma mula parda
e tinha um plaustro;
e a terra me dava
cem grãos de ouro
por cada grão.

Pedro, estudante diverso de longa trajetória, compaginando estudos e trabalho, ao cumprir dezoito anos começou trabalhar no Ministerio de Hacienda. E dezoito tinha eu, Cesáreo, quando me fiz emigrante na França, linha de montagem duma fábrica de automóveis. Distanciados geograficamente, iniciamos uma intensa troca de cartas. Nelas relatávamos satisfações e preocupações, enviando o que de nossa escrita nos satisfazia. Um ano mais tarde entrei em Afiche, agência de publicidade, onde montava estruturas metálicas nas principais estradas; aproveitando a noite para ler autores franceses em seu idioma. Esta atividade foi o prelúdio de mi passo ao departamento de redação da Agência.

Em 1966, o grupo editorial Caravela, do Club Hispanoamericano de leitores, e as Coleções de poesia Nudo al Alba, Plaza Mayor e Verde Hierba, propôs ao poeta já intenso, Pedro Sevylla de Juana, a edição de seu livro de poesia “Lágrimas de amor para irrigar trigo e amassar pão”. Apreendi um desses poemas, e eu o recito em minha mente muitas vezes, porque me leva para aquele tempo do povo, irrepetível

Entardecer quieto de maio

Pula corda, muchacha,
joga amarelinha,
toma uma empada
dá-me uma rosquinha.

Me amará você?
De ontem para hoje
de hoje para ontem
te amarei na noite
no dia te amarei.

Duma esquina a outra nos vemos,
cada tardinha azul e ouro
tímidos ainda, sem atrevermos.

A rua é um palco
e a vida se move nele
tempo e espaço
efervescentes.

Um cachorro ladra uma mula
incomoda-a e a molesta,
golpeiam cavaleiro e fusta
ao cão na cauda inquieta.
Enfurece-se o can, e em seus ladridos fala:
baixa, covarde, da mula velha
e nos veremos as caras.

Não aceita o repto o rapaz,
e orgulhoso continua,
cavalgando devagar.

Duma esquina a outra esquina me miras
do meu canto a teu canto te miro
meu amor por ti me adivinhas
teu amor por mim te adivinho.

Recolhes papoilas ternas
e aromáticos coentros,
apoiada na cintura a cesta
para alimentar os coelhos
que com sua carne alimentam.

Tu e eu nos olhamos
duma esquina a outra esquina
como esperando
a que um dos dois se decida.

Vais para a fonte do Poço
com o cântaro vácuo,
uma e outra vez com esforço
a bomba subo e abaixo
e a água cristalina surge
enchendo ao cabo o cântaro.

Te escolto unindo pequenas palavras
nimiedades sem forma
simples frases de dizer na casa,
com o desejo de atingir a Ronda
currais de ovelhas e vacas
sem vizinhas que cosam
em cadeiras de vime e palha.

Enriquecem meus claros propósitos
quando deixas o cântaro sobre o poial de pedra
e ao sentar-nos tão juntos e tão sós
me converto em poeta.

Te digo amor e me pedes reserva
porque tua mãe em qualquer momento
pode sair pela traseira.

Tomo a mão que se acerca
e a acaricio olhando teus olhos que me olham
com uma mirada nova.

Nossos lábios são ímanes
e se aproximam de repente
até fundir-se tenaces
pela ousadia entreabertos
durante um alongado instante
que se desvanece eterno.

Depois, sem desejá-lo, te ergues,
devagar abres a porta,
adiantas com suavidade o cântaro
e, sem desejá-lo, entras.

Se despedem teus olhos remissos
a retirar-se, e a velha madeira
pouco a pouco, muito pouco a pouco
com um queixume se fecha.

PSdeJ Valdepero maio de 1963

Jazz, sua paixão feita música. Feridos os tímpanos pelos bofetões do Frade Teodomiro, prefeito de disciplina no colégio; perdidos os sons agudos, o canto rasgado de Louis Armstrong, sua trombeta desgarrada, o abriam, fortaleciam e abrandavam. Ella Fitzgerald. Louis e Ella juntos e separados. Charlie Parker, Miles Davis, Thelonious Monk, John Coltrane, Duke Ellington. Tete Montoliú em Barcelona. Jazz. Com frequência escrevia poemas ouvindo essa música inspiradora.

Tinha vinte anos Pedro Sevylla quando escreveu -face e metade duma folha branca, hoje amarfinada- sua ideia de resolução dum grave problema: as crescentes desigualdades econômicas e sociais: enorme riqueza acumulada em detrimento duma população privada do essencial. “Todos os bens materiais que o indivíduo possua no momento da sua morte, serão tomadas pelo estado. Os herdeiros legais não receberão mais do que é considerado enxoval doméstico, até um valor estabelecido. Todos os nascidos serão iguais no ponto de partida; recebendo do Estado o necessário para ter uma vida digna, e desenvolver as habilidades naturais. Terão vivenda, sanidade e o ensino nas áreas para as quais cada um se considere capacitado. A legalidade se baseará na chamada “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, proclamada pela Assembleia Geral da ONU em 10 de Dezembro de 1948”.

Incluía detalhes sobre a progressão dos impostos, a igualdade de direitos e deveres entre os nativos do país e os estrangeiros. Em quanto aos refugiados econômicos ou políticos, ele opinava que deveriam receber ajuda suficiente para reconstruir a sua vida, na forma dum empréstimo que eles, gradualmente, devolveriam. Especificava que a quantia dos salários mínimos e máximos, devia ser estabelecida por lei, para que eles não fossem distanciados. Os delitos contra o patrimônio público, como aqueles cometidos por funcionários, representantes do povo ou encarregados de administrar a justiça; deviam ser punidos com o afastamento total, e a entrega do dinheiro equivalente ao dano causado, mais a sanção. Ele estava convencido de que os açambarcadores de propriedades e recursos, teriam menos interesse em acumular, e os cidadãos trabalhariam, mais do que fariam pela compensação econômica, por sua própria satisfação e o reconhecimento social. Ele chegou a tal medida corretiva dos desequilíbrios, durante a noite de insônia, no vigésimo dia de dezembro de mil novecentos e sessenta e seis.

Um dia de ilusão realizada, coincidimos em Paris: primavera de mil novecentos e sessenta e oito. A alegria foi imensa. Falamos dos primeiros tempos, de nossos logros e das aflições mais íntimas. Logo nos tornamos filosóficos, chegando a essa ideia essencial, núcleo e suporte de tudo: o eterno infinito. Em sua opinião, o infinito não pode existir porque é uma simples soma de espaços finitos; e a soma dos finitos só dá um maior finito. A mesma coisa acontece com o eterno: a soma dos retalhos do tempo é incapaz de formar um interminável período de tempo. Sem embargo, o espaço não pode ser diferente: ou é infinito ou não é nada, porque se tivesse limites, haveria mais espaço por trás desses limites, e assim uma e outra vez até atingir o infinito impossível. A soma de minutos, dias, anos, séculos, milênios, daria um tempo ainda maior, mas não poderia dar a eternidade. O conceito de infinito está ligado ao da eternidade, e assim ele o havia escrito: de forma tão concisa e clara publicou a conclusão:

Em seu próprio final inalcançável
se enraíza o impossível princípio do tempo
e as bordas do espaço se afastam à velocidade da luz
seguindo os trinta e dois rumos da rosa dos ventos.

A eternidade é o tempo que demora a luz em percorrer
o espaço infinito,
a infinidade é o extremo espaço que a luz atinge
em seu eterno percurso intensivo;
se explicam juntas ambas, a uma sem a outra não são nada.

Trecho de “Espaço e tempo, matéria e energia”

 

Caminhamos para Trocadero e, desde lá, à vista do Campo de Marte, decidimos subir ao topo da Torre Eiffel. A visão alcançou 360º. Filósofos nos sentimos novamente: razoamento adiante, partindo do Eterno Infinito, Infinito Eterno, chegamos ao Primeiro Princípio, pedra angular do Universo, o Demiurgo, origem de todo o existente e existido. Em sua opinião, o conceito de Deus artífice concreta o impossível e o explica definitivamente, evitando inúmeros dores de cabeça aos humanos necessitados de explicação. Solução única lograda pelos pensadores de todos os tempos: uns se aferrando a ela e outros rejeitando-a por considerá-la um atalho na busca. Deus passava, dessa maneira tão simples, a ser a soma dos dois conceitos, impossíveis mas imprescindíveis: a infinita eternidade, a eterna infinidade. A matéria não podia cumprir essa dupla condição, mas sim a energia. A energia seria considerada, por tanto, potência; e a matéria, capacidade. Deus passava a ser, conceitualmente, um buraco infinito cheio de energia eterna; aquele verbo do qual parte o Gênesis, a palavra ativa, ordem que se executa a si mesma, o Fiat mágico.
O expressado por um, e a reação produzida no outro, nos levaram a coincidir até na limitação que essa teoria apresentava. O demiurgo, criado o Universo impulsionado pelas leis universais, não era mais necessário. E sendo eterno, deitou-se confortavelmente entrando numa longa letargia. Assim o explica Pedro Sevylla de Juana em seu magnífico poema O elevado voo do veleiro Nova Era. Aqui está esse fragmento:

Entre a constelação de Orión
e a estrela Sirius
durante um mínimo instante os tripulantes percebem,
imagem e semelhança do homem,
o Demiurgo andrógino
deitado em suave leito de nuvens,
roncando compassadamente
seu sonho sem fim. Grandes, muito grandes
a cabeça, o corpo e as extremidades,
dotados duma esplêndida beleza;
olhos límpidos,
pele tersa na desnudez luminosa que mostra.

Trecho de “O elevado voo do veleiro Nova Era”

 

Eu pintava, lia e escrevia quando terminava de redigir anúncios para rádio, jornais e revistas. Consegui contatos nos meios de comunicação, que me permitiram publicar alguns trabalhos literários. Pedro disse que sou um psicólogo da existência e um grande definidor. Devido a minha capacidade de fiar fino e à concisão, minhas frases são definições puras e estritas. É verdade, ele costuma usá-las na introdução de seus livros. Pedro adora a pintura e, vendo os meus quadros expostos numa calçada de Montmartre ao lado de outros pintores, falou sobre sua relação com a pintura. Relação de amor- ódio: ele a ama e ela o rejeita. O tentou já na escola. Fingia formar imagens figurativas, mas elas surgiam abstratas. Sendo adulto, tentou novamente, mas já decidido pela arte abstrata. A imaginação, fantástica, colocou nomes apropriados nas pinturas acabadas. Isso o salvou do completo fracasso e do descrédito. A fotografia – tinha licença profissional e estava sindicado – foi apenas uma maneira de abordar a pintura. Sem embargo, tenho visto desenhos de sua caneta e tinta china, que revelam alguma insistência posterior. Vidas paralelas as nossas, cremos estar sempre em caminho, um caminho difícil: arroios tortuosos, rios de grande fluxo, e escassas pontes que permitam o avanço. Mas opusemos teimosa obstinação.

Paris foi para Pedro Sevylla um lugar de peregrinação, ele viajou lá em muitas ocasiões, percorrendo as ruas e as praças, visitando cada edifício dos muitos grandiosos que compõem a Cidade Luz. Albergues da juventude e hotéis em bairros populares habitou em sua busca do fólego da grande cidade. Em Paris, teve amores e escreveu belos poemas. Contudo, ignoro a razão, Paris não figura entre as cidades que ele cita na sua biografia. Eu guardo com carinho uma cópia do seu livro:

O homem no caminho
(livrodeversos)

Manuscrito com letras maiúsculas e tinta preta, a dedicatória aponta na direção do assunto: O eu universal, ao eu doméstico, reconhecido. Na apresentação, ele diz: “Este é um livro acabado; premeditado e meditado, foi corrigido, acrescentado e diminuído cem vezes em sete anos “. O primeiro poema desse livro de poesia, escrito principalmente em Paris, no verão de 72, começa assim:

A água e a luz,
e todo o demais
depois;
os charcos e as candeias
a obscuridade e os desertos.

O homem teve que inventar justiça
e paz
e teve que inventar
amor;
ao chegar não havia nada,
água e luz.

Inventou os gritos
e as garatujas,
o negro sobre o alvo
e o azul.

Inventou as redes e o arado,
o dia e a noite,
o bem e o mau.

Inventou a tristeza
e desenhou sorrisos no ar
para ser guardados em cofres fechados.

Inventou a alegria
e lançou ao mar máscaras trágicas
que imitavam de longe à morte.

Compreendeu após muito tempo
o que a vida era
e sonhou que ele era vida.

Assim inventou os outros de noite
e pela manhã semeou os campos,
no entardecer contou as estrelas que nasciam
e teve ocupadas as mãos
domesticando tormentas.

O homem
teve que inventar todo,
quando veio
nada tinha.

E o poema seguinte acrescenta:

A terra e as linhas verticais
foram para o homem
ponto de partida.

Com elas traçou caminhos
e plantou árvores,
semeou os rouxinóis e as primaveras,
pintou os crepúsculos vermelhos
e os amanheceres tibios,
criou o amor
e engendrou a vida.

Tudo foi bem
quando o tempo caminhou a seu lado,
enquanto teve terra
e linhas verticais;
depois serrou os trinos das aves
e apagou seus voos,
torceu os leitos dos rios
e atirou sobre eles pontes,
deixou cair à beira do caminho
amoreiras e espinhas
e chorou trevas ignoradas
salpicadas de armadilhas para animais selvagens.

Tudo foi bem
enquanto teve ao tempo de seu lado
quando caminhou pelos campos estéreis
com a mirada posta nas estrelas.

E em outro poema manifesta:

Por os seus resíduos
se conhece o homem,
pelo que deixa à beira do caminho
quando segue caminhado.

Aos 22 anos, Pedro foi convidado para o Primer Congreso de Escritores, realizado em San Sebastian no ano de 1968. Era setembro e ele cumpria o serviço militar. Seus chefes negaram-lhe a permissão que solicitou, ansioso de participar. Estou convencido de que aquele encontro com os grandes escritores do momento literário espanhol, tivesse levado o percurso da sua escrita por outros rumos. Abrir-se a outros que se aproximaram a ele, usos e convicções, o teria enriquecido. Porque Pedro se beneficiou das leituras abundantes, e da rica experiência vital. Ele tinha verdadeiros amigos, homens e mulheres em ambientes díspares, mas escreveu sozinho, isolado. Respeito da constante pessoal da solidão do escritor, dizia que era desejada e benéfica. Como prova disso, destaca a verdadeira originalidade de sua obra, e o próprio das formas, enfoques e estilos utilizados.

Pedro Sevylla se apaixona pelos países onde chega. Partindo da Espanha recorrida do começo ao fim, conheceu o sul da França e à ilha de Paris, o amado Portugal, Marrocos, cheio de mistérios e surpresas; o comercial Gibraltar, a dividida Alemanha, Suíça e sua elevada diversidade; o mundo clássico de Grécia e Itália, Inglaterra isolada. A impressão foi intensa na chegada a Tchecoslováquia, de trás da Cortina de Ferro em plena Guerra Fria, fronteira de arame farpado e torres de vigilância armada; confessa que teve medo quando ficou em Praga sem passaporte num albergue de juventude da rua Konêvova. Conheceu Israel e sua profusão de nuances emocionais, difícil equilíbrio instável, gente dormindo com o fuzil perto e um olho aberto
Em seu romance “Del elevado vuelo del cóndor”, diz ele do protagonista: “Seu desejo de escapar atinge um vasto território que começa nas encostas de Madri, Serra Norte, e tem o seu termo em lugares e pessoas de nomes mitificados por ele, animais, plantas e pedras, objetos: Nínive, Praxíteles, Tenochtitlán, ornitorrinco, coala, Krakatoa, hoja lanceolada, rosa del desierto, el Santo Grial, Marco Aurelio, piedralipes, Olimpo, Isla de Negros, Sakuntala, Fusiellos”. Eu, Cesáreo, quase seu irmão, sei que falando do escape se estava referindo a si mesmo, unindo exotismo, aderências e ternura num ponto de fuga. Quando, por razões de trabalho, recorri os lugares turísticos mais movimentados, eram meus próprios artigos publicados nas diferentes revistas, a única prova de que eu estive lá. Pedro entrou no interior, tempo e espaço, e tornou-se um dos nativos do país, história e geografia. A palavra, com todos os seus significados e propostas, em muitos momentos foi motivo de partida ou ponto de chegada. A vila de Bude, por seu nome evocativo no mapa, lhe levou um verão para Cornwall, na Grã-Bretanha, cruzando a França de carro. Naquele ambiente britânico, ele escreveu:

The power of sight

To live
from a purely human point of view
is to sink gently into the sea of reality
and to swim till the weariness beneath the floating islands
fleeing from voracious fish and oceanic snakes.

O! the cliffs of Cornwall
the fuzzy line of the horizon
the gloomy clouds at dusk
the reddish sunsets amid the mist,
and the measured voice of Jane Read, actress, reciting a poem
imitating the words of the common people
drawing the faces of the Celtic Gods,
mere listeners along the narrow footpath.
which leads to infinity.

O! the magic moment,
the mysterious charm of the country…

My passionate imagination,
from a purely aesthetic point of view,
balances the Tierra de Campos and Cerrato deserts
whith the liquid meadows of Camelford.

And the sight goes from a place to another
converting the grey of foggy
the black stormy
into blue of a sapphire sky.

The road from Trebarwith Village to the shore
is a part of my devious trajectory
as the track that arrives to Husillos,
Carrión river, channel,
from Valdepero, fountains, brooks
near Palencia.

The existential vicissitude is tempered,
from a purely emotive point of view,
in the symmetry of the deepest remembrances,
becoming a matter of lines and colors
scents and premonitions.

And the reality,
in this interminable winter,
is the hard steppe of the dreams.

PSdeJ, Summer of 1980

Datado anos depois, guardo com especial carinho um conto de Pedro Sevylla dos considerados experimentais, embora essa qualificação acrescente pouco, pois corresponde a boa parte de seu trabalho. Diz assim:

Fazendo memória

Fernando esqueceu o nome do presenteador há muito tempo, porém, ele ou ela, deu-lhe a cópia 84, pertencente à edição numerada de La Flûte enchantée, Liege 1956, Les Charités d’Alcippe, por Marguerite Yourcenar. Impresso em papel vélin pur fil Lafuma-Navarre, foi retirado da venda a pedido do autora, devido aos muitos erros tipográficos que continha. Ignorante de seu valor econômico, Fernando o mantinha como ouro em pó por causa de seu valor poético. Um mistério mais de minha vida, disse-se Fernando, o idoso solitário que ia caminho adiante olhando os lados. Era o momento preciso em que a mente e os olhos se põem ao serviço da ideia inconclusa ou do objeto perdido. E a necessidade inicial de descobrir o motivo, causa ou razão, agarra-se firmemente ao cérebro. Havia na cópia uma dedicatória escrita a lápis com letra clara: Para a abelha, da rosa; para a espuma da rocha; para a fênix, da fogueira, Para F de L.

Indubitavelmente era grafia feminina, e o cuidado posto no lápis tênue para que pudesse ser apagado, sem dúvida, era feminino.
Se ele soubesse quem assinou L … Fernando não se lembrava de nenhuma Lúcia ou Laura. Assim que continuou esclarecendo o mistério. Se sua esposa vivesse, ela o ajudaria como sempre fiz. O livro foi escrito em francês e, portanto, do seu tempo de solteiro, quando comprava livros nos bouquinistes nas margens do Sena, principalmente a rive droite, da ponte Marie até o cais do Louvre. Por um tempo ele amou intelectualmente Marguerite Yourcenar: Mémoires d’Hadrien, L’Oeuvre au noir e seus poemas iniciais. Abelhão, rosa, espuma, rocha lembravam-lhe algo, deu voltas e voltas até que os traduziu, pensando numa amiga espanhola de seu tempo como poeta romântico, pintor abstrato, boêmio despreocupado. Frelon, rose écume, Phénix. A estrofa completa viu pronto à mente:

Toi le frelon et moi la rose
Toi l’écume et moi le rocher
Dans l’étrange métamorphose
Toi le phénix et moi le bûcher

Era o primeiro quarteto dum soneto da Yourcenar, intitulado Érotique. Mas aquele poema não estava entre os 21 da edição de La flûte enchantée de 1956. Não, não estava; mas aparecia na edição de Gallimar, impressa por l’Imprimerie Floch em Mayenne, o dia 10 de setembro de 1984, com outras 50 páginas de poemas fora da edição de La Flûte. Ambos livros dignificavam sua biblioteca, de modo que o L que assinava a dedicatória tinha que ser uma mulher muito próxima, talvez da família.
Esforço após esforço, Fernando espremeu a memória, até conseguir algumas gotas de elixir relativas à esposa amante, momento em que ela o considerava uma abelha capaz de libar nela, sendo ela sua flor. Sim, abelha, talvez uma abelha macho, em vez dum abelhão, considerando-o despectivo. Bem, mas L? A letra ele está em Elisa, nome da esposa, mas por dentro. O processo seguiu, e o elixir da memória pressionada levou-o aos primeiros tempos do namoro, quando ela, brincando, se identificou como uma modistazinha chamada Lissette. Seguindo a brincadeira, ele deixou o nome fictício em Lissi. Uma vez casados, as conveniências sociais impuseram o nome autêntico; e a professora universitária era já Elisa de modo permanente. Descoberto o mistério, Fernando se sentiu espuma no penhasco da esposa amada, uma onda de amor que retorna para ela de novo e de novo, memória e vazio.
PSdeJ Paris 1987

Entre minhas convicções e eu, escolho minhas convicções, escreveu Pedro Sevylla certa vez. Especulativo intenso, suas convicções eram firmes e precoces: a pessoa e seu ambiente cambiante, mulheres e varões integrando o homem como espécie, a justiça distributiva, a utópica felicidade como direito individual e coletivo, a liberdade utópica; a Utopia entendida como lugar de destino e terra de conquista, motor de sua caminhada sem fim. Física e Química, velocidade e distância, campos elétricos e magnéticos, luz e sombra, espectros, o Universo formado por conceitos e realidades, Lei da Gravitação Universal, 1900 como fronteira, energia e matéria, massa visível e escura, antimatéria, inúmeras peças essenciais que são movidas por umas e movem outras. Buracos negros, Caos e Ordem em um mesmo plano, o Todo e a Nada formando unidade integradora; a intuição encurta o caminho da dedução, e Pedro sempre desfrutou duma intuição extraordinária. O microcosmo e o macrocosmo, simétricos em relação ao homem: planetas e elétrons. Princípio cosmológico. Mecânica Quântica e Relatividade. O elétron entre partícula e onda. O economicismo semeando desastres, pobreza e infelicidade. Lógica e intuição já não são suficientes, nesta parte infinitesimal do Universo, devemos usar a imaginação, força criativa que inicia, acrescenta e transforma. E nessa área, Pedro, se move com agilidade.

“A experiência e a intuição desembocam no pensamento e na reflexão. Vontade e imaginação confluem na reflexão alcançando a ação. E já está tudo pensado, dito e feito. Só resta observar os resultados e corrigir erros. A vida é muito simples, podemos sempre recomeçar duma maneira diferente “: Pedro me dizia: “Mas, enquanto isso acontece, o tempo passa e as oportunidades se reduzem. Então, nos convém acertar rápido; melhor na primeira tentativa. De qualquer forma, vamos precisar de amigos colaboradores. Devemos, pois, começar por ter bons amigos. E os bons amigos se fazem sendo nos bons amigos “.

Quando crianças, Pedro e eu analisamos o ambiente e o expandimos. Os dois queríamos compartilhar experiências, ideias e opiniões. E quando chegou a hora de dar a conhecer o resultado, cada um o fez de seu jeito. Carecendo de interesse pela glória ou o dinheiro, ele não participa em concursos, embora nos momentos iniciais recebeu prêmios de poesia, relatos ou romances; também não procura a saída do labirinto. Entende que o labirinto não tem saída. Suas dimensões são gigantescas e fora dele não há nada. O labirinto é nossa casa, nosso país, nosso mundo; Somos pequenos labirintos num labirinto que coincide com o Universo. Se estudamos nossas voltas, reviravoltas e subterfúgios, conheceremos nossa parcialidade essencial. Então podemos entender todo o demais: o resto dos animais, vegetais e minerais, é tão necessário quanto nós somos. Conhecido e aceito isso, veremos os outros também como centros do Cosmos. Tudo o que existe compõe o Universo como é. Sem nós, sem cada um de nós, o Universo instável e mutável não será o mesmo. Eu acreditei nisso; eu ainda acredito nisso.

Eu possuo uma cópia da revista manuscrita chamada Cultura Sub, que Pedro lançou nos últimos dias da ditadura, quando trabalhava na sede duma empresa multinacional. Iniciava cada exemplar com capa, textos, desenhos, artigos e ensaios sobre obras de conteúdo social lidas cada anoitecer no Ateneo de Madri. Cópia única que passava para o próximo leitor, quem, depois de ler o já escrito, escrevia e entregava para o seguinte. A revista ia de mão em mão até esgotar o crescente grupo de interessados. Então voltava, na direção oposta, até chegar ao começo. Pedro lia todo quando já havia começado outros números, então sempre havia três ou quatro circulando em uma direção ou em a outra. Vale ressaltar que alguns dos chefes, cientes da agitação editorial, a consentiram apesar do fato de que os escritos, em defesa da democracia, poderiam colocá-los em sérios apuros. No total, foram dezenove números os que circularam, até que Pedro, excelente profissional, muito bem considerado na empresa, como mau menor, foi repreendido por realizar uma enquete sobre a convivência entre os companheiros de trabalho. Este poema é um dos postos na revista Cultura Sub que tenho:

Nasci quando a tirania

Nasci quando a tirania
fazia temerosos os homens de minha terra.
Nasci quando ainda estava fresca
o sangue duma guerra.

Nasci quando calar era importante
para chegar a velho.
Nasci quando o que não era mudo
estava preso.

Nasci quando o racionamento e a fiscalia
apaleavam a minhas gentes.
Nasci quando se ocultavam
multidão de valentes.

Nasci quando o contrabando
levava lentejas, grão de bico
e trigo
a escuras e em silêncio
com carroças que voltavam de vazio.

Nasci quando o moleiro
ficava com o cinquenta por cento
do trigo moído
por moê-lo.

Nasci quando os meus
amassavam, brigavam
e coziam o pãozinho
horas depois
de ter anoitecido.

Nasci quando os de acima
ficavam com o cinquenta por cento
do que a terra e o trabalho produziam.

Nasci entre poucos vencedores
e muitos vencidos.
Nasci perdedor da guerra
sem tê-la vivido.

Nasci, valente de mim
às onze a manhã, em pleno dia,
quando o importante passava de noite
e se sabia.

Nasci quando a tirania
se apoderava do cinquenta por cento
da cada homem que nascia.

Nasci tarado e cheio de defeitos
como muitos dos homens
nascidos em meu tempo.

Nasci e não é possível
regressar ao ventre materno
para voltar a parir-me
sem taras nem defeitos.

Nasci quando a tirania
e já não há remédio.

PSdeJ Madrid, junio de 1975

Naqueles dias, Pedro Sevylla colaborava numa revista sobre comunicação, com artigos que denunciavam a censura e a falta de sindicatos e eleições democráticas. Prevenido contra os políticos constituídos em casta, ele pertencia a uma união clandestina de trabalhadores, e se reunia com outros em escritórios de advogados trabalhistas e na parte traseira de livrarias que tinham livros censurados e proibidos. Durante o tempo da transição, quando o debate da esquerda foi ruptura ou simples abertura, esteve pela ruptura, uma posição que, finalmente, foi derrotada.

Por razões de trabalho, durante a primeira Guerra do Golfo, coincidimos em Genebra. Pedro organizava congressos e convenções, e eu descobria, na população de refugiados árabes e ocidentais, um atraente conglomerado de pessoas. Li alguns relatos dos que ele escreveu sobre esse período mexido. Nos encontramos, novamente, em Lisboa; uma cidade que ele fez sua desde o histórico 25 de abril, e à que se entregou em corpo e mente. Eu era correspondente de revistas turísticas, e viajei por muito diversas cidades capturando sua geografia e sua história com minha câmera, meus desenhos e minhas descrições. Ele já era um excelente poeta, distinto a todos, e começava a escrever romances, diferentes, também, do que era habitual nesse gênero. Quando ele ia para a América já tinha a ideia do Universo em sua cabeça, o infinito e o eterno se complementando. E no imediato, duas línguas fundamentais, uma cultura recebida de Grécia e Roma, levada por Ibéria para a América. Cuba, amada pela maioria dos espanhóis, o cativou nada mais pôr os pés na ilha: o povo cubano, seu modo singular de vida, sua filosofia vital, sua alegria e tristeza misturadas, santeria, dissidência, revolução, passado, presente e futuro. Um possível parente do mesmo sobrenome, proeminente membro do partido, entrou em contato com ele através da internet, para pedir-lhe ajuda na investigação de sua origem espanhola, que ficou emperrada no bispado de Burgos após vários anos de investigação. Pedro fez gestões e encontrou o certificado batismal do parente comum, que os tornava primos quintos.

Pedro escreveu um romance inacabado, “Solo de voz en la Habana”, cuja ação ocorre na Ilha e na Espanha, com personagens pertencentes a um coro de zarzuela composto por exilados políticos de vários países, incluindo as duas mulheres cubanas protagonistas. De elas, ele diz: Chegaram à Espanha poucos meses depois da execução dos militares cubanos que, em Angola, foram acusados de contrabando: açúcar, rum, farinha de trigo e peixe, e até tráfico de marfim e narcóticos. Sentença cumprida na Havana o dia treze de julho de mil novecentos e oitenta e nove, quando os ecos do julgamento ainda persistiam na ilha de Cuba e na península da Flórida. Relata o julgamento e, assim, descreve o momento da execução:

“O dia fatídico amanheceu, quando, cumprindo o mandato emanando das instâncias superiores, parte dos prisioneiros, os condenados a morte, foram despertados de um sonho com toda probabilidade irreconciliável. Os quatro malfeitores, que imagino encarando suas obras; ao amanhecer, um momento temido e desejado em partes iguais, arrependidos das ações execráveis, mas certos de querer repetir as outras, as alinhadas com o bem comum; os quatro homens, na hora ditada pelos juízes, seguindo uma ordem que a graduação perdida ainda marcava, foram redimidos duma vigília lacerante, dum pensamento que girava sobre si mesmo sem avançar um só milímetro. O breve cortejo formado por soldados que marchavam em passo ordinário, sacou os quatro das suas reflexões. Calças folgadas e camisas apertadas usavam os condenados, e sapatas de algodão com solas de esparto; nenhum sinal revelou o papel preeminente desempenhado por eles na revolução. Se ouviam suspendidas as pisadas dos custódios, cujo eco vizinho cobria, até escurecer, o insistente roçar das alpargatas dos custodiados nas lajotas”.

“Monotonia invariável que se estendia além do tempo real, atingindo o ponto exato em que os passos param na borda do abismo, e ali permanecem flutuando em forma de eternidade congelada, foto fixa de significante e significado. Eles invadiram o pátio avançando com uma pressa inexplicável, pois se tratava dum passeio sem continuidade possível, excluído da rotina. Conseguiram ver o céu sobre as paredes, sobre os telhados, e alguma ilusão indeterminada transmitiria o azul, alguma confiança extrema; mentidas, é claro, porque uns minutos depois, os quatro homens –o Ex-general Jorge Martínez primeiro- deixaram de existir; sem que o olhar duro dos justiçados, afeando a ação homicida dos verdugos, pudera impedi-lo “.

Para explicar bem o que Pedro Sevylla recebeu e entregou após seu encontro com o Brasil, coloco suas palavras aqui:
“O Brasil foi uma explosão de vida para mim. Continente e conteúdo, eu encontrei lá tudo que a vida traz à vida, o vigor da natureza vigorosa, a diversidade mais ampla e profunda, e a mistura eficaz e progressiva. No Brasil, a palavra Natureza adquire seu magnífico significado existencial. É por isso que sofro tanto a ação dos terríveis predadores, empresas e indivíduos que, em seu desejo mórbido pela possessão, destroem recursos e, neles, a vida como a desejamos, harmoniosa e entrelaçada. Visitei Brasil realizando um sonho, Recife, Salvador da Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas e, finalmente, Espírito Santo. A Ilha de Vitória fez-se minha área de evolução nos últimos quatro anos, meu espaço de busca e descobertas. Cheguei com a minha escrita sobre o ombro, pela porta do hispanismo”.

“Eu queria conhecer as diferentes formas da língua portuguesa, as pessoas e seus costumes, a consequente literatura; e fui o mais longe que pude nas causas e consequências. O fruto da minha descoberta não foi limitado, sendo copioso nessa área, ao literário e intelectual. A partir do movimento modernista, eu vi como num relance de olhos, sua geografia e sua história. Foi como ver a cratera dum vulcão em erupção. Um vulcão, porque eu ignoro a que outro fenômeno pode ser igualado o fato de ter passado, exemplo simples, dos 50 milhões de habitantes de 1950 a 200 milhões hoje. Eu imagino o ebulição social que significa e isso me produz vertigem. Esta é a única maneira de entender a rápida evolução da língua portuguesa nesta terra viva, ativa e mutável. Onde a palavra escrita não pode alcançar a palavra falada “.

Pedro aprendeu português por si mesmo, e pronto traduzo poemas e relatos, de criadores clássicos e atuais, dum idioma para outro, português e espanhol, castelhano e português. Os poemas que aparecem neste livro, traduzidos por ele ou escritos ao mesmo tempo em ambas as línguas, apareceram em espanhol formando outro livro. Em Vitória e em todo o Estado, ele estabeleceu sua residência emocional por cima das distâncias. Pronunciou palestras na Universidade Federal, UFES. E quando ele se achou digno do título de Acadêmico Correspondente, teve a honra de aceitá-lo da Academia de Letras do Estado de Espírito Santo, incluindo-o desde então, com grande respeito, no início da sua biografia.

 

 

 

Era outubro de 2016, quando ele abriu um blog literário em espanhol e português, no início do qual pode se ler: “A sombra do homem gira em torno dele durante todo o dia; parte de seus pés e alonga e encolhe com o passo das horas. A sombra do homem percorre os mesmos caminhos que o homem, vadeia os mesmos rios, vê as mesmas paisagens e também vê o homem que não se vê a si mesmo. Então o homem acaba considerando a sombra sua aliada. Mas a sombra do homem nada mais é a escuridão que o homem iluminado projeta, e quando a escuridão envolve o homem e o obscurece, a sombra abandona o homem e o deixa só com seus medos. A solidão é uma das razões mais dinâmicas da escrita, o foi em todas as culturas, em todos os momentos. Talvez seja a solidão o motivo determinante para abrir este blog. Eu preciso da companhia dos iguais, é verdade; embora mais ainda a proximidade dos diferentes “. Quase todo o seu trabalho aparece no blogue, e os autores mais representativos da cultura nos dois idiomas. As análises próprias e alheias, e as traduções, facilitam o conhecimento aos leitores das duas línguas.

As análises próprias e alheias, e as traduções, facilitam o conhecimento aos leitores das duas línguas. Solidão, beleza e poesia, formam uma linha progressiva tal como nos deixou escrito Pedro Sevylla:
Se investigo as causas que me afastam da solidão, me impelindo à ação, a beleza, entendida como equilíbrio e harmonia, ocupa um lugar primordial. Eu vou para ela uma e outra vez carregando minha bagagem, reincidente de buscas pensadas ou impensadas. Já nela, fico como em casa própria, abrigo quente ou frio de acordo com desejos e necessidades. Depois, quase não resta exploração, a beleza enche toda a juta dos sacos vazios, toda a lona dos costais, as cestas até as asas, canastros, bolsas e bolsinhos. Há tanta…
Onde dirijas a mirada está: montanhas soberbas, vales pronunciados, planícies extensas, flora e fauna de variedade prolífica, desertos formados por suaves colinas ricas em tons de uma única cor ou profundezas líquidas adornadas de peixes e recifes coralinos; vastas noturnas luminárias separadas umas de outras por miríadas de quilômetros vazios, e repletos larvários de minúsculos vírus invisíveis. A vejo se espreguiçar no orvalho das madrugadas ou fechar as pálpebras após os esplêndidos crepúsculos. Como se não bastasse, a mão do homem e sua engenhosidade constroem, peça por peça, todo um labirinto de formosura.
Abunda tanto a beleza!, escavas e aflora. Descobre-se tenra, voluptuosa, rapariga que se torna mulher e caminha sem pausa, conquistando estâncias, a casa em suas dimensões verdadeiras, do propileu aberto a brisas cálidas, até o elevado pombal dos arrulho afetivos; ruas, caminhos, estradas, descobrindo o mundo, impregnando-o com seu hálito sutil, perecedouro, renovado”.

“Poesia é beleza e equilíbrio, é síntese e é ritmo. Poesia é pesquisa. Poesia é progresso. É doação é ar, é aço, é espuma, é raiz, é vertigem”, escreveu, com mais vontade de expandir que de explicar. As primeiras influências, nascidas de suas primeiras leituras; o que o levou a escrever e progredir na escrita, é parcialmente esclarecido com as dúvidas refletidas nestas linhas:
“Eu não sei se quem me fiz o presente foi Bécquer, aquele Gustavo Adolfo doente no mosteiro cisterciense de Veruela, onde eu caminhei peregrino muito antes que a Collioure, prévio a Soria meu passo, em busca de Machado e seu amor transformado em noiva, em esposa, em filha, em companheira; entregado do todo ao fruto atraente de Leonor, horto ela e hortelão a um tempo, terra, água e canal de irrigação. Ou eram Lorca, Darío, Vallejo e Neruda, tão diferentes e tão meus; ou Juan Ramón, talvez, entrincheirado na pureza, retirando as pétalas alvas da margarita, despojando-a de tules, de adornos que mascaram a essência; ou o pastor Miguel e a vida que afogou seu coração ao respirar a terra úmida e germinada. Rociavam esplendor os meus olhos sobre a alvorada, luz e calor em efêmera convivência com o orvalho no momento de começar a cavalgada, posto um pé no estribo. Acaso o mérito seja de Góngora, portador da beleza em fardos no ombro, na vereda eu do poético embelezo”.

E acrescenta mais dúvidas, para nos dizer que a poesia é alheia aos poetas, seus descobridores: “Pode ser, ignoro esse ponto particular, que recebera a poesia refletida de maneira indireta, filtrada ou enriquecida, me mostrando ela as nuances adicionadas por alguns daqueles que chamam, e não sei a ração, poetas menores -Gabriel y Galán, Grilo, Campoamor, Villaespesa, considerados sem motivo, estou convencido, de segunda linha- trovadores que, por sua vez, a teriam encontrado nos excelsos. Luna eu que recebera da Terra a luz estelar, e logo, conhecida a fonte, fora ao sol para bebê-la; porque as estrelas, senhoras de seus planetas, possuem o esplendor noturno, o verdadeiro brilho esmaltado: uma luz pura, delas por inteiro; e disfrutam difundindo-a, a irradiando até os limites, derretendo a escuridão ao penetrá-la. Os estranhos me saíram à vereda no meu trânsito, Tagore, Elitis, Maiakovski, Byron, Yeats, Whitman, TS Eliot, Blake, Martinson, Ekelöff ou Lundkvist, acompanhados por Apollinaire, Rimbaud, Pessoa, Régio, Baudelaire, Gothe, Kazakova, Leopardi, Bandeira, Drummond e tantos outros. Todos contribuíram, sem dúvida, para a coroação; mas a poesia já estava na beleza que ia descobrindo a direita e esquerda, a nível do solo ou no topo “.

Sobre o processo que foi seguindo, estão os seus poemários sucessivos e o que ele nos revela:
“O tempo e minha poesia não sempre avançaram juntos. Talvez porque, com demasiada frequência, eu pus minha intenção no espaço. A mitologia grega me mostrou deusas nas moças que eu conhecia diariamente. Menino imaginativo, jovem imaginativo, adulto imaginativo; o imaginado, mais intenso, substituiu na memória a realidade vivida. Os labores do campo, e o ciclo anual das colheitas, me fizeram trabalhador para o futuro, permitindo-me indultar o granizo quando degranava as espigas. O rio Carrión, Nubis dos romanos, me desvelou muitos dos mistérios que os estudos de geografia não tinham resolvido: os meandros seguidos eram causa e consequência; as cheias acolhiam as exceções ampliando a regra. Cruzar o rio Velho, amplo espaço pantanoso e intransitável, destinado a receber o excedente das inundações; união de Valdepero com Husillos, foi o maior desafio da minha infância. Quando eu tinha doze anos de idade, as cobras escondidas entre os juncos encharcados, se afastaram ao passo acelerado das minhas fortes botas de couro. O meu tempo como coroinha não trouxe luz ao milagre da transubstanciação, produzido ante mim duas vezes os domingos; nem as mais de duas mil missas que devi presenciar no internato. Corpo e mente cresciam a par. Razão e emoção caminhavam juntas “.

Eu gostaria de analisar a sua prosa: relatos e romances, para completar meu testemunho. Eu o sei, este é um livro de poesia. Não obstante, quero me referir ao seu ensaio Ad Memoriam, publicado em 2007. Nesse livro, também biografia e romance, eu sou o que Pedro pensava e dizia sobre mim. Há um gesto, uma frase, um pensamento dele, que não esqueci. Eu quero deixar constância das palavras que nos definem. Numa conversa emocional, me empequeneci para o engrandecer. E foi isso o que, com seu fino senso de humor, ele me disse: Cesáreo, você tem sido muito generoso comigo. Me entendes melhor que ninguém; e recorda que se alguém nos compreende, cabemos nele porque ele é maior do que nós.

Traduzido pelo próprio autor, IMAGO UNIVERSI MEI, o livro que este testemunho encabeça, recolhe em seus diferentes poemários, o percurso humano e intelectual de Pedro Sevylla de Juana; as perguntas que se fez, e as respostas que alcançou.

Atravesso o nevoeiro enchido de mistérios;
como dardos noturnos são meus olhos,
e vão burlando cercos.

É seu testamento, e nele entrega todos os valores literários à geração de seus netos: abordagens iniciais, pensamento, ideias e ação. Ouvi dizer Neruda em conversa com García Márquez, que sempre quis evoluir sua poesia para a narrativa, e nunca o conseguiu. Há, na poesia de Sevylla de Juana e, portanto, neste livro antológico, uma mostra excelente e completa de poesia narrativa. Reúne a experiência adquirida no uso da lógica e da emoção, ambas corrigindo-se mutuamente; da palavra e da ação, ambas se emendando; conclusão provisória narrada poeticamente. Às vezes é suave e terna a sua lírica, embora, com frequência, adquire tons trágicos. Pessoa de seu tempo, um tempo caracterizado pela desigualdade social insustentável, ele quer que seu trabalho seja, além da discrepância e da raiva, denúncia e estímulo.

Visitando as aldeias brancas do branco Sul, Santo Agostinho tenta entender porque a planta da democracia em nossas terras não enraíza. E isso acontece apesar do enorme esforço feito pelas pessoas para destinar o melhor terreno a cultivá-la.
No mero centro das aldeias brancas, encontra um extenso município formado por casas de cimento e tijolo, que os habitantes querem cobrir de um branco imaculado.
O Santo fica surpreendido porque, em vez de cal, os moradores usam pintura preta para pintar suas casas de branco.
Assim não o vão conseguir: Santo Agostinho diz. Eles explicam que o sacerdote, o chefe do quartel, o diretor da sucursal do banco e o prefeito, garantem que quando acabem de pintar com pintura do Consórcio todas as casas de negro, de um preto puro livre de nuances, toda a vila vai se transformar numa vila uniformemente branca, sem tons diferentes. Passando a ser a única vila realmente branca das povoações brancas.
Reflexiona sobre tal reposta Santo Agostinho, e entende porque a democracia não cria raízes entre nós.

p style=”text-align: justify;”>Eu quero terminar este Testemunho com uns versos, para mim menos enigmáticos do que parecem, dos que sua mente de autor não lembra o como, o quando ou a causa. Encontrei-os entre seus manuscritos, num papel quadriculado com anotações relativas à aula de filosofia, dezesseis anos ele. O Amor e seu esquecimento impossível, a poesia e sua ânsia de recriar e iluminar a realidade, fundo e forma se complementando, raiz, caule, ramos, flores e frutos. A primavera é na obra de Pedro, recurso metafórico de uso constante: esperança acima de tudo; mas, também, decepção; porque se adianta ou se atrasa, defraudando as expectativas colocadas nela, candor e ousadia.

Foi primavera de flores
e de apaixonados versos
crescida no meio de todo
o que desenha seu corpo
mulher aberta a sorrisos
crescidos ao anjo sério
de formas ainda imprecisas
e pensados pensamentos
ramos de tronco muito vivo
que se vão subdividindo
até chegar a Infinito
inexistente e perpétuo
daquele dia azul celeste
que tão esquecido tenho.

 

 

Biografia:

Académico Correspondente da Academia de Letras do Estado de Espírito Santo no Brasil, Pedro Sevylla de Juana nasceu em plena agricultura, lá onde se juntam La Tierra de Campos e El Cerrato, Valdepero, província de Palencia, em Espanha; e a economia dos recursos à espera de tempos piores ajustou o seu comportamento. Com a intenção de entender os mistérios da existência, aprendeu a ler aos três anos. Aos nove iniciou seus estudos no internado do Colégio La Salle de Palencia; seguindo os superiores em Madri. Para explicar as suas razões, aos doze se iniciou na escrita. Cumpriu já os setenta e dois, e transita a etapa de maior liberdade e ousadia; obrigam-lhe muito poucas responsabilidades e sujeita temores e esperanças. Viveu em Palencia, Valladolid, Barcelona e Madrid; passando temporadas em Cornwall, Genebra, Estoril, Tânger, Amsterdã, La Habana, Villeneuve sur Lot e Vitória ES Brasil. Publicitário, conferencista, tradutor, articulista, poeta, ensaísta, editor, pesquisador, crítico e narrador; publicou vinte e cinco livros e colabora com diversas revistas da Europa e América, tanto em língua espanhola como portuguesa. Trabalhos seus integram sete antologias internacionais. Reside em El Escorial, dedicado por inteiro às suas paixões mais arraigadas: viver, ler e escrever.
blog: pedrosevylla.com

 

Obra

Narrativa
Los increíbles sucesos ocurridos en el Principado (1982).
Pedro Demonio y otros relatos (1990).
En defensa de Paulino (1999).
El dulce calvario de la señorita Salus (2001)
En torno a Valdepero (2003).
La musa de Picasso (2007).
Del elevado vuelo del halcón (2008)
La pasión de la señorita Salus (2010)
Pasión y muerte de la señorita Salus (2012)
Las mujeres del sacerdote (2012)
Estela y Lázaro vertiginosamente (2014)

Poesia
El hombre en el camino (1978).
Relatos de Piel y de palabra (1979).
Poemas de ida y vuelta (1981).
Mil versos de amor a Aipa (1982).
Somera investigación sobre una enfermedad muy extendida (1988).
El hombre fue primero la soledad vino después (1989).
Madrid, 1985 (1989).
Aiñara (1993).
La deriva del hombre (2006).
Trayectoria y elipse (2011)
Elipse de los Tiempos (2012)
BRASIL, Sístoles y diástoles (2016) bilingue
IMAGO UNIVERSI MEI (2018)

Ensaio
Ad memoriam (2007).
Introducción de los autores tratados en el blog

Traduções ao português
Poemas e relatos proprios escritos em castelhano
“Coplas a la muerte de su padre” de Jorge Manrique,
Diversidade de poemas e relatos, das literaturas en castelhano e português, vertidos à outra língua.

Edições coletivas
Premios de narraciones “Miguel Cabrera” (1997).
Premios “Relatos de la Mar” (1999).
Premios “Paradores” de Relatos (2002).
Antología de cuento breve. Salón del Libro Hispanoamericano. México (2009).
II Día internacional de la poesía en Segovia (2011)
Antología de Relatos Hispanoamericanos Latin Heritage Foundation (2011)
Palencia. Palabra y Luz (2013)
DiVersos, Poesia e Tradução (2018) Portugal

 

 

 Cesáreo Gutiérrez Cortés nos seus tempos de Publicitário

 

 

IMAGO UNIVERSI MEI

Poemarios:

A.-Origens
B.-Homem um e multíplice
C.-Causas e Consequências
D.-Aldeia itinerante
E.-Amor, pilar do Universo
F.-Descobrimento
G.-Divergências
H-Universalismo
I.-Conclusão

 

 

 

A.-Origens
1–Espaço e tempo, matéria e energia
2—Mar de pedra
3—O homem essencial
4—Sujeito evolutivo
5—Experiência Vital
6—Sou quem posso ser
7—A palavra es arado, bigorna e alavanca
8—Alforje de Convencimentos
9—O primeiro princípio
10-Valdepero e exílio

1.. Espaço e tempo, matéria e energia

Em seu próprio final inalcançável
se enraíza o impossível princípio do tempo
e as bordas do espaço se afastam à velocidade da luz
seguindo os trinta e dois rumos da rosa dos ventos.

A eternidade é o tempo que demora a luz em percorrer
o espaço infinito,
a infinidade é o extremo espaço que a luz atinge
em seu eterno percurso intensivo;
se explicam juntas ambas, a uma sem a outra não são nada.

Tempo e espaço protegiam,
justificando sua própria existência,
à instável energia.
A energia foi transformando-se em matéria:
miríadas de mundos em pós da harmonia
e a matéria adquiriu sua forma tão diversa.

Em sua cópula engendraram, matéria e energia,
sístoles e diástoles,
o primeiro hálito de vida.

Telúrico ventre domicilio de embriões,
útero terreno, origem da origem primeira.
Cruzando os umbrais mais profundos,
se unificam planetas e elétrons,
porque todo se concretiza num
o de acima e o de abaixo,
o enorme e o minúsculo.

O dia e a noite, as frias neves e o carvão ardente,
o bem e o mau estavam nos inícios muito unidos;
o supérfluo e o essencial,
o sólido e o líquido.

Vermelho e negro eram uma cor sozinha,
esquerda e direita um mesmo lado,
costas com costas conviviam
iguais e contrários.

Planícies, montanhas, desfiladeiros
rios, lagos, mares, páramos e veigas
vendavais, sismos, vulcões:
animais e plantas povoaram a água e a terra

Nos códigos genéticos dos peixes e os sáurios,
lutavam pela posterior evolução símios e humanos.
Catedrais góticas e comoventes postas de sol,
buliam entre animosos sentimentos solidários,
e disparos dirigidos à multidão alborotada
por milhares de tiranos.

A tensão crescia como em cana arqueada,
como em desequilíbrio ativo,
as identidades da cada animal, da cada planta,
da cada pensamento ou ação
se perfilavam.

A explosão liberadora foi a consequência surpreendente
e a cada elemento encontrou sua relativa posição:
o caçador e a lebre,
o adjetivo e o nome,
alvorada e poente.

Rescaldo de vulcões, cinza e pardo amanhecia,
duras as formas,
desabridas.
Deu começo a ordem das coisas,
governado por preceitos rígidos,
quando as pesadas rochas
conseguiram diferenciar-se do limo.

Terra e céu se separam,
noite e dia,
rocha e água;
empurra a planície à planície,
alçando-se elevadas as montanhas;
surgem páramos e montes numa dessas telúricas disputas
e os deuses põem em Valdepero sua mirada.

Casca e medula calcárias,
assinaladas como ponto de arranque do Universo
por investigações cansativas;
no morno e assentado Valdepero
teve começo a marcha inexorável dos dias.

Sossegada, seletiva, imparável a vida se potência,
sociedade de elementos,
zelosos de sua essência.
Tierra de Campos, Cerrato; vales, páramo, planura;
e Valdepero,
pedra angular, síntese, coluna.

Em lugar tão cheio de verdades,
límpida mirada, tenho nascido;
colheita perdida entre os dedos,
esgotados mananciais, equilíbrio.

As últimas enzinas do monte confinam o espaço,
ao redor não há nada: um buraco informe e vazio,
uma leviana noite de solidão, o profundo abismo.

Um solo sem piedade,
um céu azul cruzado de pardais,
um século
e outro iguais,
o firmamento apoiado no páramo e o monte
e sobre ele a eternidade dos dias
cercados pelas noites.

PSdeJ Valdepero 1963

2.. Meu mar de pedra

Escolho rodeado de fangas de vida,
atol cingido por movediços braços
que mexem a imagem cristalina
dos hipocampos machos
incubando ovos de mil fêmeas tímidas;
na planície densa, na meseta dura
nas ladeiras que circundam esta terra minha
encontrou o mar sua sepultura.

Neste páramo de firmes fundamentos
-estaleiro de varados navios
canteira aberta de românicos templos
castelos góticos
palácios solarengos
campo de calhaus embranquecidos
teve marulhos elevados lá no pleistoceno.
Nesta pedra alta,
nesta altura pétrea
se enterrou um mar carregado de substância,
oceano de vida alongada em trinta séculos e mais de mil proezas.

Baixéis e goletas,
houve galernas e naufrágios,
percebo ainda as quilhas afundadas na nevoa
sombra preta de azinhais coalhados
monte baixo de lebres e cobras.

Caminho eu às apalpadelas entre as turvas ondas
espumas que engessam a terra de labor
e agitam indómitas pombas.

Minha boca faminta de esturjões e pescadas
dá salobres mordidas de papoilas,
dentes que põem a intenção na captura
e escondidos no beijo te devoram;
mar interno, mar de altura
amante imensidade inquieta e mórbida.

Trigais granados te agitam de vaivéns
corpo de mulher, tíbia humidade,
vegetação ativa
ondas, marés e correntes
tantas e tantas vezes repetidas.

As estrelas de mar são ondeantes
estrelas vespertinas
e as redes de anchovas se inflamam,
douradas espigas
ortigas, tomilho, sarda
nenúfares flutuantes e sereias dormidas.

É minha terra!, exclama a garganta muda
e aqui, precisamente nestas rochas,
em meu deserto de espinhas maduras,
durante três milénios não esquecidos por minha longa memória
houve banhos tíbios e donzelas nuas.

Minhas líquidas origens, minha casta de marinho
descubro na tigela inundada das mãos
caldo de cultivo em minerais rico
torrão compacto ou disgregado
gozoso de flanges e de cílios.

Oh! meu oceano de pedra agraz
quanta brisa faz falta para segar-te
e quanto anseio de eternidade
para arar teus fundos abissais.
Oh! meu mar de terra
quanto arado te rasga,
e que pouco penetra.

PSdeJ Valdepero 1962

3.. O homem essencial

Nos remotos tempos, o Deus das Colheitas,
quando ainda não existia a espécie humana,
de cada região desabitada da Terra
recolheu o grão cereal que cultivava.

Somou arroz, trigo e aveia,
milho e sorgo uniu ao centeio,
sementes de todas procedências,
levou ao moinho mais dum cento;
farinha tamisada em uniforme mescla,
amassada e submetida a fogo lento,
até torrar bem a camada externa.

Do resultante pão recém-cozido,
um pedaço retornou a cada comarca,
do qual provém o homem primitivo:
igual composição, distinta estampa.

Seja face o homem ou seja costas,
rígida crosta ou suave miga,
a cor é o único que troca,
a substância humana não varia.

PSdeJ El Escorial 2008

4.. Sujeito evolutivo

Ardoroso fluído da noite,
impetuosa e desbordada sementeira,
sêmen lançado à conquista
do óvulo fechado que se entrega
ao flagelo portador de chaves
capacitadas para abrir sua porta;
a existência em si mesma é um milagre
de aleatórias coincidências.

Se a seleção resulta favorável,
nasce o homem nesse parto,
resistindo o fraternal embate
dos membros do clã que têm herdado
o fígado, o olfato e o pelagem
de um bilião de antepassados.

Conquista um mamilo na camada,
dos que manam leite e mel,
resina e seiva;
e suga até nos sonhos
perfilando dentadas.

Um cálido lugar abaixo da pata
ocupa se empurra com afinco,
pois a neutralidade materna, tão provada,
não vê divergência entre os filhos,
à prole inteira cuida e ama
e deixa a tarefa de eleger sobreviventes,
à Natureza que protege a quem se adapta,
de inteligência sobrado ou bem valente.

Obedecendo um ancestral impulso
abandona cedo o morno berço,
para iniciar a dispersão pelo mundo.
Pesquisa e acaba descobrindo,
explora e a continuação conquista,
adora e levanta firmes templos,
avança e o tomado fortifica.
Põe os factos ao serviço da ideia,
encaminha o fogo e a si mesmo se domina,
equilibrando o coração com a cabeça.

Escuta o homem os gemidos
que arranca o vento nos desfiladeiros,
as alongadas vibrações das canas junto ao rio,
os trovões produzidos golpeando um tronco oco;
e como se trata de um gostoso exercício,
depois de laboriosos ensaios e alguma que outra emenda,
transforma em música os singelos
sons da Natureza.

Nos frios invernos imagina
dragões, grifos e quimeras;
inicia-se na pintura, trabalha a argila
e observa as estrelas;
descobre no respeitoso diálogo
um pilar de convivência,
levanta cabanas e povoados
aperfeiçoando as toscas ferramentas.

Habita o homem um espaço sem depredadores,
mistura outros sangues com seu sangue,
adopta uma escala de valores bem provada
e após passar cem anos superando adversidades,
translada o aprendido à camada.

PSdeJ Évora 2010

5.. Experiência vital

Nasci da terra, da água, do vento,
do ardente sol de meio-dia;
nasci da vontade, da esperança,
do perseverante amor à vida.

Num afã talvez exagerado
de compreender os segredos do mundo
adiantei um mês o meu nascimento.
Cheguei um pouco cru, falto de cocção, imaturo.
Não soube esperar o tempo necessário
que o exercício tem ido estabelecendo nos processos
e não o remediaram os fracassos.

Observando o semblante dos charcos,
mirada posta nos cristais,
aprendo meu aspecto de animal humano,
complexo labirinto de cinzas e rochas,
desde a pedra gastada que faz o peito,
até o cartão dissimulado das costas.

Tão afastado das fórmulas didáticas,
tão rígido chega a ser meu adestramento,
colégio La Salle, Irmãos das Escolas Cristãs,
que afoga em meu peito o sentir sincero,
apaga o candor da mirada,
salga a ribeira fértil onde arraiga o intelecto
e extirpa o afeto incorporado nas palavras.

Afirmam os pedreiros as calçadas:
vara longa do martelo
lançando esquírolas;
humanos golpeados devolvendo
os golpes recebidos da vida.

Couraçada de ilusão,
pletórica de medos,
a experiência dos meus resuma realismo,
e sabem que só com esforço
se transforma o destino.

Os acontecimentos mais notórios, que subtis!
-nevoeiro, etéreo tule- que breves!, que incertos!;
não conheço ainda os detalhes
e já o miolo esqueço.

Tanta sede afoga meus cultivos
que nomeio com nomes de água as penhas
as terras rachadas pelo estio
as raízes ressecas.

Bigorna e martelo
ferro submetido ao vivo fogo
se esforça na frágua o ferreiro.

A luminosidade imaculada do ambiente,
me permite visões ignoradas,
e lonjuras diviso surpreendentes.
Avança em caravana o existente,
procurando a igualdade com a rasoura
que todo o torna diferente.

Emoção e lógica caminham juntas
-humanas complementares faculdades-
mão na mão por vales e planícies,
e meu interior resulta invulnerável.
Às vezes o pensamento parece tomar a dianteira,
até que o sentimento avança decidido
atingindo uma vantagem manifesta.

Observo rendido a agonia
da cultura rural equilibrada,
arraigadas costumes campesinas,
vencidas pela atividade industrial e cidadã,
mais forte, mais eficaz, menos ingrata;
e guardo as imagens postremas,
funda raiz,
nostalgia tépida.

O milagre tantas vezes repetido da existência,
o repousado surgir da água nos mananciais claros,
solidões, as rimas e as lendas,
o pai Douro, o romanceiro cigano,
e as cárdeas azinheiras
na trova gozosa e dolorida me iniciaram.

Sem abandonar minhas tarefas me converti em poeta,
e musa ditava loas doces, amargas elegias;
versos formados por pétalas de rosa e humanas caveiras,
princípios dispares que enquadram biografias.

Poemas e relatos compõem meu propósito;
palavras trabalhadas com a obstinada insistência
de quem ara e repovoa um velho souto,
pensando nas gerações vindouras
mais que no benefício próprio.

PSdeJ Valladolid 1967

6.. Sou quem posso ser

Um desejo
me ocupa incontido de ferramentas usadas:
pá e bico,
azadas;
um ânsia me invade de espessos cevadais,
de segas maduradas;
uma avidez de apeiros de lavoura,
arreios de couro trabalhado,
colheiras, colherões, cabeçadas.

Sulcos quero e abro sulcos.
Sou a temperada ponta, sou a relha
sou a vertedeira, sou o arado,
sou a terra húmida e aberta,
o pungente cardo
e a má erva.

Sou a ubérrima semente
que no barbecho germina,
sou a folha verde,
sou o talho erguido, sou a grávida espiga,
sou o grão desgranado
no círculo da trilha;
sou o Aquilão enfurecido que separa a palha do grão,
sou trigo moído, sou branca farinha.

Sou a massa inerte, sou a levedura
sou o fogo, sou a lenha acendida,
sou o pão do sacrifício,
sacerdote, altar e vítima.

Tomo a cor do dia que me cerca,
e sou azul, avermelhado, cinza ou cárdeo,
como a tornadiça face da Natureza.

Para além da sede e do cansaço,
do íman e o esmeril;
do machado, a azada, a alavanca e a roda;
acima de qualquer afã impenetrável
desde o ponto de vista do poeta,
sou a terra,
o lavrador e a colheita.

PSdeJ Palencia 1966

7.. A palavra é arado, bigorna e alavanca

É lazulita oculta nas entranhas da terra
serpente abraçada ao cipreste
porco-espinho, esplêndida azaléa
areia integrada no alicerce.

Efémera flor, água no poço,
avara e generosa criatura,
exercício mental, caráter sólido,
que liberta a energia das dúvidas
modeladora do cosmos

Camponês nómada da papa e a mandioca,
da vaca, o porco e o cordeiro;
cidadão de centros industriais,
nascido mesclando tradições,
mestiço de permanente mestiçagem,
da concórdia hóspede,
da liberdade amante.
Arado, bigorna e alavanca
de lábios da mãe
recebeu a palavra.

Mensageiro fiel ao recado recebido,
a palavra cumpre a encomenda de nomear quanto existe;
talvez de inventá-lo ou recreá-lo,
palpável e etéreo,
real ou imaginário,
num presente sem limites
que abarca o futuro e o passado.

Páramos do sedento Valdepero
em primavera só florescem as palavras:
vozes de seco,
muita profundidade e pouca altura
graves,
agudas.

O vento impregna de pólen as palavras;
e os signos, inertes,
com ajuda da voz surgida na garganta,
se ativam,
voltam-se alcantilado abrupto ante o mar
orla cercada de moribundas ondas
peixe que perfura as águas atraído pelo anzol sem cevo
mano de amante peinando imensidões mórbidas
despindo finíssimos cabelos.

Alavanca que move multidões na ação desaforada,
arenga arrojada sobre anónimas condutas,
reivindico a palavra dos múltiplos idiomas,
com atos a defendo de falsidades e calunias.

Dúctil e maleável a palavra é inocente,
é pura;
modificam seu sentido alumiados caudilhos,
fanáticos sacerdotes,
defensores de pátrias entrincheiradas
e intransigentes deuses.

As palavras identificam o incógnito
o fixam ao espaço e ao tempo
e se convertem em beberagem exaltante de ânimos
em bálsamo que apazigua as violentas sacudidas
do sismo interior dos humanos.

A palavra dita é um são efémero
a palavra escrita é um leve traço;
sem embargo, pela palavra se mata
pela palavra se morre, sem embargo.

PSdeJ Tierra de Campos 1973

8.. Alforje de Convencimentos

É cedo até que é tarde:
existe um ponto idôneo de limite incerto,
para levar a termo feliz afazeres variados;
tão fugaz e transitório,
que quando chega a ser
começa outro novo.

Tudo busca a ordem, tudo pretende o caos;
e o leve peso de um grão de trigo,
leva a indecisa balança
ao súbito desequilíbrio.

Descubro no mundo uma despensa,
cheia de vegetais vivos
tímidas gazelas,
colibris e crocodilos espreitando
a sobrevivência;
uma corrente que vai da serpente à ave
e do pungente espinho às baleias.

A rocha lavrada, a estrela de mar,
o marfim do elefante
e o sangue do irredento;
levam impresso um código de barras
que explica composição e preço.

Ao ar,
ao ar que vibra nos ouvidos
quero gritar o manifesto
de meu sentir mais arraigado,
porque dentro de mim ferve o homem comovido
e se agita o afetivo ser humano.

Me fere a crescente escassez
dos necessitados,
os progressivos
excedentes
dos ricos,
e tremo como ninho de gusanos,
como epicentro sísmico,
como revolto povoado.

Como da mortífera peste
do esbanjamento fujo
do desperdício inerte.

Ideias convertidas em feitos,
resido mais em mim,
equilíbrio manifesto,
quantas menos necessidades
admito e alimento.

PSdeJ Todos os tempos e lugares.

9.. O Primeiro Principio

Assim que a indómita Natureza
facilitou ao homem abatido e exausto
um momento de trégua,
as inteligências reflexivas dedicaram
seu denodado esforço
a escrutar enigmas de enganosa aparência:
o sopro vital de corpo e pensamento,
os pontos de saída e confluência
e o sentido último do Universo.

Desse processo intelectual surgiu um Ser único e primeiro,
arranque e fim de tudo o existente e existido
por desejá-lo eterno;
e por considerá-lo infinito:
um Ser enorme que contém em seu seio o Firmamento

Identificou o homem o Ser com o bem soberano,
tão generoso que permite a existência do mau,
tão forte que o vence a diário.

Em lugares elevados ou em cruzamentos de caminhos,
erigiu altares bem dispostos
para lhe oferecer dons e sacrifícios

Fundou ordens de ungidos sacerdotes,
de sacerdotisas intactas e obedientes;
encarregados de pronunciar -os menos zotes-
a última palavra sobre o bom, o mau e o indiferente;
e de arrecadar -os mais fornidos- primícias, dízimos e dotes
com os que levar o credo a todas as gentes.

O homem comprovou com satisfação velada
que a existência do Ser dava resposta a qualquer pergunta,
esclarecendo qualquer empenho humano:
a organização social, a administração de justiça,
a liberdade sonhada
e a igualdade na linha de partida.

O homem se dedica desde então por inteiro,
a pôr em marcha a bucólica sociedade globalizada,
a da tribo única e o regrado pensamento,
uma massa normalizada e invariável
de ativos consumidores e votantes satisfeitos.

PSdeJ Lisboa 1970

10.. Valdepero e exílio

À memoria de Muqui
meu ponto de ancoragem emocional no Brasil

Escalador na pendente da idade,
Iluminado pelo fogo mortiço do lume
subo ainda,
sem saber quando farei cume.

Fico a expensas dos aliados fiéis
que me impulsionam na conquista dos dias:
o desejo de viver, o optimismo,
o exercício metódico e diário,
e duas milagrosas medicinas:
confiança no futuro e amor apaixonado.

Brisa fresca, vento forte em ocasiões,
chegam os netos procurando minha mão
para me levar a seus novos lugares velhos,
mudar-me a forma de olhar a vida
e, algumas vezes,
até a forma de vê-la,
me ilusionando.

Sentados em roda conto-lhes Valdepero
e escuto o que digo
como se eu fosse um mais dos ouvintes.
Volto a ser infante
atendendo em mim a meus avós:
fole da frágua, carvões ardentes,
ferro de cor vermelha,
bigorna suportando marteladas indevidas;
ou par de mulas ignorante de avançar arando,
semeando, segando, acarretando,
trilhando, recolhendo a colheita;
verão ardente,
avidez da água na moringa já mediada.

Atingi Valdepero, um pontinho dum ponto
no impossível mapa do Universo infinito,
quarenta e três quilómetros quadrados
de terra de labor e povo antigo:
porta da muralha medieval, duzentas casas
de pedra, adobe e tijolo velho
fontes de San Pedro e a Atalaya,
igreja, ermida e castelo.

Minha impaciência nasceu -mediado março de mil
novecentos quarenta e seis-
um mês antes do conceituado saudável;
e a ponto estive –olá e adeus-
de morrer nesse mesmo instante.

Aprendi a caminhar entre animais de tiro
e petrechos de lavoura.
A simples precaução chegou o medo
às labaredas dançarinas do lar,
canhão infernal da estufa, forno de Florentín:
lenha do monte
e pão dourando-se, território de Canene.

Era Valdepero,
o dia a dia rotineiro e as temidas
irregularidades chegadas de improviso,
o temor agoniante e a esperança
desdenhada, desdenhosa;
trabalho esgotador e o complemento
da economia: passar com pouco, ajustar
as necessidades à possibilidade,
fugir do esbanjamento como da peste;
aquela peste que dizimava
a população dos currais.

Valdepero era, digo-lhes e me digo,
a solidez pétrea dos páramos ásperos,
a debilidade caliça das ladeiras cinzas, enfrentada
à impertérrita erosão, e a parda fertilidade,
cruzada de córregos, da terra plana.

Era, também, mulas, mulos e asnos
compartilhando manjedoura:
palha de trigo e grãos de cevada;
o porco, treze arrobas de encarrego,
engordando a olhos dos donos
com farinha de ervilhas e constantes cuidados.

Lebres, raposos, pardais, tordos,
gralhas, azinheiras, choupos, baldios,
trigais salpicados de papoulas,
verdes ervas de flor amarela, céu azul e branco:
aí tendes minha aquarela móvel -dizem as minhas palavras
aos netos- meu vacilante desenho gravado ao fogo,
ao ácido sobre a memória enrugada.

Era, na reiterada evocação, Valdepero,
um espaço de infranqueáveis bordas
um ninho protetor e protegido
a vida renovando-se em álveos de contingências.
Era o desenvolvimento de destrezas humildes:
lavrar profundo os alqueives,
semear evitando as ervas daninhas,
comprar terras,
incrementar as propriedades para fazer
dos filhos novos labradores, dependentes,
também, do céu: água ou seca,
pedrisco, centelhas incendiárias;
e a venda do grão a preço conveniente.

Saudades do captado pelos sentidos
alerta: sons, cores, cheiros e sabores, tatos.
Forte desejo de encher o oco
que me incompleta e tenta completar-me:
minha nostalgia é essa aspiração de regressar
a um futuro impossível, e às vicissitudes vividas
vívidas,
que se sucederam.

Fazendo contagem, sigo relatando
rodadas lendas e feitos póstumos,
realidades aunadas às fantasias,
a meus netos,
Judith, Óscar,
Sergio, Adriana María
Naia e o pequeno Lucas:
os seis que agora tenho
dos sete que tive
tão só um momento
quando morreu Yago
no seu nascimento.

Camelôs, ciganos, quinquilheiros,
carroças de toldo, mulas magras:
vagamundos em mil rotas repetidas.
Inexatos anais surgidos da sua boca
que, ao entrar por meus ouvidos,
povoavam a cabeça inquietando a mente
alumbrando a imaginação desperta.
Grato pelo ouvido,
da caixa onde os guardavam meus pais,
um dos vales de pão –padaria de Diocle-
entregava eu aos ambulantes para que comessem.

Pessoa admirada por mim, foi Julián, o latoeiro:
simples utensílios de cozinha descascados
estanhava;
e partilhava comigo seu mendrugo
e sua sardinha
arenque,
pequena gruta, perto do castelo, meio-dia.

Memória tenho da senhora Meregilda
vizinha longínqua por velha, sozinha e pobre;
alimentada de galinhas morridas e ervas silvestres,
quiçá agriões.
Dava um pouco de medo aos meninos,
e algo de pena

Vi baixar da Montanha, estrada de Santander,
antigo Camino Real, tranquilas,
imperturbáveis e fleumáticas,
exóticas parelhas de bois.
Vi despregar suas artes no pátio de Castaño
a recitadores de coplas, comediantes
e ceramistas, que o aguazil
anunciava no seu pregão.

Meu exílio foi-se configurando nas distintas
andaduras posteriores: voluntárias e obrigadas,
perto e longe, imaginárias e reais.
e em meu afastamento de emigrante,
o inventário de lembranças, esmerilado pelo esquecimento,
vai encurtando-se presto um dia e outro.

De modo que parece o prudente apontar ao momento,
hoje melhor que amanhã, lhes digo a meus netos,
os seis que agora tenho.

PSdeJ Escrito em 2014 para a Revista Horizontes de Valdepero

 

 

B.- Homem um e multíplice
1– O homem e a fome
2–A mirada escutadora
3—Nós
4—A obscuridade do silêncio
5—Versos para um poema humano
6—Se morre a Utopia
7—A oportuna chegada da Primavera
8—Um passeio pelo campo-santo
9-O último clochard sobre a Terra

 

1.. Homem e Fome

Fome,
fome, fome;
duas sílabas apenas
e rompem o fluir do homem.

Agente ou paciente
aprofundam a cisão do homem
apagam os caminhos do homem
dessangram
o coração do homem.

Tão só duas sílabas
e desdizem, invalidam,
desautorizam, rejeitam,
revogam,
anulam,
negam o homem.

PSdeJ Estoril 2010

2.. Olhada escrutadora

Idas e vindas levando cacarecos
e livre de colar seu cão amigo:
minha fascinação veio do camelô errante,
uma fogueira acendida em cada sítio,
da liberdade amante
como a liberdade perseguido.
Ascendia difíceis escalões, montanha do inferno,
capitão e grumete em seu próprio barco;
arrecifes, baixios, blocos de gelo,
calma chicha, vento de costado
*

Volta e luta, defende teu projeto.
Egipto, Roma, China, Índia, Grécia, Babilônia
o peso atómico do oxigênio,
o número primo e a disgregada rocha,
os erros salpicados de acertos;
a troca de promessas por resistentes ferragem,
a reiterada descoberta do fogo,
mentiras e verdades intercambiáveis,
o principal e o acessório suplantando-se de novo
a liberdade caindo em velhas fraudes
da tecnologia e o dinheiro;
e o homem valente rompendo amarres
com as confabulações e o silêncio.
*

Eu sou minha pátria:
lutas e abandonos repetidos,
alegrias e pesares
procurando o equilíbrio;
o que vou ocupando e cedendo a meu passo:
desculpas, beijos ao leproso,
gatafunhos,
sentimentos e vagidos;
e cabe na cavidade dum relicário,
na paisagem do abanico.
*

Me inquietavam os enigmas da primeira mirada
e adorei a Terra fértil até saber
que era infecunda sem água.
Adorei a Água, compreendendo
que é coisa do Sol
a inexplicável magia
da evaporação.
Adorei o Sol ignorando
que sua fogueira arde com luz viva
porque o sopro
tempestuoso do ar
acende o calor, a luz e a energia.
E adorando
o Vento fugitivo
descobri meu erro,
o imutável desvario.
*

Indefeso em frente ao cosmos arrogante
-nua raiz baixo a terra desprendida,
minúscula minhoca,
larva inativa-
todas as noites, de maneira inevitável,
aceito um Deus feito a medida;
e constatando a realidade inconciliável
-leão que persegue gazelas
para satisfazer a urgente necessidade de alimento-
a esse Deus aceitado à luz das estrelas,
a cada amanhecer o nego.
*

Os enigmáticos deuses de hoje e de sempre,
faróis agarrados aos mais altos luzeiros,
perpetuamente insatisfeitos se a tradição não mente
-pagodes, catedrais, mesquitas, sinagogas, beatérios-
com regozijo aceitam reverências e lisonjas dos fiéis,
manifestando-se atalho para os caminhantes crédulos.
*

Estrela orientadora no sombrio
considero que a razão é minha guia
e vejo na fé uma roda de molinho,
a máquina do trem que descarrila,
oca explicação para meninos.
*

Os cinco que sou se complementam e se ajudam:
o que goza de vista explica a quem tem ouvido
as cores puras da rosa nua;
e este diz a música do vento a quem possui olfato,
que entrega aos demais os diversos aromas
e recebe dos favorecidos com o gosto e o tato,
o sabor dos alimentos que toma
e a textura do corpo acariciado.
*

É cedo até que é tarde:
existe um ponto idôneo de limite incerto,
para levar a termo feliz nosso afazer;
tão fugaz e passageiro
que quando chega a ser, deixa de ser.
Tudo tende à ordem,
tudo tende ao caos;
e o leve peso dum grão de trigo,
leva a indecisa balança
ao súbito desequilíbrio.
*
Tem a vida em quatro versos sua definição:
Energia e matéria
pensamento, palavra e ação
torpeza e esplendor
tempo e terra.

E escreve meu Epitáfio uma singela modificação:
Energia e matéria,
pensamento, palavra e ação,
tempo e terra,
destreza e esplendor.

PSdeJ Madrid 1975

3.. Nós

Vens: rua acima, vens.
Rompeste o sentimento que te atava
à casa paterna,
paredes de pedra lavrada
esquina com farol e porta entreaberta,
promessa de escapadas
para essa liberdade cortada ao viés
que tanto amamos.

Descendo a rua vais, Descendo a rua te vejo.
Sorriso em signo de interrogação
olhos, de par em par abertos, cegos de possibilidades,
centos de miradas incompletas
que não chegam a ser complementares.

Boca em grito soltando admirações,
chegas aqui onde querias:
tempo e espaço, aglomeração humana
margem do rio turvo, os peixes arrancados
do anzol e arrojados à água,
novamente,
orla do pescador agitado de pensamentos
contraditórios: o bem e o mau se equilibrando,
desintegrando-se.
Já és livre, vinte anos
de cor azul
e alvo, livre
no amanhecer da truncada primavera.

Te sinto perdida no labirinto
que do alguidar chega ao espelho,
armário dos vestidos
que se vai pondo e tirando teu corpo
para sentir-se bem.
Esse perfume que desejavas tanto
desde que o viste anunciado na tele de color
e o corte de cabelo de cidade,
caracol na frente pensativa.
É teu dia corrente
pão redondo que perdeu um bocado
carne sobrante da panela
fruta que na despensa se foi murchando.
Desces do sétimo céu do início da noite
chegando o primeiro sono ao fundo do poço
que abre no portal sua profundeza
polia chilreante e vinte metros
de soga sonho a sonho
alguns terríveis:
o menino que não vem mamar
do peito enchido
lavandeira vendo escapar a roupa
com o passo rápido da agua.
Acordas cansada de tanta atividade
no dormitório dum sexto andar
que olha o rio prisioneiro
de ruas muito transitadas.

Mas a felicidade não é isto
me dizes unificando, equiparando
liberdade e felicidade como se fossem
os dois extremos dum mesmo pãozinho:
leite, mel, farinha, conservantes,
impulsores do sabor
e estimulantes.

Não, não e não; repetias angustiada,
não é só incerteza, desassossego, intranquilidade ou soçobra
o que nos cerca até em sonhos,
nem as promessas que se vão apagando
até desaparecer nos cartazes das agências de viagens
e os prêmios milionários de jogos simplicíssimos,
nem o agradável sabor artificial dos beijos a destempo
mare magnum açucarado de slogans políticos e publicitários
que prometem o paraíso, individualismo, Arcádia
de Justiça Distributiva
a troca da liberdade-felicidade
que tanto desejamos.

Te entendo, e compartilho contigo o sentimento:
não é isto a liberdade
e a felicidade também não,
um dia depois de outro afundando o caminho fundo de calcadas
que voltam ao ponto de partida
quando já não é aquele que abandonamos.

O que ocorre, te digo,
é simples e claramente que o tempo
e a desilusão que o tempo
traz em seu percurso para a nada;
com o tempo transcorrido, esse dia a dia
que a tantos embrutece,
a outros e a nós
nos foi fazendo pensadores.

PSdeJ El Escorial 2017

4.. A obscuridade do silêncio

Rumor de raízes que avançam terra adentro,
de talho se elevando até as nuvens:
eu creio nas razões do silêncio.

O suspeito perdido entre a névoa,
véu que no mar alto disfarça o rumo dos barcos,
vagaroso avanço a empurrões de sirene,
previsores de súbitos achados.

O intuo na sombra da sombra,
esperançado cipreste do solitário cemitério,
mastro e pica carregados de memória.

Letárgico, dormido cabeceia,
alongada língua do enforcado;
escondido nos sinos quietos,
sua voz é o sono do badalo.

Creio no silêncio do homem,
e me atrevo a interpretá-lo:
acerbo, ácido e salobre.

O silêncio do homem é o grito emudecido
dos que pretendem fazer da justiça
um instrumento mais eficaz e mais preciso;
é a palavra ignorante da porta de saída,
o ar expelido e aspirado
que no caminho da garganta descaminha;
um vagido cortado na raiz,
o pranto do menino surpreendido pela vida.

Supre o homem a carência de deuses e de pátrias
domesticando dragões e serpentes marinhas,
e o desconhecimento do lugar da arribada
com rotundas expressões, talvez desmedidas,
que ocultam a aridez da mente equivocada
no vasto deserto das mãos vazias.

O medo a juntar o mau despalhado:
o silêncio do homem o engendra a cautela,
o temor a concretar o abstrato.

O silêncio é seta que sabe muito de objetivos,
pontiaguda garra da fera,
é uma frecha empenhada em alvos íntegros.
É o uivo do lobo que na estepe preta
dá mordidas ao céu emaranhado,
bocados de raiva e de impotência;
é o bramido do touro encurralado
que opõe o coração à barrena.

O silêncio do homem é o chamado
de quem se morde o lábio de amargura
e sujeita suas torrentes num lago
de ígnea lava e fria espuma.

PSdeJ La Habana 2010

5.. Versos para um poema humano

No solo acho mais vida,
mais dor,
mais alegria.
Para mim
querer é mais importante que poder,
mais que a capacidade
a boa vontade aprecio.

Meu sentido da justiça,
da compensação,
do equilíbrio
-o águia caindo sobre o lobo
que persegue um cordeiro;
o pastor pedindo ao caçador que não dispare a águia,
tiveram oportunidade de me fazer desditoso,
e me o fizeram.

Cíngulo sagrado,
hera de espuma,
durante a perseguição dos entardeceres
de sangue e majestade,
o Oeste se cingirá a aurora a sua cintura.

Cessado o vendaval das galernas,
me sirvo das pupilas que o viram tudo:
a cinza e o pardo das terras
e o azul glorioso.

Desde o olho que entrega a mente à nostalgia,
subido nas lembranças olho:
álveos sedentos de correnteza impávida,
ladeiras de resseco pergaminho;
e vejo nos páramos de pedra,
valados que governam os caminhos,
escudos não lavrados de casas solarengas,
catedrais e castelos
dormidos ainda na canteira.

Todo o que sinto, o que intuo e o que vejo;
configuram minha quebradiça integridade,
uma fonte perdida no deserto.
Lábios, mãos, sentimentos;
resido mais em mim
quantas menos necessidades admito e alimento.

Ser livre é discernir entre miragens e verdades,
viver sem mandar nem ser mandado,
eleger sem a inquietação de equivocar-se;
ser livre é ser,
não tem a existência outro caráter.

Tão indomável o leão como o cordeiro,
tão obrigados a manter o juízo;
gémeos ambos no domínio de meu peito,
querem cruzar juntos o ponte do destino,
vida e morte nos extremos.

O porvir depende da força
que a infatigável vontade imprima,
à firme decisão de caminhar num só sentido,
superando os obstáculos acumulados um dia e outro dia:
inundações, furacões ou sismos.

A exceção não confirma a regra:
gota de sangue sobre mar de leite
a modo de evidência.
A nega, a impugna, a rebate;
a contradiz, a invalida, a rejeita;
altera seus termos constantes,
a faz abrir postigos e muralhas,
e  se converter numa lei mais grande,
-gradações da cor rosa, exempli gratia-
onde caiba aquilo que se dá mais tarde.

Atravesso a névoa enchida de mistérios;
como dardos noturnos são meus olhos,
e vão burlando cercos.

Os reproches vãos,
como sou,
me fizeram.
Me fizeram como sou, bom e mau,
as oportunas palavras de alento,
o reiterado exercício quotidiano,
a dificuldade de entendimento
e a persistente oposição do arcano
a explicar seu secreto.

Reparto numa cesta a ração de matança,
o caldo num caldeiro;
e tantos amigos tenho que não bastam
as quinze arrobas do cerdo

O rígido me atemoriza: parapeitos e barreiras;
tenho rompido formas: vasilhas e troqueis;
põem-me em guarda, me entrincheiram,
o inflexível e permanente.

Constante agitação de correntes e marés,
barreira de flexíveis colinas,
despensa que se espalha e regenera
o veleidoso mar me surpreende e me cativa.

Contemplo o céu acolchoado de nuvens de algodão,
concretas figuras modificadas a cada instante pelo vento:
cúmulos em forma de monte, de pássaro ou de flor;
nimbos feitos rostos, cavalos, blocos de gelo;
estratos que excedem a margem da imaginação.

O que vai para além do meio-dia
e traspassado o crepúsculo não morre,
o que acompanha ao tempo em sua rotina,
se apodera do homem
o minora e o domina.

A evolução, a troca e as esperas
o salto, o retrocesso, a mudança,
e o que modifica sua essência,
reclamam minha atenta vigilância.
Do permanente fujo: da arrogante vida eterna.

Encomendo minhas viagens ao tímido veleiro
assentado em ondas sucessivas,
à asa frágil do avião ligeiro.

Água ou areia,
o incontável é de minha atenção objeto,
os areais de estrelas
do cintilante firmamento.

No fugaz tenho meu solo,
o fugidiço me cede seu refúgio,
coluna, parede e teto.

Pelo momento ao menos
não creio em nada fixo;
só no efémero,
no temporário, fio.

Reviso cem vezes o já feito,
de nada estou seguro,
receio de meus acreditados méritos,
de minha fama merecida;
hoje duvido novamente, desconfio de novo
do que ontem cria
e me convenço de verdades novas
que amanhã serão substituídas.

PSdeJ Valdepero, Palencia, Valladolid, Barcelona, Madrid y La Habana

6.. Se morre a Utopia

Nos tempos presentes
quando a esperança é tão efêmera,
e vive em desencanto diluída,
quem oferecerá um futuro cobiçado
se morre a Utopia?

Quem descobrirá a poesia,
flor entre espinhas nas sarças,
veleiro de papel à deriva?

Quem porá imaginação nos grafitos
– engenho das frases –
que derrube barreiras e recintos?

Que exemplo estimulará nos jovens a fantasia,
que façanhas relatarão os avós aos netos,
quem defenderá o povo da constante injustiça,
quem restabelecerá o equilíbrio do dessossego,
quem se oporá à insaciável avarícia
dos que acumulam montanhas de dinheiro?

Quem ousará avançar por novas vias,
quem se oporá aos interesses dos mais interessados
que será da diversidade de teorias
quem estará de nosso lado,
se morre a Utopia?

Quem reduzirá as insuperáveis diferenças
que separam falcões de pombas cada dia,
quem amará do homem sua quebradiça essência,
quem semeará a paz, o perdão, a valentia,
o amor, a liberdade, a convivência
se morre a Utopia?

Quem impedirá que deem forma a nossa argila
em desumanos moldes
os que fazem ferramentas das vidas;
quem acolherá as exceções,
quem será do diverso garantia?

Quem nos livrará da inocência,
quem nos sacará da estatística,
quem sobreviverá ao sistema,
se morre a Utopia?

PSdeJ Madrid 1974

7.. A oportuna chegada da primavera

Apoiando-se na ponta dos pés
sobre os últimos gelos invernais
domingo ao meio-dia
silenciosa e surpreendente desceu
a Primavera.

Música e cor de um bem-estar fingido,
a Primavera inicia, valente, sua andadura
o Inverno regressa a seu esconderijo
a ambição escala a cumeada
a intempérie noturna pede prorrogação
o cinzento está na moda
sobre as nuvens altas se multiplicam os milagres,
a atualidade se opõe ao descontente
todo deve ser submissa aceitação,
a eletrônica traz computadores
mais e mais sofisticados
labirinto que a muito poucos leva
até a análise asséptico e o conhecimento neutro,
porque os computadores
-dantes o intuíamos mas agora já temos certeza-
nos alinham impondo sua singela ordem
de despistados e néscios.

Os cidadãos conscientes que ainda restam
reflexivos e, por isso,
críticos,
se vão desmoronando partícula a partícula
debaixo do peso de problemas reais
e problemas inventados.

Lei de Gravitação Universal
a interdependência entre iguais
proporciona a coesão do Universo;
a singela independência desemboca em solidão
e a solidão afunda a intensa trajetória
de quem lê e quem escreve,
uns poucos que fingem ser desconhecidos
quando cruzam temerosos temerários
a ágora pálida e, com frequência, fria.

A poesia continua passando de mão em mão,
mãos escassas de quatro convencidos
ou de quatrocentos,
os mesmos de sempre ou os filhos de seus filhos
numa viagem cheia de pausas e incensários
como se levam os cadáveres
às tumbas abertas nos saturados cemitérios.

Lograda a harmonia por audazes
de outros tempos,
a regularidade disciplinar substitui o equilíbrio
na disposição dos métodos e da iniciativa,
convertendo-se em chave de múltiplas ações
rajadas das metralhadoras
endiabradas marchas militares
repetido murmúrio da monotonia
da mentira repetida até parecer verdade
até chegar a ser a verdade única,
porque os elos da corrente
que nos atam uns aos outros,
ao mesmo tempo nos separam;
o fogo avança em labaredas nos campos incultos
fogueiras transmutadas em piras de cadáveres viventes
acendidas em habitáculos inóspitos
para combater as baixas temperaturas da miséria humana,
a palidez das cidades desmente a aurora
deixando pálida
em frente do crepúsculo
a beleza honesta da alva.

Os déspotas expelem gritos de injustiça e preços elevados
e quando são descobertos
convocam eleições e são substituídos
por bem adestrados simuladores
que conseguem a momentânea confiança
da multidão desconfiada,
mas estejam onde estiverem e sejam os que sejam
levam a morte consigo e sob os perfumes caros
cheiram a despojos decompostos,
porque para que exista um rico
como os ricos atuais:
donos de enormes fortunas
valorizadas em milhares e milhares de propriedades
que incluem os corpos e as almas;
são necessários, pelo menos,
três gerações de pobres absolutos, íntegros
desses pobres que agora carecem de terra, água,
ar e fogo,
e como acostuma a ocorrer
a incerteza e o medo
sobrevoam milhões de cabeças
roubando sonhos.

Quem desenha a face do que nos convém
muda pontos, listras, superfícies, volumes
e tonalidades,
deixando os antigos ao alcance da mão
destra
com a sã intenção de recobrá-los,
porque tudo tem de mudar vertiginosamente
no vertiginoso giro dos raios na roda
para dar a perseguida aparência
de novo e igual, de igual e novo,
de maneira que a repetição intermitente da paisagem
produza a sensação de mudança para uns
e de continuidade a outros,
visão compendio de todas as possíveis
olhem as pessoas para trás ou para adiante
contentes ou não com o presente maquilhado
que nos dias oferecem
à espera de um mesmo futuro diferente
na proximidade distante.

O futuro pinta ouros
dada a sua perfeição,
o pretérito cheira a nardos
e se veste de cor
rosa azulado.
De todos é sabido que a história muda,
para se adaptar à vigência dos tempos,
de quando em quando o resultado da anterior análise,
fazendo voltar sobre seus passos
aos que querem, faro na costa,
verdadeira e firme essa verdade de verdades,
aberta, mutatis mutandis,
à investigação
constante.

Os poderes fáticos,
a escritores, ensaístas e poetas
por meio de sinais nos advertem,
utilizando parábolas já esquecidas
e velhos símbolos atualizados,
que consideram uma brincadeira de mau gosto
a mania de seguir, dia após dia, na refrega,
compreendendo os fatos e julgando-os
para relatar logo até os mínimos detalhes do acontecido;
devemos sorrir com sorriso ingênuo
embora ninguém desvele a chacota
porque chegada já a primavera
inverna o inverno no interior da sua choça.

PSdeJ, Valdepero, Vitória ES, El Escorial

8.. Um passeio pelo Campo-santo

Por mera simetria não creio no demônio,
o bem e o mau equidistantes
necessidades e desejos compartilhando plano
o palpável e o impalpável em abraço interno
o superior como imagem refletida do ínfimo
a vida eterna e temporária em minha mente ancoradas
poço sem fundo que nada colma
nexo da fé e da esperança

Alma e corpo opostos e imiscíveis,
unidos pela roçadela do tempo.
Além da mulher, eixo do universo mundo,
do homem subsequente, animais, árvores
e pedras; do equilíbrio
e a harmonia, do individual
posto ao serviço do conjunto;
além das estrelas e os espaços
interestelares
eu descreio.

Descarnada metáfora vitoriosa, Oriente
e Ocidente enfrentados em etimológica pregaria,
úmeros, crânios, tíbias, costelas
procedentes do antigo Campo-santo
chegaram faz mais de século e meio
à rua da Coopérative, Villeneuve sur Lot,
para formar,
campo cercado e abençoado,
a Nova Cidade do Sonho Eterno:
Cemitério de Sainte Catherine.

Crentes, pensadores, os abatidos
pela vida
ou condenados à última pena,
trincheira e sebe viva delimitando três canteiros,
se acrescentando outro hipotético
para os filhos de Jacob; demonstrando
que nem na morte se dá a identidade
conceptual de fundo e forma,
que nos despojos corporais dormitam
a opinião e o sentimento,
cadavéricas ideias perniciosas,
transmissíveis,
como vírus filtráveis,
aos sensíveis viventes.

Adubam esta terra fúnebre
famílias francesas, os corpos repousando
no solar pátrio;
famílias espanholas derrotadas em seu país
e refeitas
na acolhedora e tolerante França,
famílias emigradas da Itália,
famílias de apelido português,
cidadãos das antigas colónias
e muitos outros do centro de Europa:
o estranho e o próprio somados, integrados,
a história da vila escrita dia a dia.

Avanço pelo espaço completo
de lajes floridas, onde
jaz e subjaz
a ambição humana formando mausoléus,
panteões, sepulturas, criptas
obras magistrais de arquitetos e escultores de valia.
A sólida argamassa dos abundantes
monumentos funerários
honra, mais que ao falecido,
a quem paga o alto custo:
rivalidade de vivos bem petrechados.

Ouço como se expressa baixinho
um dos pensadores
morto e, ainda, pensante:
“Espíritos privados de matéria,
matéria libertada de energia e hálito vitais,
princípios difusos invocados em responsos,
monocórdica cantilena erguida como coluna de fumo,
tentando penetrar no Mais Alto
impenetrável”.

Leio frases destinadas a realçar a memória
da inconstante permanência
neste espaço de hipóteses indemonstráveis,
da lógica aplastada pelas emoções,
a falsa verdade matemática,
psicossociologia desmitificada
ao provocar o indelével
axioma
do efémero.

”Ici repose
um Cavaleiro da Legião de Honor, Conselheiro de Comércio,
Membro destacado das Sociedades de Defesa Mútua…”:
meritório e extenso currículum vítae,
que leio admirado onde devesse reinar a igualdade
estabelecida pela homogênea composição
da matéria decomposta.
Onde as Cruzes Monumentais
que jazem inclinadas sobre as pesadas lousas
-grossas portas blindadas,
próximas ao hermetismo-
confirmam
a imobilidade das situações
presente e futura.

“O Sol ia
como cada tarde,
onde cada tarde vai,
e a Igreja: altar, vitrais,
cadeiras, imagens
e sepulcros de clérigos;
elevada no meio do passeio
era a parte essencial do contraluz”:
declama uma pintora e poetisa que leva
sessenta anos, ao menos, na tumba
adornada com o que, na distância,
parece um harpa de ouro, mascarão
de proa de uma embarcação,
nave e arca
flutuantes.

“Há um ser eminente difundindo
a luz na obscuridade,
um sábio
que conhece a raiz dos mistérios e a explica;
e um Ser Supremo, criador com a sua palavra,
Fiat Lux,
da luz primigênia”.
Afirma uma voz canônica
defunta
procedente do espaço religioso.

“Há”, adiciono em minha cabeça:
“milhões de criaturas seguindo
o rumo de Uma Estrela Errante
que bem pudesse avançar
errada”.

“Honra e pátria”,
“União,
Valor,
Génio,
Trabalho”;
são lemas esculpidos na rocha dura
com a luminosidade avermelhada das convicções,
montanha afastada da visão mais nítida,
se perdendo na bruma do mar impreciso,
coluna principal,
áscua
e fagulha.

Poetas, filósofos,
sacerdotes e trabalhadores;
se unem aqui com os militares laureados,
feridos, morridos e sobreviventes
de mil guerras,
gastos na paz dos desfiles comemorativos
debaixo do peso das folhas de serviço
cheias de louvores, menções honrosas
e medalhas concedidas.
Aqui as ilusões,
aqui
os projetos
se apoiando os uns nos outros;
a beleza e a fealdade,
a virtude e o vício,
o bem e o mau se complementando,
equilibrando-se.

Sombra refletida da barca
quando sulca o rio que vai à infinitude eterna,
sorriso se esvaziando de mistérios
sobre os corpos nus
comovidos de pudores ígneos.

Eu quero que semeiem bem profundos
meus mais firmes pensamentos
na terra onde nasci,
para que meus netos recolham
as flores abundantes
e os copiosos frutos.
Canteiro dos discordantes,
dos livres-pensadores fenecidos,
deixando bem sentada
minha discrepante discrepância
com todo o arbitrário.

O fruto das reflexões reiteradas
deixo neste longo e pungente poema
-Ode como nome de família-
sobre o dantes e depois
dos passos humanos na terra,
sobre as dúvidas que emoção e lógica
têm ido acercando à certeza.

PSdeJ Villeneuve sur Lot 2015

9.. O último clochard sobre a Terra

Escolheu a esquina do Boulevard Palissy
Palissy Bernard,
ceramista inventor de esmaltes únicos,
protagonista de pesquisas e descobrimentos
em áreas muito diversas,
genie universel de la Renaissance.

Escolheu essa esquina o clochard entre as mais transitadas
para aparecer em imagem diurna
ou o escolheu o recanto:
enfeito, atrativo, convite à mirada.
Si la raison existe, je l’ignore.

Exibe, vaidoso,
 exuberantes cabelos e uma barba
longa, longa, bem povoada,
harmônica e atendida com esmero. Chapéu escuro
congruente 
com a cabeça copiada do grande homem
qui au Boulevard donne son nom.

De aspecto pulcro e modais finos, desconfia
da informação
 que os sentidos lhe entregam; pensa
intui
, imagina, concebe e transmite
a quem quer ouvir-lhe,
ideias e opiniões ajustadas, atraentes
suggestives.

Seu cão parceiro, posa para a foto instantânea
em modo esfinge de Guiza, contente, candoroso,
sociável;
pelo resplandecente e placidez de cão
a quem
la noblesse oblige

Nada pede o jeito pícaro
do experimentado clochard
já avançado na vida.
De pé, ou sentado 
sobre uma almofada acolhedora
que abranda o chão da calçada imprópria,
sorri ao falar com certa parcimônia
préméditée, calculée, consentie.

Conversador generoso,
 cordial,
foi ilustrado com os conhecimentos
de quem tem lido, por prazer,
os livros, muitos, postos a seu alcance;
dando conteúdo e forma pessoais
à sa reconnue philosophie vitale.

Uma bandeja de aço inoxidável
evita que as moedas, 
recebidas sem aparente motivo,
espalhem sobre as baldosas romboidais
seu ziguezagueante percorrido, seu tilintante som,
dix fois dix.

Chega de boa manhã ao posto de trabalho:
estar, ser, ouvir, dizer, ver e ser visto.
A meio-dia toma um bocado e passea
a coxeadura produzida praticando alpinismo,
enquanto o cão corre e brinca
sem perder de vista o faro que vigia seus cabriolas,
yeux de regard intense.

No lugar de acomodo passam ambos
tempo e tempo,
tanto,
 que aparecem nas vistas de Google
no meio das casas, como os postes,
perto da rua, como os bancos, os carros, os cartazes,
do Boulevard Palissy
na cidade de Villeneuve sur Lot, Aquitaine, France,
hémisphère Nord de la planète Terre.

Hoje é o último dia de minha estada na vila,
temporada de retiro destinada a concluir
um livro poético de encarrego.
Não me atrevo, mas
penso explicar-me, recitando,
ademais, os poemas iniciais.
Dou por seguro seu desejo
de escutar-me
e de me falar depois de si mesmo,
à demi confiant et méfiant.

Filho de um expatriado espanhol republicano,
unido a uma mulher francesa
 afiliada
à franco-maçonaria,
nasceu, por puro acaso, nesta parte interior do mundo,
se considerando fronteiriço nos territórios todos
que sa complexe simplicité déploie.

Passou em prisão os anos jovens,
acusado dum roubo que, seu patrão, ladrão verdadeiro,
confessou por  lhe descobrir uma malfeitoria maior;
mais les portes fermées n’ont pas été ouvertes.

Se encontra sua morada humilde
na ribeira agradável aos sentidos:
enramada muito espessa,
frescura ou remanso segundo as estações.
Desvão mirando o cambiante céu, e porta
constantemente aberta,
que têm ido mobilando os amigos,
aqueles com os que conversa
sur l’humain et le divin.

Sua autonomia permite
poupar boa parte das moedas da bandeja,
coleta indireta e invariável
tão constante como o caudal do rio,
si fluide.

Revela por ligação simples
das consequências e as causas
a existência duma mulher amada, lá,
onde acaba o Arco-íris.
Um amor intenso, intuo,
pedra angular dos anos decorridos
uma mulher, cativada pela beleza
de tudo o existente,
que cuida, como meninos, três gatos de Angora,
e recebe a cada mês uma remessa
anônima
que a permite, sem rendas, viver como uma rainha;
como a rainha que o Clochard de Palissy
quis que fosse
avec toute sa volonté et toutes ses forces.

PSdeJ Villeneuve sur Lot, France, abril de 2015

 

 

C.- Causas e Consequências
1– As espigas tronchadas
2–Expetativas
3—Pensamento e ação
4—Diluvio na resseca terra da fome
5—O preço das coisas
6–Concordia de classes
7—A economia de mercado

 

 

1.. As espigas tronchadas

O nó central da inclemência
se resolve em verdes prados,
em pálidas cores o verão se resseca
murcha-se o outono em ocres arrebatos
em folhas amarelas,
em crostas, em bagaços.

Ante as instáveis gotas de orvalho me amoleço,
ante a diminuta névoa suspendida
gelosia natural do Firmamento.
Granizo, escarcha, chuva ou neve
persigo a água cristalina
regeneradora e renascente.

Quero descer na catarata
eflúvio ser de seu vapor evaporado
ser espuma da água fustigada.
Cai gota a gota o chuvisco
passo a passo, rama a rama
desfalece ritmo a ritmo
grão a grão se desgrana.

Moldou o rio seus meandros,
leito aberto,
seixos rolados;
cavalgou a madrugada sobre formas mais precisas
fomos muitos para as escassas lebres
e levantou irmão contra irmão a cobiça.

“Que iniciem o ataque os arqueiros
acometam depois os de a cavalo
terminem corpo a corpo os infantes a refrega”:
com agressivo brado
arengou o estrategista na traseira .

“Os mortos recolhidos atrás da linha de partida
não atingirão o ansiado paraíso”:
sentenciou iracundo o druida.

Não houve vitória que admitisse terna os pacíficos
feridos pelas armas dum e doutro bando
nem leito de plumas
que acolhesse os inválidos.

Foram pícaros os que reivindicaram o triunfo
conseguido pelos mais ferozes;
e para premiar aos heróis inúmeros
faltaram prezados galardões.

Bandeiras, tambores e trombetas,
páginas abertas dos livros;
cada um no seu sítio: luta ou cautela
campo de batalha ou caminhos.

Tinta indelével das plumas,
sentimentos, intenções, desígnios:
tudo o aniquila a crueldade das disputas.

Arrasa a guerra povoados e colheitas
afasta os horizontes de chegada
abandona terrenos abertos pela relha
arranca corações robustos de lava
separa os potros da égua
mata a vida na vida engastada
tergiversa a liturgia, e o mel das abelhas
pelo solo esparrama.

Cada punhado de terra oculta uma gota de sangue:
veias confiadas no raso
artérias surpreendidas nos vales
e no mais elevado do alto,
a desmedida ambição culpável.

As cavilações do pensamento libertado
produziram duas teorias contrapostas,
e trás cada uma delas formou um bando.
Carregada de pessimismo
a primeira:
o mundo é redondo para que nosso êxodo não acabe;
a outra trata ao Demiurgo com enorme indulgência:
para acolher nossa marcha sem final
criou a esfera.
Atuam enfrentadas
porque são simétricas.

Infundo mansidão
aos cães que uivam os lobos,
aos lobos que atacam os homens
e aos homens inimigos dos uns e os outros.

O meu é tender pontes,
pesquisar o móvel do desejo,
medir a altura das visões,
analisar os ritos e os gestos.

Em discrepantes visões e atitudes,
sou conciliador e procuro pactos;
atinjo a necessária síntese
acercando as vontades aos atos.

“Luta até o equilíbrio” é minha divisa,
e é minha assinatura meu nome lançado numa seta,
em procura da cruz da harmonia,
vacilante,
equilibrada, ativa.

O progresso cifro em avançar,
em marchar para o objeto perseguido,
o arranjo a que tende por inteiro o existente,
instável contrapeso sucessivo.

Espigas tronchadas, a peripécia
da discórdia existencial
se tempera,
desde pontos de vista certamente comovedores,
na simetria das lembranças mais profundas
fazendo-se questão de linhas e cores
aromas, pressentimentos e colunas.

PSdeJ Valdepero 1963, Camelford 1982, El Escorial 2017

2.. Expectativas

Movimentando-se ultradensas em espira
uma em direção a outra,
dando milhares de giros por segundo,
duas estrelas de nêutrons chocaram
produzindo, tempo depois,
um buraco negro bem profundo.
Faz disso só cento e trinta milhões de anos.

Não posso atrasar a escrita de meus versos
há questões
urgentes neles:
cuidado com a paz!,
advirto:
tão educadinha como parece,
se arma e se rearma nela,
rancor e fogo,
a ominosa e execrável guerra.

Se queres a paz –recomendo-
acaba com as causas da guerra,
fortalece e consolida a paz,
termina com as injustas diferenças.

Régulo privado de seu cetro,
acentuada exaltação de percepções,
observo minha conduta desde dentro.
Pétala breve conquistada,
veemente furacão,
propícios lábios.
Nas incógnitas que a lógica decide desvelar-me,
na intuição apoio as sentenças,
porque os sentidos mentem como rufiões
e me informam segundo sua conveniência.

Tenho de somar,
por se não bastasse o já dito,
minha suspeita constante de imaturos erros,
esquecimentos de vulto e descaminhos,
ainda não descobertos.

Fixam os livros a memória como os pinos as dunas,
permitem ver o passado para além de sua imagem atenuada
e projetam sobre o hoje a calculada presença futura.

Neles leio que a pedra se fez efigie,
que o ouro foi adorado e a palavra
-meu postremo refúgio-
resultou mil vezes profanada.

Minha visão harmônica do caos,
levada à ordem pela lógica,
e a evolução do pensamento apoiada nos ensaios,
me ditaram no ouvido
um evangelho santo,
credo positivo,
curta relação de mandatos.

Consumirei recursos renováveis,
mais planta que animal,
calor ou minerais;
capazes de crescer
uma, outra, outra
e outra vez.

Matérias primas a meu alcance,
dos bens que possuo:
ferramentas,
vestidos, alimentos;
utilizarei o indispensável
libertando o resto.

Volume sobrante,
envoltório, casca ou pele,
elementos residuais:
aproveitarei os desfeitos.

Cedo tive pensamentos próprios:
de princípios, sensatez e dúvidas,
enchi belos estojos.

A metade do homem indócil que me integra,
defende um sim do mais sólido;
e o resto  trás um não sem retrocesso se entrincheira.

Do anverso branco até o reverso negro,
minha vontade se encolhe e se dispersa,
compartilhando o eterno drama do Universo.

Aguda espinha,
interior sedoso;
sou contradição,
perseverante paradoxo.
Vivo a heroica,
a real e diária vida doméstica,
do eu inconstante, do indivíduo altivo,
emocional, cândido e sublime;
afetuoso, pleno de preconceitos, agressivo,
servil, soez e corruptível.

E a vida da razão e o pensamento,
universal e nivelada,
que tudo o mede e o pesa tudo,
perfeita, lógica e quadrada;
facultada para destruir com a análise
os firmes pedestais e as estátuas sólidas,
capaz de despir de roupagens alheios
a verdades e mentiras em infernos vizinhos da glória.

Tenho saído à aventura sem mochila,
carenciado dum amarre que me una ao terreno,
naufragada barca, águia doente,
recordando o exemplo
que dão as sementes:
capazes de esperar no deserto,
em condições extremas de seca
-conscientes de sua própria fecundidade,
seguras de si mesmas
a uma sozinha
gota de água,
do tempo inextinguível
a parte necessária.

Nosso próprio Sol, Capital do Sistema
que nos atrai e recusa fazendo possível a vida,
ao transformar todo seu hidrogênio em hélio,
andando o tempo se converterá
num Gigante Vermelho,
e se expandindo,
expandindo-se,
mais e mais ardente engolirá
Mercúrio e Vénus,
queimando a Terra antes de fundi-la,
apropriar-se dela e, também,
andando o tempo,
morrer.

Mas desastre tão extraordinário
nos dará certa margem
e ocorrerá dentro de milhares de milhões de anos.

PSdeJ Valladolid, Barcelona, Madrid, 1970

3.. Pensamento e ação

A vontade sobe ao estrado
e arenga a todo o organismo:
rins, coração e baço,
incitando-lhes a suprir qualquer carência
para desenvolver o potencial inato.

É preciso mencionar a importância das mãos,
com elas elaboro excelente artesania,
ferramentas, arreios para o gado
e os conformes traços da caligrafia;
enérgicas aceitam compromissos, assinam pactos,
e sedosas desenham a tibieza das caricias.

Sem atingir os extremos do eremita ou o asceta,
dedico algumas horas a meditar meu pensamento;
nem flagelo minhas carnes nem me nutro de ervas,
gozo e sofro acompanhando a meu tempo:
sou um filósofo que avança na névoa.

Com as exceções assumidas,
a beleza da ordem é minha meta,
liberdade distanciada da forçada simetria.

Cabem em meu mundo figuras insólitas:
quadrado, triângulo, circunferência;
todas as formas regulares,
as irregulares e suas mesclas;
e em matéria de opiniões,
qualquer ponto de vista me interessa.

Não há que marcar limites ao desenvolvimento
para além dos que estimem a experiência,
no dia de manhã e bem-estar dos outros;
porque somos um elo da cadeia,
o fio condutor da prudência e o arrojo,
o fluir do rio
e a lenha no fogo.

Sou o que lavra a terra e a vazia de minerais,
quem se submerge até as pérolas e os arrecifes coralinos;
aquele que transforma as matérias primas em objetos
e o servidor de seus vizinhos.

Cuido o semeado até a sega,
descendo à mina, pesco barbos no rio,
trabalho de sol a sol na telheira;
sofro fome, sede e frio,
e meu corpo resiste nu as doenças:
sou o braceiro desconhecido,
o novo atlante que porta o mundo sobre sua cabeça.

Que signo acunharei nos corações,
que contraste darei ao valor de seu valia,
que afastados limites porei ao terreno parcelado,
que listras traçarei que não dividam;
que som coincidente com o sim em todos os idiomas
direi com energia?

Machados de sílex lavradas por gorilas,
azeite para as cinco lâmpadas das virgens néscias,
o segundo coração que o amor do homem precisa,
os grandes versos do décimo livro da Eneida,
uma copia a seu tamanho da Capela Sixtina;
a contagem de minha vida expressado em derrotas,
luzes extinguidas que marcam ainda o rumo dos navios,
ilusões recebidas pelos filhos e a  esposa;
sentimentos azul cobalto confundidos,
datas erradas da recente história,
os cinzentos temores e a paisagem proibida,
colmam o espaço destinado à memória.

Dão forma a meu orgulho alongados estambres amarelos,
orquídeas de pétalas moradas,
flexíveis juncos e sarandeados lírios.

Me surpreendo
inacabado
em cem aspectos;
pálidas facetas dum brilhante mau polido
que encontra nos outros complemento:
família, amigos,
colegas
e contíguos.

Por aceitar
os demais tal como são
e ajudar
a que sejam como anseiam ser,
se desvive minha débil vontade
arrastando meu volúvel proceder;
por formar um critério
inteiramente meu
e procurar o concerto da síntese constante
e o renovado equilíbrio.

A aparelhada mula e os pardais livres
o céu inconsequente e a sacrificada terra:
com o afetuoso coração preservo minha origem
com a reflexiva e equânime cabeça.

PSdeJ Palencia, Valladolid, París, El Escorial

4.. Dilúvio na resseca terra da fome

Com uma pluma de cálamo partido,
o homem desguarnecido se defende,
pó em água diluído,
tinta viscosa surgida da frente.

É uma pluma somente
e a branca superfície do papel
em seta, em adaga a converte;
a palavra que perfilo é um cipreste
lançado contra o céu inexpugnável e inclemente,
para desaguar, face e invés,
seus transbordantes recipientes.

Vão sendo as seis e o acampamento
-levantado no álveo dum córrego dormido-
em círculos de pedra aviva o fogo,
e com a tranquilidade de quem ignora os perigos,
apressa lidas diferidas pelo breve ócio
ou desata lembranças dos tempos idos.

Pranchas de lata formam tetos e paredes,
entulhos de algum derrubo, tabelas rompidas,
frágil refúgio destinado a expulsar a intempérie.

O vento avisa com seu assobio ralo,
um cheiro a crisântemo seco
vem do Norte carregado de presságios:
calaram-se os grilos
e os pardais agitados
revolteiam em círculo.

Recolhe raios o sol, embainha sua soberba,
retrocede e foge ante exércitos de nuvens
embutidas em armaduras pretas,
amazonas sobre corcéis infernais
que revelam uma cólera densa.

Urgidas galopadas das pernas,
a primeira gota inaugura o desconcerto,
cauta avançada de suas companheiras,
as que ocultam o sol fátuo e incerto
esperando instruções mais concretas.

Chove a negrura que afasta o horizonte de esperança,
nos confines se confundem as linhas de chegada e de partida,
piscando resplendores se agita o deus da borrasca
visos perversos que agigantam lonjuras,
numa tarde de verão bem bastarda.

Presto o altar, a oferenda desconhece os desígnios;
procissões de nuvens chegam ao lugar dos fatos
seguindo a ordem imutável do aviso.

As temperaturas elevadas,
carenciadas de paciência,
perfuram a barreira da exígua enramada;
os indómitos vales desfocados centelham
e desde o alto das nuvens altas
ordenadamente se dispõe a tragédia.

Descobre o olho torvo em solitária cavalgada,
o temor oculto dos campos às ingratas sementeiras;
em qualquer lugar o mau augúrio aguarda,
em qualquer parte a ferida se sincera,
por ali chega a morte pressentida,
insuspeitada e, sem embargo, manifesta.

São milhões as gotas
e uma sozinha é vida no deserto,
adição do mar não desbordado;
uma gota não é perigo verdadeiro,
nem dez juntas, nem mil vezes um copo.

Com quatro nuvens irritadas forma-se uma tormenta,
três tormentas cabem num vale,
são três os vales convergentes, e mais de trinta
as nuvens que acumula a grande nuvem resultante.

Toneladas de água vai ressoprando a galerna,
milhões de metros cúbicos desprendidos da altura,
uma fortuna se cai no lugar da carência:
terra resseca e esquartejada, balbuciante agricultura,
feijões, tubérculos, centeio, aveia
erva agostada e murcha,
alimento que salva da morte verdadeira
protegendo da fome uma temporada curta.

Apedrejam as nuvens com ouro a puna e a savana,
centos de milhões de onças caem em absorvente terreno,
mentido pasto para milhares de vacas
que morreriam num jejum novo.

Água vai!: exclama o céu como em broma,
e a nuvem total, o universo inteiro, as líquidas esferas,
abrem as comportas e em menos duma hora
cai destruidora a água reunida por todos os planetas.

Os pés não encontram solo, se dissolve a terra,
tudo é líquido solto e sua força de arraste,
arrasta rodando as rodadas pedras.

Os ramos se desgalham de choupos e aroeiras
se troncham os caules das plantas,
o deus da morte exige uma centena de vítimas
e a dor das sobrevivências rasgadas.

Há famílias abaixo, pessoas de todas as idades,
borbotões de sensibilidade e de ternura,
mansos humanizados animais,
utensílios, úteis de pesca, ferramentas rústicas,
amor à Natureza imensurável.

Se volta contra o homem o enxoval diário,
arrasa arrasado e é espada;
é martelo, é estaca, é maço;
é machado violento, é furente navalha.

Resistem os valentes esbanjando brios
e agonizam em tentativa vã de remediar o abandono
alentando aos mortos nos vivos
enquanto fogem os covardes e se salvam sós.

Se troca a terra em pegajoso limo,
as lenhas e as pedras se fazem presa,
fixação de mares bem nutridos;
e num momento que a fatalidade desdenha,
solta o desbordante conteúdo.

Exaltados relinchos de cavalo
das gargantas escapam fugitivos;
os bramidos de touro ensanguentado
e os desgarradores gritos
expressam a cicatriz do desengano
e a crueldade da miragem no infinito.

É angustiosa a impotência,
e depois do instante eterno que dura a agonia,
insultam os feridos a quem ditou a sentença.

A morte forma feixes de corpos:
mãos enlaçadas nas mãos,
braços colgados dos pescoços,
pescoços pegados nos lábios;
mordendo os dentes o sensitivo nervo
do amor apaixonado.

Se fazem alicerces os troncos em carne viva abertos,
suportando o peso dos muros derrubados,
dos precipitados tetos.

As lascas, incisivas como alfanjes,
e as árvores arrancadas da mãe,
são armas para o descomunal gigante
que vomita a água dos sete mares
sobre formigas humanas insignificantes
acostumadas ao abuso do grande.

Quando o céu aclara sua cor e o temporal decresce,
oferecendo evidências ficam os despojos:
cabeças aplastadas por pedras inocentes,
extremidades presas baixo escombros,
ventres inchados sobre desnutridos ventres,
corpos oprimidos cobertos de lodo.

O lodo, o lodo, o lodo detido;
o lodo desprende de seu seio improvisado,
a expectativa de encontrar algum respiro
e o fedor dos restos putrefatos.

Os cadáveres preferidos pela água,
são arrastados rio abaixo,
até o delta que acolhe na enseada,
o varro e a madeira, os cantos rodados.

O amanhecer amanhece destruído:
a batalha desigual -só um bando-
tem deixado um esplendor despido,
coberto por membros descarnados,
de impossível volta aos caminhos.

Nos morros verticais descobertos,
no leito ermo das madres secas,
nos meandros dos rios cegos,
levantam os parias da terra,
seus pobres acampamentos,
suas frágeis tendas.

E o céu castiga
sua extremada pobreza
e a sua ousadia.

PSdeJ, Diversos lugares desde o ano 2011

5.. O preço das coisas

Antigamente o homem
era antes de tudo sua ascendência,
e a tribo representava a pátria do homem,
família, amparo e despensa;
a propriedade era comum, e eram comuns os projetos,
amigos e inimigos, o trabalho e a colheita;
se compartilhava também a íntima dor
ou a profunda alegria
e o individual não se manifestava quase,
quase não florescia.

A tribo se foi diluindo nos costumes
a bonança permitiu ao homem mostrar
sua personalidade certa,
o homem, separado dos outros, se fez gente
e a gente descobriu,
inventou, modificou, pôs preço às coisas.

Quando tiremos o preço das coisas
a gente sofrerá como se lhe arrebatassem as coisas
porque não sabe separar as coisas
do preço das coisas.

Quando tiremos o preço das coisas,
a gente albergará a dúvida
e o receio no seu dorido coração,
pois apreende na primeira infância
– saber sequestrador da inocência –
que antes ou depois tudo lhe custa;
e se, em etiqueta fixada ou colada,
não se mostra bem visível o preço
– escrito em caracteres claros,
perto do número redondo–
se deve a que é muito alto.

Quando tiremos o preço das coisas
e as coisas se mostrem nuas à gente,
a gente não reconhecerá as coisas,
porque sabe que o preço é para as coisas
como a forma, a cor, o cheiro ou a textura
que devem ter todas as coisas.

Quando tiremos o preço das coisas
a gente ignorará a ordem que seguem as coisas
equivocará a hierarquia
e tudo será um caos
para a gente que ordena as coisas
pelo preço que têm as coisas.

Mas se queremos que a gente modifique
sua maneira de ver as coisas
e avalie atributos primordiais
como a beleza de linhas,
a utilidade prática,
o som do vento ao abraçar sua superfície
a suavidade do tacto
a natureza da substância originária,
devemos tirar o preço
que um dia se pôs às coisas.

Quando logremos tirar o preço das coisas
-acontecimento histórico memorável-
do indivíduo isolado, da gente, surgirá a pessoa
coração animado de sístoles e diástoles.

PSdeJ Madrid Mercado do Rastro 1967

6.. Concórdia de classes

HIC ET NUNC
Corpo de pão e leite, cabeça de bronze:
sinos fundidos
com canhões.
Ah!, minha Espanha, minha terna e impetuosa Espanha
paulatina síntese atroz deste Planeta,
lugar onde ao nascer estive a ponto de morrer
e talvez morra hoje de dor y de impotência.

EXPOSIÇAO
Era quinta-feira, catorze,
quando
tout à coup, de repente
conhecemos o rumor
que assegurava a possível imortalidade
dos ricos mais ricos;
e soubemos que alcançando em euros
os cem milhões
de capital uno o diverso,
tinha decidido Deus
que os ricos mais ricos viveram
pelos séculos dos séculos.

Sentimos, e há que destacá-lo,
a maior alegria
de nossa pobre vida de pobres,
contribuintes natos e netos
para o enriquecimento crescente e bem crescido
dos contrariados
permanentemente insatisfeitos
ricos.

Alegria sim, muita, inenarrável
-idosos, adultos e meninos-
pois ao fim
nosso esforço íntegro e constante:
um dia após de outro, hora após hora,
dedicado a nos alimentar com o mínimo
e a enriquecê-los ao máximo,
cumpriu seu elevado objetivo.

Ficava claro,
não éramos tão inúteis.
como nos fez crer seu descaro.

CRISE
Houve multidão de comentários
e algumas
especulações;
inclusive se quis pensar na existência
de letra pequena no acordo,
-fruto da intervenção
do intrigante Demônio,
negociação a dois: Céu e Inferno-
que acrescentasse requisitos mais difíceis
de cumprir, por exemplo:
que estivesse limitado acima,
verbi gratia:
que atingidos os milhões
cento e vinte
pelo capital do rico
o direito da adquirida imortalidade
se perdesse facto ipso.

Imaginando o apressado
processo de enriquecimento
e o freado conseguinte
-os sofismas: essas esmolas repentinas
carenciadas de continuidade,
e a volta ao crescimento já sem correria
com moderação-
soltávamos uma risada muito ativa.

Retenção e esmolas
que não deviam ser excessivos,
já que se tratava de conseguir
a difícil harmonia, o equilíbrio;
pois se a fortuna baixava de cem
milhões limpos
a morte levaria os ricos desafortunados
a seu covil estreito e frio.

Acostumados a sofrer
um averno de angústia e bamboleio
em nossa subsistência de exíguos;
lamentamos ao instante, os pobres,
tão insólita situação, pois nela vimos
o insofrível tártaro
incorporado na ansiosa sobrexistência dos ricos.

DESENLACE
Por se acaso; não fora
verdadeiro
o rumor difundido,
muitos acumuladores, moderando
seu extraordinário apetito
adoptaram o meu lema:
“Luta até o equilíbrio”.

PSdeJ El Escorial 2017

7.. A economia de mercado

Crosta, manto
e núcleo,
meridianos e paralelos,
translação e rotação,
o globo vai perfeiçoando a sua rotina
entre instáveis equilíbrios e jogos malabares.

Tendo recorrido em círculo ou em elipse
a Terra quatro mil e quinhentos milhões de anos,
não se pode impedir
que a economia de mercado,
eufemismo do dinheiro canibal,
soltando a nosso planeta do atracadouro espacial,
o converta em marioneta de seu dedo,
novo centro do giro inacabável.

Com o seu influxo único,
a economia de mercado originou
a deriva dos continentes;
com o seu único influxo move,
a intervalos medidos,
as placas tectónicas; e com o seu onipotente influxo
aviva vulcões e sismos, aparentes catástrofes naturais
que a mesma economia de mercado aproveita para extrair
uma boa ganância.

Nos tempos de Pangea o Algarbe acariciava
as ilhotas de Florida, e o rochedo de Ifach
penetrava
as terras virgens da Guinea africana.
A união fazia fortes os espaços todos,
e a infatigável
economia de mercado nada podia contra eles.

Foi então quando,
perseguindo soluções, cunhou o dito:
“separa e vencerás”,
e atuou em consequência.

Empuxão,
arrasto e obstinação
forças centrípetas e centrífugas:
a empurrões
conseguiu
separar
os territórios
irmanados.

E há mais, muito mais:
nas noites escuras do trópico,
se servindo de escravos insatisfeitos, a economia
de mercado arranca o magma do puro núcleo,
e o saca fora para vendê-lo
de madrugada
em armazéns clandestinos
ao melhor oferente.

A economia de mercado tem pressa, e acelera
o passo
do Universo;
de modo que, quanto ocorria em milénios,
agora ocorre em décadas.
Se produzem assim múltiplos desequilíbrios
que a economia de mercado
assenta a bom preço.

Enquanto
ocorre que o destinado a morrer
morre e alimenta o vivo,
a sua vez pasto, sem consciência ou consciente,
da economia de mercado y de suas malfeitorias,
algumas de domínio público e voz comum,
e outras muitas
ignoradas por desconhecidas:
silêncio de conhecedores
freados pela cobardia.

PSdeJ Genebra 1990

 

D.-A Aldeia Itinerante

 

UM

Ponto cardinal da mirada,
a minha aldeia azeri alabo sem reservas;
insensível carcereiro de sua própria carne
maldigo ao Khan que a governa.

Dilapida sua quantiosa fortuna
e os bens do erário,
não compartilha o cordeiro nem os peixes
queijos, frutas, massas e pistachos.

Nos dias de festa
-custoso perfume,
seda fina-
facilita o opressor pródigos tragos
que entumecem a memória ou a adormecem;
e relegando os agravos
os súbditos dão rédea solta à alegria.

Agitados pelo vento os cabelos,
sobre a rocha erguido
denuncio seus ardis ante o povo inteiro;
lampejam afiadas as navalhas
aliadas noturnas de sombras e ecos.

No antigo reino de Urartu
faço-me forte;
entre o lago e as montanhas encontro terra favorável,
solar de escitas, medos, persas e sumérios,
onde Deus teve nomes diversos e múltiplos altares.

Emigrante em terra
de emigrados
a língua de Mesrop aprendo
e tomando esposa entre as jovens
abro caminho a meu povo.

Porque a espera é esperança
e o exemplo conduz as maneiras,
proclamo a igualdade entre homens e mulheres
respeitando a diversidade das crenças.

Às vontades
confio os projetos,
uno-me ao esforço que unido persevera
arma o amor defesas em meu peito
me empurra animoso e me dá forças.

Recebo impetuoso alento
-lábios doces de minha amada-
para baixar das alturas de Ararat
desembarcadouro da Arca.

O diabo branco
que oculta os caminhos,
nada poderá contra meu braço vigoroso,
nem o precipício sem fundo ou a avalanche informe;
atravessarei as cumes inóspitas
e os glaciares imóveis
para que minha numerosa descendência
se disperse pelos quatro horizontes.

Baku (Acerbaijão)

DOIS

De varro
modelo o corpo
que suportará minha vida,
a forma imito dos formosos deuses,
tomo do raio a luz e a energia;
a mim mesmo me encarno
olhos acendidos, vigorosos braços, pés de argila.

Partindo das rochas inalteráveis
formo vale e ladeira;
só eu, sem ajuda de ninguém,
elevo as montanhas sobre a planície extensa.

Preservo o território etéreo
das sublimes deidades
com três círculos de névoa
que envolvem o templo inviolável
e à humana mirada o falseiam.

Posso ser
o copeiro dos deuses,
mas prefiro
edificar as aldeias tadzhikas
-ventura da terra de meus maiores-
as mais altas e as mais antigas.

Desde o Pamir eminente
tenho o mundo a meus pés
e nenhum acontecimento me surpreende.

Emparento com mogoles e bactrianos;
gregos, árabes,
generosos persas,
e incorporo a seu sangue o meu
em mistura benéfica

Nas veigas planas
e nas inclinadas ladeiras
jovens labregos dos campos ferazes
declamam melódicos poemas
depois do último esforço recoletor de colheitas.

Vou sentando
com minha palavra e exemplo
-sozinho, sem ajuda de ninguém-
uma linhagem aberta ao externo
plena de possibilidades.

Por isso reconhecem minha voz
e me chamam irmão;
sou ascendente do magnífico Iskender
esse Alejandro que as avós porão a seus netos sábios
e as mães aos filhos fortes.

Em sua viagem acompanho ao vento,
porque meu entusiasmo é inesgotável;
sou um dentre eles,
e todos eles o sabem.

Dusambé (Tajikistan)

TRÊS

No princípio era Brahma
e Brahma vagou uma eternidade sobre os cumes mais altos;
por suas ladeiras desceu até Uttar Pradesh
e escreveu os Vedas à luz de três lâmpadas.

Imagem da vida,
há um caminho em Khajuraho rodeado de templos
onde fala em sussurros o homem virtuoso
e agita ramos de sândalo o alento.

Os encantadores de serpentes
domam o Destino a cada dia;
o ilusionam, o dominam,
neutralizam seu poder decisório,
o tornam ínfimo,
e os espectadores vingam-se do Destino
em seus risos.

Sobre a terra impávida
como gotas de chuva caem os mortos,
rocia a bruma o ar hediondo,
entardece no dia com desânimo;
é tempo de absolutos e de extremos
e lânguida afasta-se a preguiçosa barca
rompendo -débil quilha- nenúfares abertos.

Minha amada e eu
somos uma das infinitas partes,
que formam o corpo indivisível do Cosmos íntegro
e estabelecem comunhão com o Amor, único e inseparável.

Na corrente do Yamunä submergidas
a sua derradeira reencarnação se acercam nossas almas;
e a melancólica pureza do Taj Mahal
será seu permanente morada.

Ali os avermelhados muros de Agra
as verão comerciando em infusões
tapizes, madeira de baniano talhada;
compartilhando a nada com os moradores do solo
lavrando a beleza do ouro e da prata.

Delhi (India)

QUATRO

A delicada fugacidade da arte,
a experiência que abastece à filosofia
e o ritual religioso da natureza respeitada
convertem a Shangai em ponto de partida.

Tentamos subir pelo Chang Jiang contra corrente
-apaixonados, mitológicos, gigantes-
decididos a atingir a primitiva fonte.

Deixamos o refúgio cálido do porto
-capulho de seda, útero de larvas-
aos ventos fechado, à esperança aberto.

A Torre do Tambor de Nanjing,
a Púrpura e o Ouro do Colhado,
conquistam a mirada surpreendida
dos passageiros do barco.

Recebe-nos Wuhu hospitalário,
e duas semanas depois,
as três cidades de Wuhan,
lago do Leste e as Colinas,
pavilhão do Poema, memória de Qu Yuan.

Translada a ponte sobre nossas cabeças
a cem mil operários
em cem mil bicicletas.

Que rápida parece
em frente dos preguiçosos juncos
a pesada barca de vapor
que nos apresenta Chongqing entre a bruma,
onde comemos pato,
douta preparação de sua cozinha
em conjunção perfeita de cheiros e sabores
cores e textura que leva à delícia.

Pisemos forte o lamaçal !
que trema a nosso passo o Rei dos Dragões!
profundas pegadas de cavalo,
de peludos yaks,
redemoinhos das Três Gargantas
desfiladeiros insondáveis, pântano e lodaçal.

Ribeira desbordante de gentio atarefado
canais cobertos de lotos perenes
fauna abundante de búfalos e gamos
asnos selvagens e leopardos das neves,
gazelas mongolas,
ursos, antílopes e multidão de peixes.

O ar se empobrece à medida que subimos
freiam nosso avanço a ausência de veredas
os inóspitos glaciares e o gelo movediço.

Advertimos imprecisa a fronteira
entre a dura realidade e a suave fantasia
o limite delgado da história e a lenda.

Contam os pastores tibetanos
que um sólido terneiro de considerável alçada,
desceu lentamente dos vaidosos céus;
e a água pura que de seu nariz brotava
-um arroio de caudal minúsculo-
deu ao Changjiang a corrente originaria
e os seis mil trezentos quilómetros de curso.

Descobrimos em Janggaintirug:
glaciar de congelada fantasia,
cume Gela Daingdong, pastor da lenda,
o manancial, a fonte que a corrente inicia
onde os deuses bebem sua velhice esplêndida
facilitando a seu rosto imarcescível a harmonia.

Montanhas, vales, altas planícies;
neves perpétuas e permanente gelo
sólida coluna, altivo Tíbet,
lugar em que se assenta o firmamento,
morada perpétua da divindade
onde os rios tem seu começo.

Lhasa (Tibet)

CINCO

Primeiro o ar, o vento, o espírito,
depois a água, o mar, a líquida planura;
em terra do Oceano, pescador de Alotau,
o homem foi papua.

Forte, destro, lúcido, magnânimo
alinhou-se em tribos inimigas
e vieram os comerciantes de escravos.
O mar trouxe o bom,
mas também o mau.

Muralha, mar, és muralha;
és barreira e és ponte,
tua união consumada com a terra
tão adentro, tão profundo, tantas vezes
produziu o germe e a essência,
primeira raiz do vivente.

Escondes em tuas arcas maravilhas
todas as feituras e cores existentes
qualquer forma de vida.
Alaridos famintos de amizades,
insone de amores descumpridos,
em leito de facas tempestades
queixas de solidão no teu retiro
ondas altas, braços de gigante.

Sentes-te sozinho, mar, abandonado,
te invadem comerciantes e guerreiros
a habitar-te o homem não se arrisca
ouro e prata naufragam em teu seio.
Sobre ti jamais galoparão potrinhos,
não verás abelhas polinizando flores
nem aves do paraíso adornando remoinhos.

Darias cem vezes a linha horizontal de teu horizonte
por banhar linhas avariadas onde se põe o sol mortiço,
a metade dos ventos que te sopram
por curvar meandros como o rio
vendo florescer o inhame glauco
palmeirais de sagu,
a mandioca dos campos;
inclusive a beleza da vela
cheia do sopro que a empurra,
entregarias
porque uma gazela comesse a erva nas tuas falésias
ou por sentir os cantos singelos das aves
palavras das mil línguas papuas em teu ouvido.

Prefiro-te indeciso,
mar;
titubeante, instável, movediço;
assim te precisam o vento,
a chuva, a terra
e o inconsistente equilíbrio.

Alotau (Nova Guinea)

SEIS

“Os Makondes
na Costa Índica terão sua morada,
para os Sukumas reservei o Victoria imenso
no Nordeste montanhoso se situarão os Sambas
os Nyamwezis ocuparão o Centro,
viverão os Mbugwes contíguos ao Maynara
e aos Chaggas corresponde o Uhuru recio”.

“Compartilharão os peixes com a águia que pesca,
a caça com as vigilantes rapaces,
e com as girafas as folhas cimeiras
dos elevados árvores;
os pastos com gazelas, antílopes e zebras
a água com todas as espécies
e respeitando o que lhes rodeia
viverão em harmonia permanente”.

“Culmina minha obra a regular cadencia
que ordena os ciclos do Sol e da Lua,
define da semeação a época
e distribui os calores e as chuvas
propiciando o crescimento da erva”.

Aliado do búfalo, do leão e o elefante,
o pastor Masai da planície extensa,
amigo do frondoso árvore banto,
de zulus, árabes e persas,
leva a mensagem de Ngai pela savana
escutando os bramidos do amor e as respostas,
carniceiros e vítimas caladas.

Entre o búfalo e o gnu abrevam vacas,
cabras, ovelhas;
ao lado de crocodilos e hipopótamos,
junto a oryx, topis, javalis, macacos, impalas, hienas.

Mas o proceder malvado dos homens egoístas
ladrões da natureza inerme
destrói pouco a pouco a harmonia.
Fome, guerra, peste e seca,
como folhas de erva segam vidas
e por velhos fuzis e umas poucas moedas
compram as enormes riquezas dormidas.

Que te fizeram!, África;
e que te fazem!;
que já não te ficam lágrimas
que já não te fica sangue.

Nairobi (Kenia)

SETE

Coroando a Serra
dita do Sapoio
cume de imutável rocha,
com o pico de pedra e as garras de pedra
a águia imperial
chamada ibérica
cinzelou sólido e elevado
um ninho de pedra
e chamou-lhe Marvão.

Ali emparelhou a águia,
macho de pedra com fêmea de plumas;
ali, pedra e pluma, as aguiazitas nasceram,
ali se fizeram fortes,
ali se fizeram ágeis
e planaram à procura de presas.

Os invasores, armados até os dentes:
picas, ferrões, setas, lanças,
não puderam ocupar Marvão,
porque as águias
-temor a perder o favor da espécie
e fervente independência-
pluma, pedra e denodo,
uma e outra vez o impediam
refreando os intentos todos.

Exércitos bem apetrechados sucumbiram
cobrindo as ladeiras de cadáveres:
olhos arrancados e carne viva,
fumegantes
cinzas .

Assim sucedeu
até que irritado
chegou o romano Júlio César,
astuto geral
estrategista audaz esperto em tretas.

Deixando encobertos escolta e soldados
subiu ao ninho alto, trepou à alta pedra;
uma mão sujeitava,
balindo, um cabrito trémulo,
e a outra, ondeante,
içava a bandeira branca dos parlamentares.

Sobre o palanque falou às águias receosas:
elogiou a pluma frente à pedra
elogiou a pedra frente à pluma.
semeando o orgulho em ambas
semeando em ambas a inveja.

Na primavera ensolarada e fecunda
entre a diligente pluma e a pedra enérgica,
cresceu vigorosa a discórdia.

Avançava o outono a passo cauteloso
porque as tigelas de recolher ofensas transbordavam
quando o pico e as garras de pedra
desafiaram às plumas alares e caudais,
à penugem envolvente.

O duelo originou a separação mais radical:
águias de plumas que não podiam defender-se
águias de pedra incapacitadas para voar.

Se servindo de tal estratagema
os romanos conquistaram Marvão,
estratégica atalaia na proteção da calçada
-nexo de Santarém com Cáceres
aprazível rio Sever
ponte de pedra da Portagem.

PSdeJ Marvão (Portugal)

OITO

Celebradas sejam
as propícias
ondas,
abertas ao talha-mar de roble,
e os ventos que inflamaram as velas de baixéis egeos,
mineiros do cobre
que até aqui vieram.

Nos sulcos abertos na terra parda
nas cinzentas ladeiras, nos pedregosos páramos
e em arroios de férteis ribeiras,
se misturaram bem misturados
os iberos com os celtas.

Aqui gregos e fenícios,
aqui romanos,
visigodos e árabes
se misturaram.

Aqui o sangue,
aqui a medula,
aqui as células nervosas
e as chaves da herança,
explicam porque há tantas
e tão subtis diferenças.

Com meu apelido catalão,
de origem andaluz,
sou castelhano;
e Castela não seria sem astures
galegos, leoneses, bascos,
sem os moçárabes do sul
que repoblaron o Duero devastado.

No fosso, pedra;
resistente adobe dos alicerces ao telhado,
e acima telhas de argila cozida
restos da cultura que os árabes deixaram.

Vieram de visita,
conquistadores,
ficaram um tempo,
e conquistados se foram.
Balanço equilibrado,
de todos aprendemos,
a todos ensinamos.

América, América, América,
ouro e sangue
em troca da língua.

Língua ibera, antes grega e latina,
língua estendida que evolui e perdura,
“que boa língua herdamos dos conquistadores torvos”
pensamento escrito com as palavras castelhanas de Neruda.

Palencia (Espanha)

NOVE

Se forçadamente tivesse de assinar com um nome
gostaria de chamar-me
simplesmente James;
esquecendo apelidos que situam,
especificam, acrescentam,
explicam origens e discriminam.

Sento-me orgulhoso de meus paisanos,
empreendedores de qualquer época e condição,
porque eles nos situam no caminho do progresso.

Meu louvor é para Jhon Kay e sua lançadeira volante,
destinada a duplicar o rendimento dos teares obsoletos;
louvor ao barbeiro de Lancanshire
que com seu Water-frame melhorou a qualidade do algodão filado;
glória a Hargreaves e à Spinning Jenny,
capaz de produzir oito, dezesseis, cem fios ao mesmo tempo.

Elogio ao maestro de forja Abrahan Darby
por sua ideia de utilizar o coque em fundição;
descubro-me ante Wilkinson, Trevithick, Stephenson
e tantos outros inovadores britânicos
que com seu talento propiciaram a chegada da modernidade

Eu te engrandeço,
inefável James Watt,
e pondero tua ciclópico braço de vapor;
glorifico aos mineiros
que desenterravam os imprescindíveis minerais;
aos insistentes projetistas,
pensadores que criaram a produção em série,
e aos comerciantes intrépidos
que sulcavam os mares do Almirantado
trazendo matérias primas
e levando produtos elaborados.

Porque padece desproporção entre tristezas e deleites
à sofrida classe operária dirijo
minhas palavras de comiseração;
sua vida é um breve lapso cheio de conflitos,
habita cabanas
empurra o mundo sem quase repouso
mau come
e compartilha a escassez com o resto dos animais.

Graças às Friendly Societies
e às Trade-Unions
a jornada fixou-se em oito horas de tarefa,
o lazer e o sonho dispuseram a cada um de outras oito
e chegou aos oito xelins o salário.

Me descubro ante os navegadores
que percorreram o mundo,
levando até os últimos confins
nossa cultura do ovo cozido e do chá das cinco,
o idioma unificador -nascido de celtas,
romanos, teutões, escandinavos-
e uma grande variedade de cakes.

Declaração que assino e rubrico em Londres,
eu
James.

London (United Kingdom)

DEZ

Rómulo,
confesso fratricida,
das aleatórias formas que a seu voo dão os pássaros escuros
recebe uma glória imerecida.

Transgressor de leis humanas e divinas
– especificamente, suas normas mais recentes-
sacrifica no altar cruento e em singular comida
aos bois que o termo da cidade convêm,
raptando a milhares de sabinas
para que vagabundos semeadores de ventres
gerem nelas uma plebe aderida,
se convertendo a sua morte em deus Quirino
adorado por romanos,
venerado por sabinos.

Percorro Roma tão nomeada,
e nas colinas salpicadas de gloriosos indícios
espanto com firmeza gatos de infrequente talha,
descendentes de leões e tigres dos Circos.
Vigiam relíquias, despojos, sedimentos
estátuas, panteões, obeliscos
obras públicas e fastuosos monumentos
erigidos ao ditado de insignes ditadores:
adustos pontífices,
montarazes imperadores.

Quando cruzo a arborizada Piazza della República
o céu se cobre de negros estorninhos
que em seu voo agrupado compõem tornadiças figuras:
sobre o azul três negros escudos
protegem sendas torres custodias
e três cavaleiros equipados de armadura
cavalgando potros de Anatólia
as defesas derrubam na altura
com o extremo endurecido de sua lança impetuosa.

A imaginação relaciona ao acaso os palcos
e ao ver as desfiguras
sugere Lisboa um vinte e seis de abril, quando um mendigo,
sentado ao pé de um rei de bronze a cavalo
-rua, praça ou largo-
limpava suas unhas com dentado bisturi;
ou translada-me a Genebra perto do lago
onde vivi cem dias esplendentes que se fizeram mil.

Centuriões e bispos,
os valorosos exércitos imperiais
acumulam um cansaço de séculos;
elevam a espada ou a cruz sobre proclamas
-conquistadores divinos-
e entram feros nos bairros
libertando as almas de milhares de corpos desnutridos
demasiado débeis para correr em retirada
exemplos forçados de heroísmo.

Depois de dois milénios de firme avanço cívico,
se sustenta o desenho:
decretam os patrícios,
obedecem os plebeus.

E não seria diferente
de ter vencido Remo.

Roma (Itália)

ONZE

Levanta o voo a rainha das aves
estende majestática suas asas
e consegue o céu a grande velocidade
alçando-me em suas garras.

Com a mirada abarco o esplendor heleno:
história, geografia, mito;
resumido nas sete colunas
do templo de Apolo em Corinto.

Memória das pedras submetidas por Fídias
liberdade frutificada,
democrática semente;
o terrenal com o celeste em convivência
Livadia e Olimpo
arroio Ismenos, colina de Cadmeia
libertando-me, o águia,
com suavidade se assenta em Pindhos.

De pão terno é o aroma suave que desprende
Ioannina nua na hora do banho,
recostada e lânguida, os pés
nas sombreadas águas do lago,
disperso o cabelo,
apaixonando
aos ditosos que Ípiros caminham,
lhes mostrando a cidadela e as bordados
cúpulas das mesquitas, esbeltos minaretes
residências rodeadas de jardins
plátanos, ciprestes.

Esposa prisioneira no harém de Alí Bajá,
para libertá-la do tirano
dou meu braço jovem,
ao serviço da cruzada ponho meu espírito romântico.

A matança de Kéos
cheia de indignação meu ânimo
a destruição de Missolonghi inflama de raiva meu peito,
acompanho-vos amigos na batalha
que impedirá a compra deste país ao varejo.

O disseminado mundo grego reage
recordando o esforço de Milcíades, Temístocles, Leónidas,
de Epaminondas e Trasíbulo,
em memória de Maratona e as Termópilas.

Com Byron na palavra e nos feitos,
com Shelley avanço.
Ioannina libertada beija minha bochecha,
vou com Müller da mão,
Brün, Victor Hugo, Lamartine,
e repleto de entusiasmo
-oráculo em Dodona-
auguro perpetuidade ao povo que recebe
apoios tais e tantos
e à cultura que conta com tantos e tais paladinos.

Ioannina (Grécia)

DOZE

Sabra de espinhas na pele,
coração terno,
após tantos anos
em mim mesmo inquiro.

Quando falamos do nosso,
de que país falamos?
-ashkenazim, sefaradim, yemenitas,
iraquianos, curdos, persas, bújaros, afegãos-
se as múltiplas origens
somam em total setenta e quatro.

De que idioma falamos, quando falamos do nosso:
árabe, ladino,
iídiche ou hebreu;
quando falamos do nosso, de que deus falamos:
de Javé, de Alá ou
do Deus dos Cristãos;
e sua palavra, seu verbo,
é o Talmude, o Alcorão
ou o Evangelho?

O ódio
é a memória amarga das feridas,
e o amor -última gota de água cedida no deserto,
salvadora de quem deseja arrebatar-nos a vida-
é favor sem condições,
habitantes diversos de Israel com as gentes vizinhas;
o amor exige factos, pede obras, abertas vontades
fontes que manam águas limpas,
Jordão e Tiberíades.

Do Ódio até o Amor
há um abismo sem pontes
que os bandos em pendência
preenchem com os cadáveres
duma enorme multidão de inocentes.

Me pergunto nos dias sombrios
se do fuzil ou da atiradeira não fazemos ferramenta,
profissão, oficio,
imprescindível dogma
e heroísmo;
se não transformamos a guerra
cristãos, muçulmanos e judeus
em fim que leva os demais
para o olvido.

Jerusalém (Israel)

TREZE

Desde que eslavos e Varegos deram corpo aos russos
aqui está Nero degolando supostos incendiários
aqui Herodes perseguidor de inocentes;
seja Gêngis Khan, com seus mongóis da Horda de Ouro,
quem arrecade os tributos,
os Ivan em declive ou os Romanov no brilho,
chame-se o czar como se chame,
os servos correm dum lado a outro perseguidos.

A informação anónima confirma,
que o camponês,
nem colabora com entusiasmo nem se presta a experimentos,
desconfia do soviete de sua aldeia
carece da necessária vontade, lhe falta ferro.
Em três palavras a questão resumida
segundo consta em seu expediente
trata-se dum revisionista.

São cinzentas as noites brancas de San Petersburgo,
e a chuva é ácida.
Os resíduos -sólidos, líquidos ou gasosos-
que a indústria tem gerado para o povo,
como rajadas de metralhadora
espalham seu ração de morte,
cobrindo de pó branco os hirtos corpos,
os grupos de dança
e os museus.

Declamando histórias de fomes e de frios
mendigos verdadeiros e mendigos falsos,
imploram uns kopeks para pão ou vodca
nas luxuosas estações do trem subterrâneo.

Em Nóvgorod, bairro de Santa Sofia,
com atenção escuto
ditas nas cento sessenta
línguas das repúblicas livres,
orações carregadas de fé e de pessimismo
cantos dos condenados mortais
seus lastimosos prantos
em sucessão desoladora de agudos e graves.

No arranque era o homem,
partamos pois desde o princípio;
e o homem cultivava uma parcela comum num mir solidário
onde a cada qual conhecia a seus vizinhos,
quadrilhas recoletoras de frutos maduros
e gavelas de trigo.

Homem e mulher em sua cópula engendraram
uma ilusão equidistante da realidade e a utopia,
a um lugar propício dirigiram seus passos
próximo ao mel das colmeias
e às enchidas ubres do estábulo.

Convém analisar o percurso;
procurar as falhas do processo
o mal-entendido da profecia
a interpretação errada do prospecto.

Ascendamos
degrau a degrau muito atentos,
porque após os ensaios
o vento sempre troncha ramos secos
que a inundação arrasta até as pontes
e os arcos de pedra se derrubam
com os troncos que empurra a corrente.

Moscovo (Rússia)

 

E.- Amor, pilar do Universo
—A vida amanhecendo
2—Amar, amar, amar
3—Naufrágio
4–Límpida confusão
5—A perfeita união dos cinco elementos
6—A vitória do deseo
7—O mito da amada
8– Ode à mulher madura

 

 

1.. A vida amanhecendo

És Amor,
um potro selvagem, uma catarata
de queda profunda, um vespeiro,
um gatinho manso,
um arroio pequeno.
E todo isso sucede
no mesmo momento.

São tuas carícias como pontes,
como infinitos caminhos;
são como espelhos,
como espelhos transparentes tuas ausências;
são como plumas,
como plumas etéreas teus silêncios;
são de chumbo candente tuas feridas,
cicatrizes curtidas do recordo.

Bem-estar lúcido e torpe,
jubiloso dor,
horizonte detrás do horizonte,
manancial de dita e inquietação;
mágica palavra:
Amor.

Em minha noite te sonho azul e fogo,
amor de amor apaixonado
em minha noite te sonho,
safira ao vermelho alvo.
**

A primeira gota de chuva foi um copo de neve
o frio teceu meu sonho gris na neblina
era inverno
estava só, e tremia.

Me tem a noite encurralado
me tem atado e não me solta;
me tem cercado,
entre as cordas,
sitiado na memória
jasmim, pedra e cobra.

Quando brotam de teus olhos
torrente, arroio, rio
tuas lágrimas já são minhas.
Não posso improvisar uma barreira
dias de ira
vão a meu coração tortuosas
sombras líquidas
e o afogam.

Minha muito amada
minha idolatrada
doce apaixonada,
teu futuro: idade fecunda
e furacão altivo:
dolorido sentirei
em meu espelho refletido
aurícula e lábios
feliz destino.

Qualquer ferro
qualquer fogo
qualquer calcada profunda de cavalo
em qualquer deserto
de qualquer inferno
serão por mim, em teu lugar,
sofridos
afiados ciprestes
sem suspiros.
**

Joelho em terra te vi na fonte bebendo a água,
tigela impossível
das mãos cálidas;
te achei de novo sentada em corro com as vizinhas
quando bordavas
o enxoval de noiva na entardecida;
voltei a encontrar-te na festa alegre da patroa
e dançamos sem repouso
até o alva roxa.
**

Sobre as pegadas ténues
de teus pés nus na praia
sobre a branca espuma
que borbulha a testa das ondas
quando te banhas;
sobre a suave brisa e o dócil vento
que beijam a harmonia da tua cara;
sobre a eternidade de teu sonho
sobre o eco azul de tuas palavras
sobre nosso amor antigo e novo
quero edificar
firme o vindouro.
**

Rapaz imberbe e espantadiço
perseguiam meus olhos sua presença
um dia e outro dia à porta da casa
um lugar e outro às seis da tarde.

Olhou-me entre curiosa e encrespada,
assim que sacando forças de fraqueza l
abri meu coração apaixonado.

Um pedestal situei baixo seus pés
a converti em estátua grega ou romana
mas o desdém caiu sobre meu coração como uma lousa.

Mares naveguei,
estendi guerras contra inimigos incógnitos
e cansado de dar coices contra o ferrão
me retirei aos montes
fixando minha residência numa gruta de raposos.

Comi raízes
bebi água encharcada
e vendo a grandiosidade do céu estrelado
achei a verdadeira calma;
de modo que o proceder retraído
me deu fama de santo.

Numa procissão de peregrinos,
tão formosa como a primeira amanhecida
sem me conhecer se acercou a minhos andurriais.

Foi vê-la e recordá-la,
recordá-la e acordar
uma tormenta de raios e trovões
que dormia.

Sua presença rompeu minha vontade
e meu sossego,
voltando a mim o desejo impulsivo
a modo de centelha ardente e luminosa.

O eremita santo que a seus olhos era
foi aceito por seu abrandado coração
e ficou a meu lado numa gruta de lobos
prometendo a Deus
silêncio e castidade para me imitar.

PSdeJ Valladolid e Barcelona 1969

2.. Amar, amar, amar

Amar para viver,
considerando o amor fonte de vida;
ou viver para amar,
sendo o amor o objetivo;
eu não acertava a resolver a disjuntiva.

Ante essa dúvida do todo irresolúvel,
perdendo um tempo do que não andava sobrado,
em tão enredosa encruzilhada me detive.

A minha idade provecta
no horizonte unem-se Thánatos e Eros,
opostos só em aparência.

A apetecível e dificultosa vida,
o desconcertante e prodigioso amor
e a morte tão difamada e tão temida;
formam os três lados do triângulo existencial,
os três ângulos, as três bissetrizes
aos que o homem afundado se costuma aferrar.

O estímulo foi antes que a nada primigênia,
na intrigante e aleatória formação do Universo.
O estímulo;
e todo o demais,
depois:
as rochas e as árvores, as palavras e os fatos.

E aí, nessa terra nossa
copiosamente abonada da excitação,
minha fêmea humana de formosura plena,
destaca teu erotismo em inteira floração.

Aí brilhas, minha marinheira intrépida,
resplandeces aí, minha fêmea impudica,
no estímulo refulges,
minha adorada mulher madura.

Tua paixão agita o calendário,
põe nos dias em bicha e os faz correr a teu ritmo,
estimula meu imaginação,
acelera os processos evolutivos,
agita as hormonas,
força a vontade até o ponto de ruptura,
e desenha,
ajustada à intensidade dos desejos,
uma nova escala para medir a felicidade.

Somas essas habilidosas práticas,
já fortalecidas,
às faculdades cedidas pela natureza:
o desejo de superação,
a inteligência,
a sinceridade,
a capacidade de luta,
a fortaleza de ânimo e a facilidade criativa.

És a brisa no deserto,
o orvalho no deserto,
a água no deserto,
o palmeiral no deserto.
És o oásis no deserto,
e o deserto convertido num enorme oásis.

Semeiam minhas palavras teus ouvidos,
fêmea ativa e pressurosa, minha amada intemporal,
noites cálidas ou frias
quando a luz do farol alumia a estância
e o relógio do campanário rompe o silêncio
para dar as doze da noite a médio dia.

Oh!, minha provisora de tâmaras e leite de camela,
de sombra fresca e água cristalina;
oh!, minha poetisa alumiada,
meu doce flautista,
sem ti,
que triste seria o mundo,
que feia a vida.

PSdeJ Barcelona e Palma de Mallorca 2010

2.. Amor, amor, amor
Poema de PSdeJ traduzido ao catalão pelo autor.

Estimar per viure,
considerant l’amor font de vida;
o viure per estimar,
sent l’amor l’objectiu;
no aconseguia resoldre la disjuntiva.

Em vaig detenir davant aquesta dificultat precisa,
perdent un temps de què no anava sobrat
per titubejar en la cruïlla.

A la meva edat vella
en l’horitzó s’uneixen Eros i Tànatos,
oposats només en aparença
només en aparença enfrontats.

L’agradable i penosa vida,
el desconcertant i prodigiós amor
i la mort tan denigrada i tan temuda:
formen els tres costats del triangle existencial,
els tres angles
les tres bisectrius
als quals l’home enfonsat se sol aferrar.

Perseguint el regal voluptuós,
a més del desig urgent,
es precisa un estímul que sustenti el foc;
sense estímul, el desig s’apaga:
flama feble enfront del vendaval.

L’estímul va ser abans que el no-res primigeni
en la intrigant i aleatòria
formació de l’Univers.
L’estímul;
i tota la resta,
després:
les roques i els arbres,
les paraules i l’acció.

I aquí, en aquest terreny
tan copiosament abonat de l’estímul,
la meva egua de precioses anques,
la meva cérvola en zel,
tu, destaques.

Aquí brilles, la meva marinera intrèpida,
centelleges aquí, sensualísima femella,
en l’estímul enlluernes,
la meva adorada dona madura.

La teva passió agita el calendari,
posa els dies en fila i els fa córrer al seu ritme,
estimula la meva imaginació,
accelera els processos evolutius,
agita les meves hormones,
força la voluntat fins al punt de ruptura,
i dissenya,
ajustada a la intensitat dels meus desitjos,
una nova escala per mesurar la felicitat.

Sumes, sensible adolescent,
aquestes pràctiques mestres,
ja enfortides,
a les facultats aportades per la natura:
l’afany de superació, la intel.ligència, la sinceritat,
la capacitat de lluita,
la fortalesa d’ànim i la facilitat creativa.

Ets la brisa en el desert,
la rosada en el desert,
l’aigua en el desert,
el palmerar en el desert.
Ets l’oasi en el desert,
i el desert convertit en un enorme oasi.

Dona activa i esforçada,
estimada intemporal,
les meves paraules sembren les teves oïdes,
nits càlides o fredes
quan la llum del far il.lumina la cambra
i el rellotge del campanar trenca el silenci per tocar les dotze.

Oh!, la meva proveïdora de dàtils i llet de camella,
d’ombra fresca i aigua cristal.lina;
oh!, la meva poetessa inspirada,
la meva dolça flautista,
sense tu,
que trist seria el món, que lletja la vida.

PSdeJ Barcelona e Palma de Mallorca, 2010

3.. Naufrágio

Distanciada dos alcantilados espumantes
minha barca navegava na bonança;
eu içava as redes enchidas
e ao leme ia a amada.

Escureceu o dia de improviso:
nuvens de colérica negrura
foram ocultando o céu azul
e com a força dum milhar de terramotos
arrojaram à amura de bombordo
um empurrão ciclópico:
água, violência, luz, negrura:
isso era tudo.

Opostos os deuses a minha felicidade terrena
descarregaram estocadas de gigante,
a sacudida fatal duma galerna.
Aceitou minha frente reflexiva
os desmedidos embates das furibundas ondas,
inúmeras torturas resistiu meu peito amante,
dentro da pele rangeram comprimidos
os duros ossos vertebrais,
e o mar foi dor e confusão
nos inícios pasmosos do ataque.

Como pluma se alçava minha chalupa obrigada pelo vento
forçada a percorrer o espaço num instante,
a subir ao zênite e descer até o nadir num momento.
Enfrentaram-se na vertical da rompente
madeira contra pedra em desigual batalha,
proa e popa alternaram sua investida
convertida em brinquedo a chalana.

Não teve debilidade nem imperícia,
resisti quanto as forças resistiram
enquanto a mão feminina prolongou minha mão,
até que a vida de minha amada foi arrancada da vida minha
e me transformei nos restos do naufrágio.

Aonde irei com minha ternura
aonde com as palavras doces
e todas as caricias que encontravam em minha amada sua fortuna?
que verões alimentarão de esperança
o resto dos invernos de minha vida?,
onde acharei sossego, onde refúgio
quando os muros de minha casa
e o manhã sonhado têm sucumbido?

Acurralado pelo desconsolo que a solidão me lavra
procuro a minha amada no pedregal da rompente,
na disgregada intimidade das escarpas.
A procuro no centro do furacão furioso
no fervente coração da tormenta,
no golpe de mar que a arrancou de meus braços e meus olhos.

Subido ao infranqueável paredão da tragédia
a mirada cega, os ouvidos surdos, o entendimento confundido
exânime,
exangue,
extraviado o Norte que marcava a derrota a meu destino,
lanço ao céu o sangue fluente da ferida
e me reúno com minha amada na profundeza anil do precipício.

PSdeJ Cornwall 1985

4.. Límpida confusão

Ouço o relincho desse cálido sopro
que do Norte vem e no Olimpo dos deuses
o disperso Eolo chamou Noto.

És tu,
inicial
preliminar,
quem chega diáfana e rosada,
rapariga estremecendo
a inexperiência humana,
alazão o vento,
cavalgando rápida.

Já estás aí:
em teu dia recém amanhecido,
primavera de tuas ânsias
com a expectação sem limites,
empurrando a porta
que desde o jardim abre a casa.

Vens para ser
ferramenta essencial
da fertilíssima natureza:
fonte, arroio, rio da vida;
e alinhavar os descosidos da minha longa espera.

Vislumbre sou no espelho de tuas dúvidas,
obelisco de névoa na intercepção de caminhos;
quebrantadas promessas
e desvinculados compromissos.

Só, sem ti,
na obscuridade de tua ausência prolongada,
vazio desse brio promissor do efeitos positivos,
sou incapaz de ser
quem em realidade
sou.

Sem ti sou
quem não quero ser
e, às vezes,
nem sequer isso.

Somente em ti:
espaço, tempo, ideias, propósitos,
vontade e atrevimento;
ser humano, fêmea de lábios nutrícios,
peitos vaidosos
e cabelos em cascata sobre os ombros
nus;
só em ti sou eu,
o eu herdeiro de meus antecessores sucessivos,
sentimentos tão puros
como a aurora do dia inaugural.

Cresce em ti minha consciência de existir,
de ser, de poder,
de ir desde oriente para esse ocidente que me orienta.
Tua complexa simplicidade,
tua diversidade ingénua
definem em mim essência e existência,
as individualizam
livrando-as de solidão
e os dolorosos rompimentos
consequentes.

Voo nos lombos da tua esperança confiada,
vou a ti, incólume,
vencendo a lei da gravitação universal
que nos atrai e nos separa,
espaço-tempo curvando-se,
na infinita eternidade do cosmos movediço.

Unicamente sou eu
nesse amoroso sorriso teu
compreensivo
das minhas insuficiências e excessos,
desequilíbrio
que somente tu estabilizas.

No teu interior, na fundura,
na profundidade de teus convencimentos
encontro fundamento firme
e sou
quem eu quero ser
trás o esforço
de elevar-me e elevar-me
desde o solo.

PSdeJ Salvador de Bahia 2015

5.. A perfeita unidade dos cinco elementos.

Ar, água, terra, fogo e tempo
te tinham ido fazendo
tal como eras,
 primavera do ano sessenta e oito
albergue juvenil da rua
Ville-l’Évêque
 semi-esquina a Malesherbes
huitième Distrito Madelaine Paris
como tempo e espaço do encontro.
Nascida em Salvador de Bahia,
mulata de todas as culturas
a humana mais humana
que um jovem pode amar.

Em teu colo, que algum deus grego
perfilou a imitação de Fídias,
entre teus cabelos, finíssima cascata, selva,
incrédula minha boca
encontrou
a imaginada placidez eterna.

Arrependo-me ainda
de não te ter compreendido
mais que a fragmentos e às vezes,
às vezes e a fragmentos,
parcialidade insuficiente
delatora de minha falta de compromisso.

Penetrava, no recinto sagrado de teus olhos,
a intensidade de minha mirada,
e percebia o lume
surgido inexorável
com a intenção de incendiar meu caderno
de pensamentos
impuros
rosa dos ventos liberadora de ondas invisíveis.

Uma noite dos dias aqueles,
à hora crucial da madrugada
-inverno retirado a seus quartéis-
inauguramos a nova primavera,
poética, florescida e luminosa,
momento original
da Natureza, estabelecendo ainda
a Ordem no interior do Caos.

Saíam chispas, recordas?
do choque das placas tectónicas,
rios de lava, pão vulcânico
labaredas,
refúgio convertido em biblioteca
poemas abertos de Neruda,
força e sensibilidade o chileno
nas palavras que me iam fazendo
poeta a base de vivências, leituras
e escrituras reiteradas.

Saboreávamos um poema dos Vinte de Amor
e arrancávamos a página, sentados os dois em almofadões
que ablandaban a firme dureza do solo.
O recordo, como não recordá-lo!
se ao atingir a Canção Desesperada
nos abraçamos chegando
à horizontal, leito de folhas que exigiam sua liberdade
aos ramos em todas as florestas.

Te amaram
as frutas tropicais em seu ponto de madureza,
as verduras da tua horta, as águas impetuosas
dos arroios.
Os símios que jogam a ser humanos
nas copas
elevadas das árvores mais altas,
e os pássaros canoros de plumagens amarelas
te amaram. Inverno y verão amaram-te. Outono
e primavera, e a Natureza inteira te amaram.
Carbono intenso do diamante,
esmeraldas
de verde vegetal, as nuvens, o vento,
meus braços, meu peito e meu amor
te amaram.

Bebemos, sedentos e famintos,
o cálice até as fezes,
recebendo com deleite
a gota última.
Sangue derramado de minha ferida
no sacrifício cruento,
sacerdotisa tu,
e eu vítima propiciatória.

Página a página
te via meu amor
esfolhar o livro da vida
em teu sorriso aberto
sobre a perfeição de teus dentes
lábios carnosos,
carnais,
devorando os descompassados
interlúdios
do tempo soberano.

Sim, é certo,
o tempo, imprescindível cúmplice,
esperou
o termo da íntima conjunção
para prosseguir seu caminho
segundos, minutos, anos, séculos,
que nosso encontro
tinha conseguido manter cativos.

PSdeJ París 1968, El Escorial 2017

6.. A vitória do desejo


Quarta Graça de Rubens,
caminhava Leda, primavera adiante,
mostrando sua beleza rotunda
entre as transparentes dobras
do tecido intangível que,
Rainha recém desposada, vestia.

A floresta alumiada alumiava o dia,
a Mata Atlântica, o remanso do rio,
o rumor da corrente
e os cisnes,
Branco e Negro,
que ali, plumagem impermeável, se banhavam.

Livrou-se Leda das insubstanciais vestiduras
para não as molhar,
ficando quase
tão nua como quando ia vestida.

Leda apaixonou aos cisnes
dos que se apaixonava
sem propósito definido.
Oh, suas plumas límpidas. Oh, seu pescoço
de curva interrogante,
seu elegante mistério.

E os cisnes lutaram entre eles
com todo o desejo de sua força,
com a força toda do desejo recém surgido.
Cabelos, rosto, ombros
dorso, braços, peitos
o nácar de mil caracolas na pele rosada:
pança, nádegas, coxas e a misteriosa
conjunção copulativa que acordava
do longo sonho de castidade devida
e ao esposo ausente reservada.

Branco e Negro
lutaram pela conquista
da escultura viva de mulher,
bicadas
grasnidos
e fortes puxões dos pescoços enlaçados.

Os dois Cisnes, machos amigos da alma,
senhores da formosura animal,
das harmoniosas linhas,
se inimizaram pelo afã reprodutor
que pôs Natureza em seu interior mais íntimo.

Venceu Cisne Negro
e Branco
fugiu,
fugiu,
fugiu
a toda
pressa,
bicando seu orgulho enrugado
as desfolhadas penas
as asas desgalhadas,
o pescoço desplumado
a perfeição murcha.

Leda, testemunha da violenta disputa,
vivia os momentos com agitação virginal,
enquanto os desejos, tanto tempo reprimidos,
iam desatando suas ligaduras,
despregando as dendrites,
sensibilíssima sensibilidade,
umedecendo a pele interna
com um mel tão líquido como
a água que recebia o excesso.

Foi ali, no estanque das mil delícias,
onde o Cisne triunfador,
brilhantes as penas pretas,
esclarecidas com sua própria luz até atingir
o alvo imaculado,
se acercou à mulher de simetria perfeita,
figura de suave e firme pele nacarada.

Esperava-o Leda ansiosa e tímida,
assinalando, mais que cobrindo,
com as mãos, sua intimidade trémula:
peitos altos, coxas duras na fusão
esponjada, ressumbrando melífluos desejos.

Não era humano Cisne Negro, porque era
o Pai Zeus, deus de deuses,
encarnado em cisne para possuir Leda
e apropriar-se da intacta pele de nácar
dos peitos altos
da sua anelante virgindade
do desejo e o prazer transbordantes
desbordados.

No instante supremo da Cópula
enérgico e doce se ouviu
o Hino profano que titulou Eros:
“A vitória do Desejo”, composto
por Händel, Afrodita, Apolo e Himeneo
para ocasião tão memorável.

Essa longa e esplêndida sinfonia
de ritmo volúvel e instável
que parecia ressuscitar com crescido vigor
após os silêncios
teve o efeito de acordar
em mim a autocensura
e me evitar a complexa descrição
de tão cativante encontro.

Mau menor
pois a imaginação de poetas e pintores
a debuxou
em todas suas variantes possíveis
durante os longos séculos decorridos.

PSdeJ Vitória ES Brasil 2015

7.. O Mito da amada

Ser homem, mulher,
jardim em sombras tu,
Utopia;
ser homem, mulher é te encontrar
entre as cem mulheres com que me cruzo a cada dia;
e saber que és tu,
ponto por ponto e sem a desconfiança mínima,
aquela dos sonhos imprecisos
das minhas noites mágicas e míticas.

Ser homem,
mulher, intensa penumbra tu,
exceção das regras conhecidas;
ser homem, mulher, é explorar-te,
extensão que teus limites amplia,
até atingir o confim insuperável
e ver que ali arranca o mistério e não termina;
pois essa mirada tua,
tão penetrante e sensitiva
debilita com a leveza de sua música
a minha fortaleza e a energia.

Ser homem, mulher, renovada esperança tu
duma inocência antiga;
ser homem, mulher, é conhecer-te,
e saber que possuis a chave da vida;
é atingir a eternidade num instante
ao receber de teus lábios a ambrosia.

Ser homem, mulher, raiz pujante tu,
de profundeza infinita;
ser homem, mulher, é precisar-te
e desejar voltar a ver-te, tácita e ubíqua,
ao outro lado do Oceano, no mercado de livros velhos
ou ao dobrar qualquer esquina.

Ser homem,
mulher,
terra de promissão tu,
chuva propícia;
ser homem,
mulher, é comprovar
que o mito da mulher amada,
essa realidade tão singela e tão diversa,
na convivência renovada
se debuxa e coloreia.

PSdeJ Madrid 1971

7.. Ode à mulher madura

Exórdio

Um bom dia cheguei a tua casa
minha amiga,
e tua casa era o campo
e teu campo tinha o horizonte posto
na Natureza toda:
terra fértil de cor avermelhada,
ervas, enredadeiras, arbustos de fruto comestível,
árvores reunidas em vegetal conversa
retas, eretas,
se elevando como frechas dirigidas ao infinito
desejosas de atingir um céu protetor
azul e cinzento que chovera agua tíbia
sobre todas as terras, sobre todas as plantas.

E sobre os animais
teus irmãos do bosque:
símios inocentes, cobras ondeantes
e pássaros cantores de cores diversas,
vivas, belíssimas,
filhos da música e o vento,
da pintada Aurora.
Espaço de liberdade que queres
sustentável e protegido, aberto ao viajante
que sossego procure.

Tendida entre dois varais do alpendre
havia uma rede ampla
onde cabiam dois corpos abraçados
que se mexeram unidos nas ondas
desse teu oceano cruzado de conquistadores
embutidos em armaduras subidas a cavalos
desorientados.

Na ombreira da casa
de tua ideia convertida em campo
portas de par em par abertas
janelas abertas de par em par
estava o colaborador imprescindível,
o tempo ativo,
partícipe necessário
do pensamento e da ação
da paixão e da cordura.

Me entregaste tua poesia em dois cadernos
manuscritos
filhos verdadeiros, irmãos de tuas pinturas e debuxos:
artista completa, toda tu criadora, inteira
e verdadeira, íntegra.
Eu levava na cabeça meu poema à fêmea madura
versos sensuais que ainda não tinham destino de mulher,
abstratos como a alvorada do instante primeiro
névoa cósmica inundada de luz primigênia.

E vendo-te ali, elevada em pedestal de deusa,
erguida silhueta circundada de luz,
luz escultora delineando teu perfil
teu corpo poderoso junto a tua casa aberta,
soube que eras tu a mulher madura, o poema era teu,
e a ti te tinha sido escrito.

O poema

Minha desejada mulher madura
fêmea plena e florescente
de carne frugal e entendimento reflexivo
és a deusa Hera,
esposa do grande Zeus;
e de teus peitos, ubre generosa,
brota a diário em espiral a Via Láctea,
galáxia formada por duzentos bilhões
de planetas travessos.

Filho do pai dos deuses e da humana Alcmena,
eu sou Héracles,
o herói que procura em teus peitos
a imortalidade vedada.

És Penélope, mulher;
eu sou o novo Ulisses, e regresso a Ítaca
cansado de guerras e aventuras enganosas.
Tudo é hostil,
muros de intriga cercam a casa,
os inimigos têm tomado posse do meu,
mas tua agredida fortaleza ainda resiste.

Teus peitos me reconhecem,
esposa fidelíssima;
identificam meu rosto, minhas mãos e minha voz;
teus peitos,
só eles,
sabem quem é este mendigo estrangeiro
antes de me ver entesar o arco e passar
a seta através dos doze olhos de machado.

Crê-os!,
teus peitos
mulher madura
conhecem a verdade
sabem que meu coração os quer esféricos e vaidosos,
minha tímida gazela, minha flor do Paraíso,
sabem que meu coração os ama impávidos e exaltados.

És Helena, mulher,
a espartana Helena;
teu perturbadora beleza seduze a deuses e a mortais;
eu sou teu esposo Menelao, rei consorte,
e se perdoo teu veleidosa conduta,
deves saber que à memória
de teus formosos peitos obedeço.

Mulher nascida da terra fértil e as fragorosas ondas,
teus peitos são o portentoso acerto da Natureza prática,
um mistério que os sete sábios de Atenas não poderiam desvelar,
um presente de Míron, um obsequio de Fídias.
uma doação de Policleto.

És Esther, a valorosa hebreia,
minha alígera corça, doce apaixonada,
minha senhora e rainha,
eu sou Asuero, o Rei,
cento vinte e sete províncias se inclinam ante mim,
as donzelas mais cobiçadas povoam minha harém
mas, unicamente, teus peitos
estimulante
vivificadora companheira,
enchem de festa minha vida.

Minha adorada mulher madura,
minha virginal donzela,
minha desejada
fêmea sensual e prazenteira;
teus peitos invitam-me, me convidam:
desde sua posição de privilégio me convocam
em banquete carnal imoderado.

Possuem uma titilação ictíaca quando os busco,
noturnidade marinha da areia fresca
túrgidos e altos na sua entrega pudorosa,
pálidos à luz da lua túrbida
perturbados pelos luzeiros esplendentes.

Fêmea total, minha animosa mulher,
marinheira de imaginárias singraduras,
teus formosos e erguidos peitos,
sólidos, firmes, resistentes, obstinados;
são o mascarão de proa e a proa intrépida
de teu corpo navegante.

Teus peitos, mulher, sabem a tâmaras
a papaia sucosa, a palmitos de sagu
a mango maduro, a amêndoa e a maçã;
teus peitos rotundos, meu inteligente e intuitiva
companheira,
sabem a glória.

São de absenta de noventa graus teus peitos,
de mandrágora e beladona,
fêmea soberana,
estrela polar de minha existência,
alucinógenos são,
certamente aditivos
e os bebo para suavizar por dentro
antigas cicatrizes ainda em carne viva.

A hiacinto cheiram teus peitos,
pulquérrima mulher,
a laurel, a estoraque, a mirto
a eucalipto, a sálvia
a madressilva e a magnólia;
aos aromas bravios da flora silvestre
e à substância fecunda do tornadiço mar salobre.

Os peitos da mulher madura são tersos e sensuais;
de dia cobrem sua timidez nua
de noite despem sua temerária ousadia.
Na penumbra se fazem fortes
alardeiam, me desafiam, me provocam
e os pezões se inflamam
pronunciando meu nome inominado.

Nada me atrai tanto como os esféricos, alçados
orgulhosos peitos da mulher madura,
lei da gravitação universal hostil e aliada.
Brilhantes estrelas que me fazem piscadas nas noites
escuras, quando o céu é transparente
e a vista cruza as enormes distâncias.

Sou um precavido a prova de razões,
e tudo o fundamento nos peitos da mulher madura
única realidade visível e palpável.
Deuses do Olimpo e Monte Olimpo eles mesmos
a seu cume subo para libar
minha diária
ração de ambrosia.

Admirável mulher, compendio de mulheres
baixo teus cálidos e harmônicos peitos
minha experimentada sagacidade descobre
um coração amante que aprecia o arrojo e a ternura;
uma vontade de entrega –filha, mãe e esposa-
levada a se esforçar pelos seus;
a grandeza de ânimo da mulher emancipada
oposta às diretoras bridas;
e o empenho social orientado à conquista
do direito a se expressar e atuar livremente
um dia, e outro e outro dia.

PSdeJ Salvador de Bahia 2015

 

 

F.- Descobrimento
1–Definición
2—Sua vida é sua obra, sua obra é sua vida
3—Praia de Camburi, espaço de arribadas
4–Morreu
5—Lavrar Profundo
6—A realidade imaginada
7—Uma longa noite no Sertão
8—Rapariga de Sacramento
9—Solta de pombas
10—Trabalhos de tradutor

 

 

1.. Definição

Isto que vejo
tão simples
tão complexo
tão uniforme
tão diverso
tão pobre
tão rico
tão escuro
tão colorido
tão árido
tão fértil
tão débil
tão forte
tão violento;
e ademais tão terno
tão sóbrio
tão exuberante e resistente;
isto e mais:
um conjunto de energias que somam
e restam,
um enigma intrigante que devo
interpretar
por mim mesmo;
todo isso e bem mais
que não vou compreender
nunca:
é BRASIL.”

PSdeJ Espírito Santo, Brasil 2015

2.. Sua vida é sua obra, sua obra é sua vida

No Solar da Ester,
Ilha de Vitória, Espírito Santo, Brasil,
trinta e um de janeiro de dois mil e treze,
se ouve, se vê, apalpa-se o júbilo da celebração.
Ester cumpre os oitenta primeiros anos de sua vida
e espera o resto com serena complacência.
Enchem a casa e o jardim exuberante, os amigos verdadeiros,
alguns trovadores da lisonja agradecida;
e pessoas que querem estar perto
para tocar o volante de sua saia
e receber uma descarga de otimismo

Há convidados que gostam da conversa amável,
do dizer sincero,
do entusiasmo contagioso
e de sua maneira de preparar os docinhos,
aprendida de Maria da Penha,
mãe solícita e mestra laboriosa.

Colibris no jardim projetando sombras móveis,
corria o ano trinta e três do passado século,
e terminava janeiro, terça-feira,
quando sucedeu o prodígio.

Não teve estrelas agourando
nem um trémulo Sol escurecido,
só um estalido
que partiu o dia em dois.
Desde então diz-se meio-dia
às doze em ponto
momento estelar em que Ester chegou
à fecunda terra capixaba.

Foi um relâmpago seguido de um trovão,
um sismo,
a erupção de um vulcão;
e a natureza circundante deu as boas-vindas a Ester
Abreu Vieira de Oliveira;
nascida para ser, estar, ir, voltar e deixar
memória amável de seu passo firme,
elevado voo observador.

Menina em Muqui, Cidade Menina,
arranque das lembranças feitas prosa e poemas;
gravada memória da fonte
onde bebia um enredo alegre de gritos e cores,
Boi pintadinho, Folia de reis,
silêncio e quietude em Sexta-feira Santa
explosão de felicidade no Domingo
exultante de Páscoa:
a vida em sua expressão mais pura
âncora elementar da alma.

Rico casario e vastos cafezais, do berço de Muqui
fez ponto de partida.
Aprendeu letras, formou palavras, construiu frases,
escutou histórias, albergou pensamentos,
devorou livros de maiores às escondidas;
e a língua de Camões foi sua língua:
alcatruz de nora
que enche a diário sua curiosidade desperta.

Nuvens abertas aos raios de sol,
e um jato de luz prístina,
desce alumiando
o dedo índice da mãe sábia
que conhece todo de tangerinas verdes
e de meninas arteiras, turbulentas e sensíveis
à tolerância que as faz tolerantes;
caminho de ferro que vem e vai,
rio de peixes renovando-se,
suaves colinas de Muqui,
onde o verde toca o azul, e a vida é calma e clara.

Chegou ao internado de Rio de Janeiro:
freiras de todas as índoles,
companheiras que a seguem ou corrigem sua marcha
e os temporãos mistérios ao alcance
da casualidade e a procura interessada.

Ali, no Colégio Santos Anjos
de Rio, Deus e o Céu abertos,
quis emular a jovenzinha Ester
a Teresa de Cepeda e Ahumada, Teresa de Ávila,
saindo
a terra de infiéis para receber martírio
por causa da fé.
Não pôde,
a atingiram ao dobrar a sexta esquina.

Trabalhadora esforçada
na Ilha de Vitória abre espaços vitais,
empurra os limites do feminino
estuda, lê, trabalha, pesquisa, escreve,
rodeia-se de afetos,
ama com amor de amiga,
de noiva, de mãe educadora;
muda de casa, renova a vida,
e dá cem voltas às horas que chegam iguais
até as fazer distintas.

Viaja, cursando estudos destinados
a receber o hispano em trajo de trabalho:
Século de Ouro, precedente e consequente,
Castela despida de ouropéis,
expandida até limites insuspeitados
depois de dolorosas conquistas que deixam exaustas
terras e pessoas.
Viaja e vive
rendendo-se Ester a esse Teatro Grande:
Rojas, Tirso, Lope, Calderón:
que imita a vida e a supera.

Organizada e disposta
enraíza
sua obra na firmeza
das palavras, na flexibilidade do pensamento.
Linguística, literatura,
docência e investigação
abrem passo a sua obra poética:
singeleza profunda
no eco de todos os poetas que a precederam.

Sem perseguir a glória
nem ornar com louros sua testa,
da  aptidão e a perseverança,
para aprender e ensinar, arma eficientes
ferramentas.

São gaiolas seus poemas,
que o leitor abre,
para que a águia ou o colibri
escapem.

Não tem voz de canto, mas canta
à ferida terra americana,
e o faz num dueto apaixonado com Neruda:
sangrentas águas que varrem as cadeias.

Subida ao trabalho intenso faz-se um nome,
a conhecem e apreciam por suas obras
vai e vem incansável
da aula aos congressos e palestras,
à explicação que dissipa brumas,
ao esforço calado de pesquisadora.

Percorre Espanha de extremo a extremo,
Portugal, França,
a Europa central e as Américas
de acima e de abaixo.
Respira ares novos e deixa seu sopro impulsor
do conhecimento. Regressando
à aula sempre, para que não lhe ponham falta
seus amados alunos.

Não o parece, mas passaram
oitenta anos
plenos;
oitenta, oitenta, oitenta.
E Ester Abreu é uma jovem
de oitenta frutuosas primaveras.

Mãe, avó, bisavó,
os oitenta primeiros anos
batizam com seu nome os espaços que fez seus;
e durante os vinte que virão
porque ela os chama,
seguirá sendo o centro de seu crescente cosmos
-rotação e translação-
Solar da Ester,
jardim que é Paraíso,
doméstico Edén,
onde tudo gira a seu ritmo.

PSdeJ Barcelona, 18 julho 2017

3.. Praia de Camburi, espaço de arribadas

Água de mar feita espuma
terminal e instável; explosivas
borbulhas sobre os grãos
dessa areia que é prólogo e epílogo,
logradouro de entrelaçados
ritmos mutáveis dos passos múltiplos,
palmeiras
firmes,
erguidas,
escuro asfalto ardente
e elevadas torres cidadãs
de miradas
extensas, intensas, satisfeitas.

Eu vi a fita completa, desde o ar
ao descer à terra no vizinho aeroporto,
onde encontrei a bagagem perdida em Guarulhos,
milagre ainda não explicado
pela ciência mais prática.

Com a satisfação de ter chegado
ao meu sonho desde o sono
vi a alongada e estreita tira
comprimida entre a água e os veículos,
crescendo ao comprido como única
solução possível
para seu afã expansivo
e sua claridade.

A soube depois
ilustrada como os frisos das aulas
como os pássaros do campus
pela sua proximidade à UFES
onde conferenciei ao redor de minha escrita
e sobre Ibéria e sua consequência:
Universo Ibero
de enorme projeção nesse
aglomerado americano de ideias e culturas
sul do norte, centro, verdadeiro sul, em dois idiomas
principais, minhas duas pátrias.

Atalaias de edifícios vicinais,
viaturas avançando devagar
sobre crescido pavimento de ida e volta
que descansa nos domingos;
passeio aspergido de aguadeiros de coco,
pedestres, e ondulantes bicicletas:
fotografei um homem,
africano ainda e brasileiro íntegro,
subido em duas rodas, e sorrindo
ao se cruzar comigo num quebro
respeitoso.

Mar, mar, mar
inseparável companheiro da praia, cúmplice
desse amor tão desejado e impossível;
árvores e arbustos famintos de afetos
sobre areia inúmera,
fina língua disgregada em grãos
e água chegada em ondas moribundas
agonizantes
séculos e séculos, noite e dia;
Praia de Camburi, domesticada orla,
caminho
vereda
senda
relações pessoais, desportos, dança, vida
lugar do mundo situado
em Vitória ES Brasil.

Praia continental que procura
o amoroso encontro
com a Ilha de solidão:
bastião forte,
castelo outrora inexpugnável
e hoje quase península,
pontes que são braços
de seda ou amarras de navio.

Amável Praia de Camburi:
areia,
areia,
areia
milímetros, centímetros, decímetros, metros;
decâmetros, hectómetros, quilómetros
de areia, areia, areia, seis
quilómetros para caminhar,
correr, saltar, praticar ou ver
os jogos de equipa confrontados
em nobre lide.

Jovens esculturas de carne e osso,
homens e mulheres usufruem a praia:
uma Roma humana e viva, uma Atenas
de esculturais corpos inteiros
ginastas,
cabeça, corpo e extremidades
atléticos,
vivos, sangue e nervos,
músculos mestiços
em conjunção melhoradora e insuperável.

Praia de nascimentos e agonias,
praia de amores cálidos e ardentes,
mãos nas mãos
braços sobre os ombros
beijos nos cabelos
e nos lábios,
amor em todas as formas e expressões.

Contaminada de resíduos
humanos e inumanos,
sob o céu azul com pinceladas
de nuvens brancas, andorinhas, colibris,
sobre magma, granito e crosta,
me comovem hoje os peixes
engolindo
o anzol coberto de isca
que os pescadores lançam
desde o Píer
de Iemanjá.

Orla húmida de pegada antiga,
amanhecer do primeiro dia
da Nova História,
quando as músicas tupinambá e tupiniquim
que soavam no confim oriental
foram silenciadas de repente
pelo arribo dos indefiníveis conquistadores:
espada e cruz
a língua portuguesa
vencedora final da resistente tupi-guarani
arengas e orações
versos de Anchieta:
evangelizador enraizado na Castela
daqueles nobres camponeses
dos que provenho.

Tenho visto nascer o sol magnífico
se elevando sobre Tubarão como uma hóstia
no ato da transubstanciação
mãos do sacerdote alçadas
desde essa orla terminal, que é ponta e cabo
conformando a extensa baía.

Meu coração, em sua parte capixaba,
se despede na distância a cada ano do ano
velho que se vai ao intangível alvitre:
água, areia, fogo,
ar
e tempo:
os cinco elementos se fazendo unidade
inseparável.

Mitifiquei essa praia de contrastes
e tanto, tanto a sinto,
tão palpável
e tão vivo guardo ainda o seu recordo
que, sentindo sua falta ainda,
muitas noites nela me sonho.

PSdeJ El Escorial, últimos dias de abril de 2017

4.. Morri

Pretendo que meu último poema
-este quiçá, teoria do tudo
seja o melhor de todos,
o que os condense e substitua; e o quero
assim a cada vez
que segrego um novo.
Não o consigo, é evidente; e estou convencido:
de que nunca escreverei
esse poema definitivo

Lavrador que escreve ou escritor que lavra,
morrer, a minha idade, é dar por conclusas
a sementeira de grão e de palavras;
e a colheita de relatos, poemas
fábulas e lendas; trigo,
cevada, aveia,
lentilhas, uvas
e beterraba açucareira.

É deixar no jardim de casa
sem irrigação as plantas secas:
medronheiros, adelfas, pinos recém nascidos,
roseiras, gerânios e camélias.

Morrer é se marchar sem direção precisa
deixando a Cordero e Jana, gato e cadela,
sem ração de comida.
É abandonar a conversa intermitente,
que mantemos com familiares e amigos
esse inacabável reconto
de fatos e notícias que nos mantém ativos.

Morrer é fechar a porta por fora
deixando dentro o dia já começado e os anteriores,
a chacota ainda não compreendida da existência
a longa partida de xadrez sem superar o xeque,
várias releituras projetadas,
as medicinas crónicas, e esse indefinível gesto
-queixa ou gargalhada-
último pensamento e respiro postremo.

Morri, vocês já sabem que morri,
a data aparece no fim da minha biografia:
dezesseis de abril de dois mil e trinta
e o sol da manhã prometia.

Coisa de pouco, um resfriado como desencadeante:
madrugo para escrever e, às vezes, não me abrigo
de maneira apropriada.
Já veem, a paixão pela escritura, e mais de vinte
doenças que fui acumulando, umas agarradas
às outras, nos últimos tempos.

Introduzi na mala de Além-mundo
dez livros -próprios e alheios-
três poemários, três novelas, três ensaios,
um grosso volumem de relatos breves,
chovia;
subi ao trampolim do tobogã, teto do mundo,
olhei desde a altura, girando, os trigais:
mar de primavera em Valdepero, ermida da Virgen
do Consuelo, cerâmica romana, fonte
de San Pedro, Páramo Llano de pedras caliças,
o sítio histórico de Muqui,
estações de Marechal Floriano e Matilde,
a Reserva Natural Reluz, os troncos erguidos
e firmes da Mata Atlântica Capixaba,
o Sertão agreste e rigoroso;
chovia.

Fechei os olhos,
deixei de respirar indefinidamente,
me deslizei sobre nuvens verticais; e a posteridade
-um de tantos para ela- me recebeu sem se alterar
no ingente cacaual de Bahia.

Nasci numa vivenda da Casa Grande, propriedade
do senhor Manuel Diezquijada Gallo, rua
Maior da minha vila;
e morri na senzala da Casa-Grande de Gilberto Freyre,
grosas paredes de taipa ou de pedra e cal,
a casa ibérica de meu iberismo:
aceitação e defesa do legado milenário comum.

Gilberto me confirma que fui para lá peninsular,
remando balandra, bebendo chuva, pescando,
achicando mar,
veleiro de papel, vela de páginas escritas
à mão; e lá me fiz, além disso,
africano e ameríndio: baiano.

Já sou, diz Gilberto de Mello Freyre,
a afortunada conjunção
de origens miscíveis
de miscíveis culturas;
e assegura que é o mestiçagem o princípio
do progresso progressivo,
e a constante dos avanços todos.
Síntese de síntese sou,
essência de essências destiladas
no alambique existencial dos vários
centos de milhões
de meus antepassados.

Eu vi, sentado numa rocha
o decorrer do tempo pela geografia,
esse devir ilógico e nostálgico
que parece o esperado porvir
não sendo mais que o passado
posto
em contato com o ar impuro,
temperatura de árticos, antárticos e trópicos
e umidade de aguaceiro intermitente:
submetido à inclemência
e ao roce permanente do que não existe ainda.

Bahia de todos os santos
mãe bojuda de todas as cidades,
Pernambuco de igrejas magras, onde
Gilberto Freyre nasceu um dia antes que eu,
quinze de março, dum ano bem distinto, 1900;
e pergunto se a quase coincidência na efeméride
nos une com especial força
ante Zodíaco e a Eclíptica,
ídolos dos influxos estelares,
erosão desconhecida
dos sentimentos inconstantes.

A dúvida
felizmente solúvel
chegou quando me aproximava à incógnita final:
teus tabuleiros escancarados em X.
Enigma que cada um pode decifrar à sua maneira,
pensei; e a minha
se explica na rubrica
da assinatura que levo cem anos repetindo:
uma flecha dirigida sem remédio para a cruz.
“Luta até o equilíbrio” é minha divisa,
e minha assinatura é meu nome lançado numa seta,
em procura da cruz da harmonia,
vacilante,
equilibrada,
ativa.

Esse x é o futuro do País.
Sim, Gilberto de Melo Freyre
tu xis é minha cruz:
identificação do equilíbrio harmônico,
conjunção ajustada de elementos múltiplos.

E o equilíbrio instável e dinâmico,
recomposto depois da cada dispersão,
é o futuro que esperamos
para o enorme caudal de forças
do fabuloso Brasil.

Sabido isto,
já pude morrer
e
MORRI

Valdepero 1946, Salvador de Bahia 2030

5.. Lavrar Profundo

A ti Alonso, filho de Madri ou de Bermeo
Ercilla e Zúñiga, ou de Valladolid talvez,
mas de Ibéria de certo;
quero te sinalar nestas letras,
graças a Fortuna, breves,
meu assombro ante a separação que fazes
das noites vizinhas dos dias,
quando escreves em plena madrugada
“numa parte oculta e encoberta
tenho perto daqui minha gente armada”
uma tropa, sem dúvida, equipada e aguerrida,
disposta para o ataque na alvorada;
confessando Alonso ao papel secretos militares
que soldado és e escritor
a partes desiguais;
e não sei, o dou por ignorado,
se atuas para contar
ou contas para te obrigar a fazer o já contado.

Escritor eu que descreve o ocorrido
acrescentando o matiz, não depreciável,
do próprio sentimento,
dando por certos de igual modo
desejos e realidades;
te direi que admiro o uso simultâneo
da pluma e da espada
brandindo a cada uma numa mão
ora a ação tangível e arriscada,
ora, prévio, o intrépido relato.

Lavrar profundo
para que a terra se areje e se oxigene,
e depois semear no devido tempo
esse grão cereal, umedecido
durante uma semana em Valdepero
com água do poço e pedra-lipes,
eliminado assim doenças passadas e futuras
da semente repleta de esperança,
e que enche sua prenhez mais frutuosa
variedade antiga de grão
-coincido com Neruda em chamá-lo palavra-
pois já estava no princípio
do universo
adejando, adejando, adejando,
em vigorosa solidão, em abandono ativo.

E hoje, embora
temos convertido a palavra em sangue,
e a vamos transformando em luz,
sangue a intervalos a cada dia mais longos
luz em espaços a cada hora mais breves,
devemos recordar, no momento todo,
que sua capacidade
-palavra lenitivo, palavra espada-
segue sendo enorme, enorme, enorme;
enorme e apertada.

Quando, a porta europeia
em outro tempo
de par em par aberta,
amanhece hermeticamente fechada,
os necessitados do inteiro mundo,
expulsados pela fome e as guerras
de seu solo,
têm que assaltar as barreiras
de água, arame e fogo.

Nesta Europa da feroz economia,
os cinco elementos naturais
-incluo ao tempo neles-
espaço e tempo, tradição e geografia
se vão convertendo em bens comerciais,
a história se reescreve,
desenhando uma nova cartografia do futuro:
esse amanhã comum
diferente para cada um.

Relega Espanha a Ercilla
Madri o trata como a desconhecido
e aqui reivindico seu nome e sua vida
sua vida e sua obra literária;
pois, se rejeito
o emprego sanhudo da espada,
admiro o uso
magistral da palavra.

Morreste Alonso e não sabes
por Fortuna
o que teu cadáver foi e veio
de aqui para lá inteiro ou separado;
ignoras que foste enterrado,
desenterrado e novamente enterrado
enterrado de novo, novamente;
ignoras que decapitado foste, e tua cabeça
viveu aventuras
que teu coração ignora e vice-versa
por Fortuna.

PSdeJ Madri, março de 2016

6.. A realidade imaginada

Desde a boca do poço
olhando para o interior sereno
vejo passar as cinzentas nuvens
descobrindo
e tampando o céu estrelado,
reflexo da água que dorme
abaixo
sonha
sem esperar milagres.

Abrindo portas, rompendo moldes
furando céus noturnos
fora de hora chego.
Estou feito de ombreiras e janelas
caleidoscópio inquieto, surpreendente
olhos que têm visto o infinito
mãos que empunham o raio
no furor da tormenta
para domestica-o.

Aprendi nadar no primeiro banho
nada mais nascer da minha mãe
quando deletreava a palavra vaga-lume
lida num conto ilustrado
que alguém
pensava me presentear a véspera
de meu vigésimo quinto aniversário

Tudo em mim é insólito
tudo em mim preexiste
a rosa dos ventos assinala os túmulos
dos meus antepassados vindouros
fertilizantes durante séculos e séculos
dum campo de papoulas
olhos serenos de quem tece urdiduras
e tramas improváveis
destinadas a reinventar o mundo
mudando de lugar
as portas de entrada e saída
nascimento e morte
emergindo das profundidades abissais
para atingir eléctrones y planetas capazes
de embalar a vida
e crescê-la até limites insuspeitados.

Sou o homem, a pessoa
o ser humano do século vinte e um:
macho e fêmea destinados a encaixar
entrantes e salientes
desejos e possibilidades
imaginação desbordada que ascende
acrescentando escadas
sobre as escadas.

Em ocasiões, você o sabe
Carmen, seus poemas, sinos ondeantes
como trigos recém granados
golpeiam
badalo e bronze
a solidão de algumas tardes
quietas na primavera.

Em momentos contados
a sincronia imprescindível salta dos balcões
à rua;
e desde o fundo da rua inclinada
atinge os balcões
semeados de gerânios a ponto de estoirar
em forma de circunlóquios purpúreos.

As duas vezes que nos aproximou o destino
C duplicada de Carmen Conde, nascida em Cartagena,
sucedeu o impossível;
a primeira foi na Cuesta de Moyano em Madri
e tu ias com Antonio
esquadrinhando, esquadrinhando, esquadrinhando.

Nossos olhos se pararam sobre os mesmos
livros, dois concretamente:
Eternidades, editorial Renacimiento
Madrid, Barcelona, Buenos Aires;
e Azul, Valparaíso, 1888.
Te deixei a dianteira e Antonio
os comprou
sorrindo-te.

A segunda ocorreu um ano depois,
ou dois,
na Casita del Príncipe,
ali onde se encontraram Picasso e Neruda,
El Escorial,
lugar que visito ainda sem fazer ruído
para não espantar as lembranças.

Íeis, Antonio e tu, com Juan Ramón
e com Darío:
quiçá não eram, mas a mim me pareceram eles,
aqueles dois amigos.
Olháveis as paredes e o teto
quando eu os olhava:
o monte Abantos, os castanheiros desprendendo
um fruto protegido. Falamos,
imaginei, os cinco, das palavras esdrúxulas
dos signos de admiração;
em assuntos de amor um põe a cesta
e o outro põe as flores: assim foi,
es e será
por muito que os tempos mudem:
ouvi que dizíamos,
embora dizia mais
Darío.

Todo isso ornado
de finíssimas gotas de orvalho a ponto
de empreender o voo, evaporadas.
Mas na verdade, por entabular conversa,
perguntei a você, só a você,
onde estava o famoso Monastério.

Respondeu a tua gentileza sorrindo:
esse edifício tão grande,
de pedra todo inteiro,
o que tem tantas janelas, e guarda parte
da história da Espanha dentro de seus muros:
Palácio, Panteão e Biblioteca:
esse é, pode estar seguro,
não tem perda.

Só por ver, Carmen, tu ingênuo sorriso,
e passado o tempo poder relembrá-lo
com todo seu luminoso feitiço,
valeu a pena passar por ignaro
no lugar onde habito.

PSdeJ, Madri e Cartagena, 1999

7.. Uma longa noite no Sertão

Estrela da manhã e Libertinagem manuscritos
viagem de circum-navegação elíptica
para além de Recife, Rio, Santos, São Paulo
e Rio de Janeiro novamente,
até chegar
de novo a Totônio Rodrigues e a rua da União.
Que fazia aquela noite
-poesia e música da mão, pintura e poesia
caminhando juntas-
Bandeira, no Sertão, diálogo afetivo
com um escritor espanhol e uma
pesquisadora capixaba?

Pergunto,
que fazia
farto do lirismo comedido
farto do lirismo bem comportado,
do lirismo funcionário público,
desejando ser um poeta crítico e selvagem
peixe emergente das águas abissais
fera nas interioridades selváticas?;
que fazia essa noite no Sertão,
-sorriso insatisfeito, mitológica olhada,
autocrítica memoria-
em aparente atitude latifundiária?

Sonhava eu o sonho de sempre:
a humanidade satisfeita de suas coisas
e os açambarcadores devolvendo o comum;
os de acima e os de abaixo vivendo
na mesma cidade, no mesmo bairro
e na mesma casa; comendo
na mesma mesa a mesma comida.
Sonhava eu, o sonho era meu
e Bandeira o habitava:
Abaixo os puristas!
Abaixo o lirismo namorador!
Abaixo o lirismo que capitula!

Sinto ainda o eco de suas palavras
no pavilhão de meu ouvido
esquerdo
-o direito
ouve distorcido-
e faço meu o seu protesto, rua acima,
cenáculo literário abaixo:
-Não quero mais saber do lirismo
que não é libertação.

Um sonho de liberdade em convivência
com a justiça
distributiva, distributiva, distributiva;
e dos representantes posto ao serviço
dos representados,
era meu sonho aquela noite no Sertão.

Discutíamos Ester Abreu e eu
sobre alguns aspectos confusos
de Dom Juan, baixando
aos infernos para surgir de novo:
andrógino,
triunfante,
celestial.

Se desenvolviam o sono e o sonho
intemporais
ou com os tempos misturados,
num Sertão imaginário
que,
partindo de Euclides da Cunha, Graciliano
Ramos, Guimarães Rosa
e Jô Drumond,
era a soma de todos os Sertões:
aridezes existenciais, aleph,
vidas secas,
horizonte além do horizonte,
imaginação
e utopia.

E se sucedesse- pensei um instante- que Pasárgada
ocupasse um extremo imaginário
de esse Sertão amplio e multíplice?,
o correspondente à Utopia, exempli gratia;
ou ao exoplaneta Gliese 581 g
onde a felicidade pende dos galhos nos árvores,
sendo o ar maná alimentício;
e Manuel chegasse ali
num momento de fundo desânimo,
desde a casa da Rua do Curvelo
no interior da ânfora de sua tristeza mais triste:
Não sei dançar,
meu verso é sangue,
cai, gota a gota do coração…
E se nesse instante
mágico e mínimo
aparecessem
Bandeira e Guimarães rindo a gargalhadas…
…se assim fora
disse,
eu me sentiria satisfeito.

Voltei em mim ao exclamar:
Grita, ri, vive!, Manuel Bandeira;
me alegra que coincidamos na função liberadora,
detersiva,
da poesia.
Acomoda-te, convidei:
sente-te como em tua casa,
fica a vontade no meu sonho sertanejo:
não a Veneza americana
não o Recife dos Mascates,
seja neste Sertão de Sertões gris e gélido,
vozes simbolistas, parnasianistas, modernistas,
sequidão na garganta
imaginando com Ester e comigo
o triunfo último de Dom Juan
convertido
em mulher,
valorosa fêmea feminista.

Vou-me embora para Pasárgada: disse o poeta amigo,
olhada displicente,
mãos nos bolsos vazios:
Lá sou amigo do Rei.
lá tenho a mulher que eu quero.
Poesia ao serviço da imaginação recriadora,
transformadora,
respigadora.

E vi-lhe marchar ao longe, sonho adiante,
convidado por Baudelaire,
quando o sonho acordava em mim
eu acordava no sonho
e na escola os livros se fechavam:
correção do professor Veríssimo:
Capibaribe!, Capiberibe!

PSdeJ São Paulo 2015

8.. Rapariga de Sacramento
Dedicado a Renata Bomfim

Ignoro a maior parte das coisas tuas
quase todas as razões, mas sê
que numa palhota descalça amanheceste.
Gritos de parto e vozes de vizinhas
saíam pelo negro buraco
do cano enegrecido
negro
com a fumaça do fogo que fervia
as raízes
e esse suco
feito para alimentar tua ousadia.
Choraste ao fim,
amanhecia,
choraste o primeiro de teus prantos
eras menina
e iam te chamar
Bitita.

Depois te pensei menina
e eras menina sem armário
de roupinha
sem enxoval azul ou rosa
sem sapatinhos de fivela linda
sem futuro de manhã pela tarde
nem do outro dia.
Menina sem amparo
nem caricias,
entretinhas teu tempo
com brinquedos que fazias
de nada e ao momento
a teu capricho e medida.

Sobre o planeta Terra
ia descalça tua puerícia
se alimentando de raízes
de frutos e de flores
das folhas da rama
de suco de intenções.
Independência, orgulho, coragem
Paciência e impaciência:
degrau a degrau tua Torre de Babel
se alçava na sucessão dos dias
com teu desejo de atingir as estrelas
dar um nome a cada uma
e viver sempre nelas.

Aprendeste a ler, a escrever
e procurando entre sucata e papelões
aprendeste a distinguir
e te foste fazendo de música e cores
de pranto interno
e esperança
mulher que pensava e via
ao passo que sentia, elucubrava e escrevia,
e eram relatos de vida e abandono
de receio e fugida
de alento e fogo
os que desses olhos saíam,
dessa mente produtora de ideias
dessa mirada profunda posta nas coisas
com um temor sincero
às pessoas escuras que escondiam
suas negras intenções no buraco preto.

Te emparelhaste com o macho quando
o alarme e o desejo empurravam,
te nascendo três filhos
que tiveram a sorte propícia
de ter no barraco
uma mãe generosa e decidida.

Formiga
sozinha
levavas
o grão
de alimento
ao imediato
formigueiro
todo o ano
inverno
inverno.

Esta noite te imaginei, e sendo negra
do tudo, toda negra,
te pensei mestiça do sol e da lua
com o melhor de cada raça
indígena, africana e europeia
ninada pelo vento e pela chuva
das quatro estações
que são só uma nessa terra equinocial
efervescente de luz e religiões.

Humanidade tu
encolhida em cócoras à espera,
saiu teu livro desse Quarto de Despejo
voou alto e longe, pomba mensageira,
choveu o dinheiro em diluvio universal
e recebeste na partilha uma parte pequena.

Chegaste ao alto da Torre
quando teus escritos iam inundando o Planeta
rapariga de sacramento
mulher de favela.

Ao receber sua visita o soubeste:
Fortuna fica pouco tempo na casa do pobre.
A Torre se fez mais Babel ainda
as diferentes línguas foram imiscíveis
e se confundiram te confundindo.

Envelheceste até sentir o mau
recordando aquelas vizinhas que fugiam
e as que precisavam, para se sentir bem,
escutar os versos que escrevias.

Uma noite escura te sonhaste morta
no interior fechado do caixão,
nas mãos, livros em vez de flores;
foi um sonho de graves consequências
porque já não despertaram as vidas
que neste mundo rompido, viveste a tua maneira.

PSdeJ El Escorial, a 20 de mayo de 2017

9.. Solta de Pombas

O despertador que vive sobre a mesa-de-cabeceira
e lança raios laser para o teto
debuxando a hora em cor vermelha;
às vezes escreve frases, e conta histórias minhas
que eu ignoro.

Há uma muito antiga:
nada menos que do Câmbrico,
lá na era Paleozoica,
quando a existência rebentou por completo
produzindo
a gigantesca explosão de vida
da que tanto se escreveu.

Não voavam pombas no Câmbrico

Éramos simples
cordados os Humanos
por aquele então tão remoto,
mas já nos reuníamos os afines
para compartilhar o progresso
das fortes
e arraigadas afinidades.

Não voavam pombas no Câmbrico

Existia Ilha Vitória, ainda sem nome,
quando o Espírito Santo não era mais que um campo
sem frutos;
e o continente inteiro
macho possessivo,
tentava completar a vastidão do seu corpo
às furtadelas noturnas
apalpando e apalpando.

Se deslizava, mansamente
inda ingênuo
o primeiro entardecer
duma solene primavera,
envolto no sossego indescritível;
rompido, de repente,
pelo ritmo desarmônico
do incremento
exagerado
de espécies.

No mais alto
dum florido promontório
que algum de nós denominou Penedo,
estávamos quatro líricos épicos sentados em círculo
cordados entusiastas do equilíbrio e a harmonia:
quatro poetas tentando
interpretar uma música espontânea
que acordamos nomear
Jazz.

Não voavam pombas no Câmbrico

Joaquim Machado, ângulo reto seu rosto,
fechado pela semicircunferência do cabelo,
tinha facilidade de palavra, lhe interessava tudo,
admirava a beleza,
vinha de abaixo
e sabia

Cecília Meireles, luz e mel na mirada,
nem alegre nem triste como dizia ser,
reinventava a vida apoiada
num tronco bem desenvolvido
de sapucaia;
e observava
com carinho maternal o incessante
crescimento das infantis folhas
de erva,
todo-poderosa força disgregada.

Não voavam pombas no Câmbrico
e Cecília o conhecia.

Castro Alves, sonhador apaixonado
da liberdade pendurada das árvores,
recitava poemas sociais a Cecília
no pavilhão hospitalário da orelha
esquerda
sem resultados amorosos visíveis.

Sobre a cume vegetal,
-no já Penedo,
perto da ainda não Vitória,
já ilha acolhedora, sem embargo,
vigiada de cerca pelo continente
cheio de amor, namorado,
no entardecer sereno
da indomável perseverança
reprodutora-
nos fomos passando a trombeta
de quem seria, andando o tempo,
meu amigo Satchmo,
os quatro épicos líricos que compartilhávamos,
fraternos
íntimos,
a irreprimível paixão criadora.

Nascida a palavra,
lá, no tempo câmbrico
e no espaço Penedo,
a poesia foi;
e assim que foi a poesia,
soou o Jazz;
e fomos
os intérpretes
mais fascinados que o Universo
conheceu.

Cecília Meireles
sorridente
se pôs em pé.
-Ah, o sorriso de Cecília,
amanhecer de amanheceres!-
E com firmeza rasgou a blusa que cobria seu seio
e de o seio níveo voaram cem pombas
mil,
dez mil,
se dispersando pelos quatro horizontes
seus poemas.

PSde J, Vitória ES, faz muito, muito, tempo.

10.. Trabalhos do tradutor

Tinha trazido ao castelhano
desde o idioma português vários centos
de poemas, filhos de muito diferentes
bardos;
por isso me atrevi com um dos grandes:
Carlos Drummond
de Andrade e seu audaz
e celebrado
“A Máquina do Mundo”;
pilar do Modernismo neste
Brasil
de meus desvelos.

“…se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
Seguia vagaroso, de mão pensas.”

Cheguei ao ponto morto,
certamente,
na postrema estrofe, pedra angular
e fechamento do poema.
Mas stricto sensu
a dificuldade,
insuperável por então,
de mão pensas
premeditada falta de concordância
estava nas três palavras
últimas.

“Y como mis pies palparan suavemente
una carretera de Minas, empedrada,
y en la aldaba de la tarde una campana ronca…”

Me animou o princípio, confesso-o,
e me crendo
capaz de traduzi-lo inteiro
continuei carregado
de optimismo contagioso:

“…la máquina del mundo se entreabrió
para quien de romperla ya se arrepentía
y solo por haberlo imaginado lagrimaba.”

Pressentia a minha imodéstia
algum inconveniente
dos considerados menores.
Nada nem ninguém ia supor obstáculo bastante
para que, minha força expressiva, expressasse
-raiz e talho se nutrindo, harmonia encadeada-
o muito que minha inteligência compartia.

“Arrancó suntuosa y reservada,
sin emitir un sonido considerado impuro
ni un resplandor mayor que el soportable…”

Progresivos
sonido y movimiento, amanecían
martes y miércoles unidos,
jueves y viernes de la mano
y yo me las prometía
tan felices.

Desconhecendo ainda
o que agora sei, minha intuição
apagava: Se abrió, para escrever
em seu lugar: Arrancó:
palavra-chave.

“…esa exégesis integral de la vida
ese vínculo inicial y único
que no llegas a interpretar pues tan arisco…”

Filosofía, metafísica, teosofía, naturalismo,
sociología, sicología: entiendo al hombre
en su conjunto y en las partes:
homo homini lupus; amor, primera fuerza
metafórica:
estoy bien preparado:
me dije: exégesis sin duda tiene ahí su hueco.
Sé adónde voy?: conozco el sendero.

“…y la gloria de los dioses y el imponente
sentimiento de muerte, que florece,
en el mástil de la existencia más gloriosa…”

Exultante estava e convencido
de minhas instáveis reservas, ente eu
que se autoalimenta
alimentando a própria dúvida;
já, sexta-feira dia nove,
pouco antes
das duas da manhã,
desconhecendo que numa noite de insónia
posterior,
o laberinto de mão pensas
pensando e repensando
me ia mostrar sua saída.

“…como olvidados credos requeridos
pronto y vibrantes no se dispusieran
a colorear de nuevo la cara neutra…”

Presto y fremente:
pronto y vibrantes: pluralizo;
mas mãos pensa segue martelando a minha cabeça
porque perguntada R^Bomfim,
temporalmente lisboeta, não
me pode fechar uma mão,
nem o dicionário Priberam, sempre tão
atento a minhas necessidades;
recorro a Mario
também Andrade de apelido,
a suas cartas cruzadas com Carlos,
e não está nelas a saída.

A Ester Abreu vou, último recurso,
e de sua resposta veloz e precavida,
minucioso análise das palavras,
infiro uma posição de dúvida sobre a confiabilidade
do texto de partida.
Incorporo la incertidumbre a las posibles soluciones;
y decido escribir: “olvidados credos requeridos”
como versión del verso al que,
por el momento, llego.

“…pasara a dirigir mi voluntad
que, ya de por sí inestable, se cerraba
semejante a esas flores indecisas…”

Descobria admirável o nexo literário,
o ritmo, a paixão,
a veemência sujeitada; mas na amanhecida
me intrigava mais ainda
o sentido exato que o poeta
quis dar às indômitas palavras
de mão pensas, sua concreção abstrata.

Encontrava-me em ponto morto
esperando uma resurrección impossível
ou um enterro profiláctico, quando
a primeira luz da alborada, em outra noite,
avivou minha mente me transladando,
infante, a meu povo;
época agitada do traçado
dessa breve estrada que vai de Valdepero
a Valdeolmillos:
povos limítrofes separados pelos montes
de azinheiras.

Allí el burrero y su reata de asnos,
serones repletos de rocas;
allí los pedreros, que
con sus martillos largos
machacaban peñas, alisando;
allí los peones con sus paladas de tierra,
allí la máquina aplanadora,
apisonadora por buen nombre:
férreo cilindro macizo la rueda delantera
destinada a compactar el suelo,
transformando
tierra y piedra sueltas
en calzada resistente.

Isso era, aí estava o quid.

Esclarecido e esclarecedor
compreendi que podia retirar da engrenagem o pau
na tradução de “A Máquina do Mundo”.

La acompasada voz silente de la cachazuda máquina,
vino a mí: atrás y adelante, adelante y atrás,
guiada por un operario experimentado,
sutil e inteligente,
que se hacía preguntas y respuestas,
iluminado en la noche
por un fanal sereno,
y en los descansos muchos
bajaba a tierra para palpar con el pie el empedrado
o apoyaba, pensativo, en el timón
los brazos cruzados, las manos sobrepuestas,
observando los trajines de los demás oficios
desarrollados a sus pies.

Ainda habitava eu a dúvida, quando Carlos Machado,
poeta difusor de poetas, grande pesquisador de Drummond
com firme conhecimento de causa,
me enviou o carinhoso e esclarecedor aviso:
“Essa falta de concordância não existe:”
as edições certas incluem o “s” de mãos.

Assim que eu havia sofrido sem ração verdadeira
porque nesse verso postremo
Drummond escreveu
inequivocamente:
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Saturados de murmullos: “hálito, eco
o simple sacudida”, mis oídos internos,
lleno yo de un vigor intuitivo
destinado a seguir vertiendo
al castellano
esas “verdades más altas que tantos
monumentos erigidos a la verdad;”:
esclarecido o mistério das três robustas palavras,
últimas do vibrante poema,
adoptei a decisão de terminá-lo assim:
“…poco a poco se fue recomponiendo,
mientras yo, valorando lo perdido,
permanecía indolente, mano sobre mano.”

PSdeJ Itabira, Oro Preto, Nova Era 2013

 

 

F.- Divergências
1—Barbárie
2—A união e a força
3—Globalization
4—Venho a dizer
5—O sonho do escravo
6—As mães famintas
7—Os operários mortos no trabalho

1.. Barbárie

Ontem,
tão só ontem,
realidade iniludível
-chove sobre Madri, doze de março
o terror escolheu trens repletos de operários e estudantes,
para exibir seu monstruoso gesto mascarado.

Esperaram ocultos os sicários os mais madrugadores,
os forçados a viver longe do lugar de seu trabalho,
e quando os tiveram juntos, comprimidos;
quando a densidade de população chegou a seu limite mais alto,
se servindo dos últimos avanços da técnica,
provocaram violentas explosões,
estrondos, clarões, labaredas.

Na apocalíptica
encenação do último desastre,
os esbirros do terror atacaram à sociedade mais débil,
estoirando bombas repletas de fanatismo e de barbárie.
Perseguiam o número,
a turbamulta, o enxame,
o humano formigueiro;
caixa de ressonância de sua falsa razão inconfessável.

Num instante o caos confundiu as mentes
os corpos foram alfineteiros furados de metralha,
lavaram o solo litros e litros de sangue efervescente;
calhas retorcidas e chapas seccionadas
arrancaram dos crâneos a essência inteligente;
e uma fenda de gritos
fugiu pelas gargantas abertas nos ventres.

Incapaz a pedra, incapaz a árvore,
incapazes o lobo e a serpente,
o tubarão e o leopardo;
foram infra homes fragmentários, residuais ou quocientes,
os únicos capazes de conceber tais estragos.

Em nome de que ofensa inexcusável
prepararam os potentes explosivos,
em nome de que deus ou de que pátria colocaram os cabos,
sabendo que a essa hora e nesse concreto espaço
não iam encontrar culpados.

Sem embargo,
além da morte conseguida,
fracassaram;
além de comportamento tão abstruso e tão covarde,
mostraram-se incapazes de impedir que o corpo solidário,
levasse sua mão a tamponar a ferida inabarcável.

Ontem, tão só ontem -chove sobre Madri, doze de março-
o terror rebentou trens repletos de operários e estudantes.

PSdeJ Madrid 2004

2.. A união e a força

Chuvisco, aguaceiro, chuvarada:
se ouve o murmúrio da chuva nos cristais,
dilatadas pupilas da casa;
rítmico repenique, monótono, insistente
furioso em algumas ocasiões
sossegado às vezes.

Como se foram essas aves viageiras,
que empreendem o périplo migratório
prelúdios de inverno ou primavera;
como estorninhos dispostos a iniciar seus voos acrobáticos,
as diminutas gotas esperam atadas umas e outras,
sobre as telhas do telhado,
ao vidro agarradas, submissas às folhas
dos choupos erguidos no plano.

Porque as leis  restringem valiosas liberdades,
as gotas reclamam o direito de reunião e de fusão
para formar gotas mais grandes.

Quando seu número basta
e chega ao peso crítico o volume congregado,
se deslizam rápidas
janela abaixo, parede ou tronco abaixo,
para a horizontal impávida,
tons cinzentos ou pardos.

Refresca o bochorno dominante
o ar aligeira sua presença
e no precipitado ataque,
receosas se estrelam
-terra, pedra ou folhagem-
contra um solo que opõe minguante resistência.

Cessa o repenique
o sussurro compassado declina,
e as gotas grossas
-soma da soma das mais exíguas-
extenuadas, abatidas, doentes
reúnem em charcos dispersos suas forças rendidas.

Chegam daqui e dali, de todas partes;
se juntam, formam açudes e lagoas,
se multiplicam, transbordam, invadem,
e no rego gestante de hostilidade e fúria,
incorporam a coragem
a uma marcha
imparável.

Vão rua abaixo, empurrando obstáculos
rompendo represas, abrindo caminhos estreitos,
canais amplos,
içando
cajados,
foices,
forcas;
com o bronco canto
dos rebeldes
que lavram profundo
seu
próprio
sulco.

PSdeJ Barcelona 1966

3.. Globalização.

Pude ser teu cúmplice
na quadratura do círculo
e do triângulo
isóscele.

Usa, China, Japão, Alemanha

Pude estar contigo
quando raiva e ousadia
se uniram a tuas escassas forças
em frente ao brutal atropelo dominante.
Desproporção social
acumulação, esbanjamento e fome.

Palestina, Serra Leoa, Burundi

Devi estar
contigo
em defesa da coisa pública
posta entre parêntesis pela rapina privada.
Numa parte
o comum e, em frente,
o indivíduo isolado nutrindo seu insaciável egoísmo.
Beleza encurralada das flores,
da ternura, da solidariedade fraterna,
sob um céu de pólvora
sobre uma canção protesta.

Tajiquistão, Suazilândia, Moçambique

Pude ser teu cúmplice
mas não soube calibrar
a ciclópica força da tua ira
braço esquerdo e direito unidos
banhados no óleo inconformista,
rebelde,
sangue de fragua,
temperando o aço
da espada.

Honduras, Suriname, Guatemala

Agora é tarde, me dizes,
elanguesce a queixa
entregue à obediência submissa.
O Papa
cantarola minha canção. Diz mas no faz
o que diz; e a tirania segue
aqui e lá,
sã, salva e próspera.

Somália, Etiópia, Bangladesh

Devi estar contigo
contra os que acumulam riquezas,
genuínos
buracos negros, ímanes que atraem
todo quanto existe, a luz inclusive;
servidos por legisladores a salário,
sacerdotes do deus dinheiro,
mercenários da inteligência estéril
e da justiça surda.

Haiti, Libéria, Moldávia,

Pude estar contigo e me dói não ter estado.
Pude ser teu cúmplice contra aqueles
que apagam qualquer riso,
qualquer gozo dos que integram
one billion hungry people,
e contra os verdugos sem consciência nem piedade,
que dia após dia
dessangram cordeiros humanos.

Chade, Zimbábue, Zâmbia

Devi ser teu cúmplice, porque dói-me muito
muito
saber
que para vestir um rico
faz falta despir a cem, quinhentos,
mil pobres;
que com o que custa emagrecer os ricos
podem ser alimentados multidões
e multidões
de famintos;
e que para educar os meninos
nos modos democráticos
além do imprescindível e estendido exemplo
fazem falta excelentes professores
livros e cadernos.

PSdeJ Países e lugares visitados nas minhas viagens

4.. Venho dizer

Não venho pedir favores ao poderoso
não pretendo encher a tigela do esfaimado
não busco alongar o sofrimento
dilatando agonia e agravo.

Venho dizer o que devem calar os desnutridos
os que reúnem uns cêntimos por dia
os que disputam com os cães a comida
e bebem nos charcos peçonhentos do caminho.

Pasto de moscas
e olhos enormes
de olhar desorientado;
os filhos das mães famintas nascem raquíticos,
hospedam no ventre um viveiro de gusanos
e agarrados à pele dos peitos como a odres vazios
a razão de seis milhões cada ano
morrem de fome e desabrigo.

Porque as carências dos necessitados
partem da má distribuição da abundancia,
rejeito a repartição iniqua
da riqueza originada.

Porque germinam as funestas diferenças
na cobiça da propriedade privada
rejeito a propriedade insatisfeita
que entesoura e açambarca.

Porque intelectuais desalmados se servem da filosofia,
da literatura e da arte
para ajudar o dinheiro sem reparos
voltando as costas a quem sofre fome,
rejeito o pensamento mercenário.

Exijo leis
que impeçam o acúmulo de domínio
magistrados que anteponham a equidade a ideologia
tribunais que condenem esbanjamento e desperdício
uma justiça que nivele os escassos deveres dos saciados
com os mínimos direitos dos famintos.

PSdeJ Madrid 1996

5.. O sonho do escravo

Do outro lado do muro,
vem a sua queixa:
Imitando uma garça,
me chama a negra.

No barracão de machos,
responde meu corpo, se estreitando:
serpente humana
por entre os catres ferrados.

Das janelas altas chega
a tênue claridade da lua,
ante a porta trancada os vigilantes vigilam
e a matilha ulula.

Segismundo é meu nome,
e vivo escravo no engenho de cana
levantado a umas léguas
da cidade de A Havana.

Finaliza o ano
mil oitocentos e quarenta,
novembro já avançado;
e tenho, por fim,
meus direitos ante o amo.

Me iniciará na Religião
para que possa receber o baptismo
e ser doutrinado:
porque o homem foi feito
a imagem e semelhança do Criador amado,
patrão dos patrões e capataz supremo
esse Deus branco.

Nos domingos e festas de preceito,
após missa trabalharei duas horas
asseando a mansão dos donos.
Não mais de duas horas, salvo que haja
tarefas urgentes ou estejamos
em tempo de safra.

Devo obediência às autoridades,
reverência aos sacerdotes, respeito aos brancos
e boa disposição com meus iguais.

Duas comidas terei, ou três se fizesse falta:
inhame, iúca, seis ou oito
batatas-doces ou bananas;
oito onças de carne ou bacalhau,
e quatro de arroz,
hortaliças,
farinha ou feijão.

Em maio e dezembro receberei um lenço,
camisa e calção,
gorro ou chapéu;
a cada dois anos jaquetinha de baeta
e um cobrejão em janeiro.

Até a saída dos dentes,
as crianças receberão comida ligeira,
camisihnas de listrado,
e nas horas de labuta
ficarão no alpendre à incumbência
duma
ou várias negras.

Em dias ordinários, trabalharei nove ou dez horas
e durante a safra, ou se fosse preciso,
não mais de dezesseis
por princípio.

Me acompanhará o senhor
quando deva sair da fazenda,
ou levarei um escrito
que autorize a saída e descreva minha cara.
Pode denunciar-me qualquer se vou sozinho
ou não me ajusto à rota marcada
no salvo-conduto.

Como castigo do mau comportamento
seja por demasia
seja por defeito,
receberei prisão, corrente,
grilhão ou cepo;
sempre nos pés, nunca na cabeça,
e os açoites não passarão de vinte
na rodada completa.

Se uma escrava de outra plantação
-como é meu caso- acedesse a se casar comigo,
a comprará meu dono
junto com as crianças.
E uma vez casados,
trocaremos o barracão comum pela cabana.

Tudo fica regulado:
já conheço a lei,
e sei a que me ater,
desde ontem.

Doravante,
cumpridas as disposições do Governador Valdés,
a minha vida pode ser invejável.

Nas noites tranquilas,
depois de rezar a Deus pelas autoridades,
os sacerdotes,
donos e capatazes;
depois de pedir pelos brancos e os meus,
esses escravos de cor, submetidos e indomáveis,
sonharei que sou um príncipe abraçado a minha preta,
e se algum dia, por boa conduta nos dão a liberdade,
ocuparei o trono que me corresponde em herança,
sendo eu o rei
e a rainha, minha amada.

(Condições desumanas qualquer diria
mas o triste é que há trabalhadores
que recebem pior trato a cada dia.)

PSdeJ, La Habana 2010

6.. As mães famintas

Pele de resseco pergaminho, ossos superficiais
e uma determinação muito firme:
as mães famintas trabalham a terra,
trabalham a casa e os filhos;
e sobem a seus machos
ao mais alto pico.

Mostrando seu perfil mais agressivo
mirada provocadora, orgulhoso pavoneio,
na cume se ocupam os machos
de assuntos de machos, delírios de machos,
pendências de machos,
escapadas de machos, e até mortes de machos.
E as mães famintas
imprecam contra o divino e o humano
portando seus filhos sem pai
nos braços.

Desesperação e resistência,
reprimidas pelo calado estoicismo,
impelidas pela intransigência obstinada
as mães famintas trabalham o sustento,
trabalham a roupa e o abrigo;
abrindo o coração machucado
nos ouvidos propícios.

A visão inquisidora, profunda, seletiva,
procura na dúvida as terríveis respostas:
indagando os enigmáticos porquês da vida,
esquadrinhando as dobras ocultas da dura existência
averiguando o que segue a morte e a culmina.

No duro solo
agonizam os frutos imaturos de seu fértil seio,
e as mães famintas de olhar ausente,
sem machos nem esperança, com muitíssimo respeito
recolhem nas suas bocas os suspiros postemos
abrem tumbas nos próprios ventres,
enventram os filhos mortos,
e despejo entre despejos abraçam a morte.

PSdeJ No Terceiro Mundo de muitos países

7.. Os operários mortos no trabalho

Um,
dois,
sete,
trinta e cinco
seis mil oitocentos,
duzentos e trinta mil e treze;
é a contagem incessante duma realidade trágica
a estatística incompleta dos operários mortos no trabalho
o sumário da necessidade humana
a prova dos noves do progresso social.

As funções lineares,
os índices e os intervalos
nascem de um pacto entre o poder e os números;
e os operários mortos no trabalho
povoam a realidade bastarda das análises quantitativas,
dos diagramas de fluxo,
das folhas de cálculo e da probabilidade elementar.

Mas, onde estão os órfãos,
onde as viúvas dos operários mortos no trabalho?
Que ocorre com os pais e irmãos, que há dos familiares,
dos amigos e companheiros;
e de todos quantos amamos aqui, ali e acolá
os operários mortos no trabalho?

Multidão dispersa, nos ferra a porta a estatística.
Ficamos fora do cômputo de mutilados,
dos gráficos aritméticos,
das folhas de cálculo e das previsões excedidas.

Membro ativo desta sociedade
a cada vez mais desnivelada,
trabalhador da pluma e da difusão de ideias,
eu, Pedro Sevylla de Juana,
solidário com o segmento
de população mais desprotegido,
exijo minha inclusão na recontagem de prejudicados
nas curvas de frequências,
nas oscilações
e no inventário de cifras:
um, dois, sete, trinta e cinco,
seis mil oitocentos e quatro,
duzentos e trinta mil e treze;
no lado dos operários mortos no trabalho.

PSdeJ Qualquer país do Primeiro Mundo

 

 

G.-Universalismo
1.. O grande Rosto
2.. A Lei da Relatividade General
3.. O grito do Universo
4.. O elevado voo do Veleiro Nova Era

 

1.. O Grande Rosto

Vi o rosto que tento descrever,
quando o rosto imaginado
se acercava a mim por vez primeira.
Apareceu se abrindo, se espreguiçando
como recém levantado do leito
nel sonho mais profundo.

Seus olhos viam em meus olhos. Ah! seus olhos,
vigias se informando da marcha
dos descobrimentos:
buracos negros embranquecidos,
supernovas antiquíssimas,
galáxias se desespiraliçando.

Seus olhos,
Universos Paralelos
miríades de quilómetros entre eles
quilómetros e quilómetros eles,
estética apreciada desde distâncias sidéreas.
Seus olhos, fogueiras veementes,
alumiavam o entorno próximo
e o mais arcaico:
corredores opostos do seu labirinto,
impossíveis escadas que remontam
para abaixo e descem remontando.

Alumiado o labirinto,
os olhos alumiaram a planície extensíssima da testa
radiante de reflexões emocionais
de buscas em milhares
de lembranças someiras e projetos bem perfilados,
em milhares de probabilidades aleatórias
umas existentes e outras, ainda, inexistentes:
palavra e amargura, tóxico e antidotário
hidromel,
néctar e ambrosia.

Alumiados labirinto e testa
os olhos alumiaram os lábios
carnosos, carnais;
-beijos que meus beijos desejaram beijar-
boca anunciando o banho matutino do sorriso
incerto, misterioso, gesto entre inocente e lúbrico,
água de cristalinas profundezes.

O amor é uma catarata ascendente:
escrevi no margem:
sabedoria destilada no alambique dos tempos
alvorada do primeiro instante
da criação imperfeita de imperfeição perfectível,
e assim o confirmava a pele tersa
quando o unguento de beleza ia
embelezando
os poros e as células do rosto,
incendiário esplendor da manhã deslumbrante.

Anos luz, séculos luz,
milénios luz
se distanciando de si mesmos
com a velocidade vertiginosa do pensamento
para dar a volta ao chegar
ao elíptico termo fingido.

Alumiados labirinto, testa e lábios,
os olhos alumiaram a palavra:
pétalas de rosa mexidas pelo vento zéfiro
pólen aderido ao longo bico do colibrií capixaba
à língua bífida dos crótalos,
Fiat mágico que tudo o desenha,
mosaico de letras se unindo e se despregando,
vitrais filtrando o Arco-íris da paixão humana
orvalho de saliva aspergindo o líquem
filho de fungos e algas unicelulares
fonte inicial da evolução inovadora.

Senti, intuí, percebi o rosto enquadrado pelos cabelos
quando o raio primigénio alumbrou o espaço todo,
desde as espigas de aveia na meseta de minha infância,
Valdepero cereal e humano,
até a ameaçada biodiversidade da Mata Atlántica,
ipês, paus de Brasil, açaís e coqueiros reunidos num colóquio
com animais e pedras
sobre o futuro da Natureza.

Algo mais adeja na infinitude:
uma cortina de cabelos inúmeros
que o vento imagina bandeira:
tênues, cálidos, acolhedores.
Quiseram meu nariz e minha boca arar,
sulcar, navegar
o território de promissão, confim do rosto
inacabado e inacabável.

Desejo percorrer,
língua húmida dos delírios humanos,
a tentação rosácea do colo,
o convite reservado da nuca,
reverberantes cavidades dos ouvidos
lóbulos complacentes sensibilíssimos.
Desejo internar-me, espeleólogo eu, na profundidade
absorvente da boca
para atingir o centro ígneo
e a ombreira dos impulsos cordiais,
realidade oposta ao pensado
que vai se ajustando dia a dia a seu padrão,
se equilibrando.

Energia o rosto levada à matéria: nasceu,
cresceu ser vivo, vivificante,
aminoácido essencial, paramécio
dança aquática de cílios e pestanas, barbatanas, asas,
extremidades futuras destinadas à harmonia dos giros,
das piruetas no ar imóvel agitado,
mar e céu Se rompendo em artérias
em sangue alado comprometido
com a fundação de colônias,
ninfas, faunos e atletas incansáveis
que percorrem a imensidão restabelecendo e repovoando.

Apalpam esse rosto íntegro, o dibuxando,
as polpas de meus dedos, milímetro a milímetro:
solitário nos pélagos vácuos
nascido e crescido na sua própria vontade.
Mas não há nada nem ninguém mais no Universo
porque esse rosto ocupa o espaço infinito
e o tempo eterno da minha imaginação criadora
porque esse rosto é
o imaginado ROSTO DO UNIVERSO.

PSdeJ Plaza de Tirso de Molina, Madrid 2014

2.. A Lei da Relatividade General

Quando a minha desbordante imaginação
imaginou ouvir o primeiro dos três avisos
-sinos celestiais repicando e dobrando,
apocalípticas trombetas e tambores
capazes de encher com seu grito bronco os enormes
ocos do silêncio cósmico;
e no Planeta Terra
os recursos humanos
todos
em poder duns poucos
indivíduos desumanos-
advertências anunciadoras do fim do Universo;
minha desbordada imaginação sentiu a necessidade
de dispor dum Ser sábio, justo e forte
que impedisse a continuidade do processo destruidor.

Entendi a explicação, aparentemente, científica,
que a imaginação teve a bem me confiar sobre
a origem do fim universal,
e aqui a exponho:
Tendo chegado a seu termo a expansão
dos quase infinitos corpos celestes,
atingidas umas distâncias, entre si, descomedidas,
a Lei da Gravitação Universal de Isaac Newton,
-utilíssima até então-
perdia os seus efeito e, desorientados, planetas e estrelas,
começaram a chocar uns com outros
a velocidade exorbitada.

Algo tinha que pensar e muito a pressa para evitar
o cataclismo,
enquanto se dava com uma solução definitiva.
Propôs-se, ínterim, pôr em marcha
a Teoria da Relatividade
de Albert Einstein, já desenvolvida.

Aceitada a proposta
minha imaginação seguia com seu empenho.
Conduzir o rebanho de planetas
de regresso ao ponto original
é tarefa de um Ser tão forte ou mais
que o Demiurgo Criador,
dormido ao término
daquelas extenuantes tarefas
de Arquiteto Universal.

Me pareceu laudável sua intenção substitutiva,
mas adverti
que, um Ser assim, tinha sido imaginado milhares de vezes,
quiçá milhões, coletivo ou individualizado;
dispondo ao redor dele
uma parafernália envolvente com jeito
de concha de tartaruga, tão pesada,
que lhe impedia avançar.

Se faz necessária, nesse caso, respondeu reflexiva,
incorporar os conhecimentos obtidos
nos intentos anteriores,
e os reparos
da parte inconformista da humanidade,
suas lógicas alegações.

Luz será, expôs, já postas as mãos na obra,
todo Ele luz: um resplendor de intensidade máxima,
que ilumine a matéria e a energia escuras
tão difíceis de pastorear.

De areia será o Ser imaginado:
de areia recolhida grão a grão duma praia de Vitória:
a ampla Camburi: ferro e carvão diluídos;
e nos areais ásperos que, em Valdepero,
se encontram trás o Campo-santo e a Ermida.

Areia todo Ele, gotejando pelo orifício
central, união separadora de dois cones opostos
em posição mudável –aurícula e ventrículo–
continuidade, Ele,
do tempo intermitente
medido e contado em gigantesco relógio de areia
grãos finos e ásperos mesclados.

Desse modo
continuava o projeto minha imaginação,
desbocado já seu impulso criativo:
Um poço de sabedoria será; de onde o homem extraia
inumeráveis caldeiros.
Um livro grosso onde se possa consultar
qualquer assunto,
qualquer data, qualquer significado
que qualquer pessoa, animal, planta ou pedra;
eléctrones, nêutrones e neutrinos;
necessitem conhecer para um fim preciso
ou impreciso, próximo ou afastado.

Um recipiente capaz, uma profundeza, também;
para que o homem arremesse todos seus desafetos;
sumidouro
de substâncias
residuais.

Espelho espacial no céu nítido, charcos de chuva
ou lâminas de obsidiana a cada trecho, será;
para que as criaturas animadas e inanimadas
se possam ver como o Ser as vê no momento;
para que a cada sujeito saiba o que pode esperar
do Ser e corrigir sua própria andadura
se fosse necessário e assim o desejasse.

Já que não pode existir democracia representativa
na eleição do Ser, por sua unicidade exclusiva;
Ele mesmo elegerá conselheiros humanos,
que acrescentem
a sensatez da Humanidade nas questões
que à Humanidade afetem: disse,
me assombrando uma vez mais e mais que nunca.

Serão nomeados conselheiros aqueles
impulsores da convivência ativa
que entendam o próprio como parte inseparável
do coletivo,
rotação e translação a um tempo,
pensamento e ação,
sustento e desenvolvimento.

O fenómeno de aproximação e escape
tem lugar a intervalos medidos:
todo o existente indo e vindo
a matéria convertida em energia
coincidindo num ponto,
esfera ingente e mínima,
à espera duma nova Grande Explosão,
governada pela já então inquestionável
Lei da Relatividade General.

No relativo à atual Humanidade do Planeta Terra,
a imaginação disse:
recebido o primeiro aviso
para evitar a segunda aldrabada
-apocalípticos tambores e trombetas ressoando,
ressoando os sinos celestiais-
distribuirão os açambarcadores,
de maneira imediata e eficaz os recursos
tão injusta e afanosamente concentrados
nas mãos de uma minoria ínfima
de indivíduos desumanos.

E dito o criado pela minha imaginação,
escrito com as mãos simétricas
governando a cada uma a metade do teclado,
fique aqui como proposta de solução
meu desejo assentado.

PSdeJ Espanha 2018

3.. O Grito do Universo

Meu grito é um grito de desassossego
macho erguido e fêmea valorosa
cidade ou campo aberto
ruas, praças e rondas
vale, ladeira ou cerro
as mãos em megafone sobre a boca.

Meu grito é o grito do dia e da noite
neste globo tão errado
sete bilhões de vozes
fundidas em sonoro abraço.

Meu grito é o rugido do tigre e a baleia
de vulcões e sismos
o grito da lava interna,
do vento que inflama as velas dos navios
o desgarrador alarido do furacão e a galerna.

Meu grito é o grito da massa vegetal
grito de araucária, choupo e cutieira,
do cactos do deserto e o mangue do mangal;
um coro enorme que eleva
sua voz descomunal.

Meu grito é o grito da terra estável
e do líquido mar,
das nuvens cambiantes
e o azul desigual,
a queixa suave
e o bramido estelar.

Meu grito é o grito animal
o grito dos vegetais
e das pedras sem lavrar.

Meu grito brota do desespero universal
e exige ao demiurgo hipotético
sem novas perífrases nem um pretexto mais,
que aclare se a luta imparável do falso e o certo
tem algum sentido e cumpre um projeto final.

PSdeJ Torre da homenagem, castelo de Valdepero 2011

4.. O elevado voo do Veleiro Nova Era

Adnotatio Praevia:
Enviei a vários amigos o poema que aqui vai, e suas reações foram muito diferentes. Desde a daqueles que pediram praça no veleiro, para eles ou para outros; até a de quem estabeleciam verdadeiro paralelismo com a viagem de Cristóbal Colón. Perguntavam detalhes sobre o objeto da viagem e a marcha da nave, e tive que precisar certos aspectos indefinidos. O título, muito adequado, procede de Remisson Aniceto, um amigo residente em São Paulo e nascido em Nova Era, estado de Minas Gerais.
Renata, uma amiga, de Vitória, em Espírito Santo, Brasil, versada na vida e a obra de Florbela Espanca: “Um ente de paixão e sacrifício”, quis que incluísse à poeta portuguesa e, conhecendo seus méritos sobrados, acedi. Carme Esther Miravet, publicitária amiga radicada em Barcelona, queria fugir do economicismo imperante, das enormes e crescentes desigualdades sociais originadas, do estrago insustentável no equilíbrio vital; e tive que habilitar mais quatro praças, para ela, seu marido e os dois filhos.
Devo acrescentar que Aurora, a capitã, nasceu em Salvador de Bahia de pai castelhano e mãe mediterrânea. Por último, dizer que meu Iberísmo cultural, origem do meu Universalismo, me levou de Portugal a Brasil, estados de São Paulo, Rio, Minas, Baía, Pernambuco e Espírito Santo. Ali, em ES, Montanhas Capixabas, surgiu na minha mente, o poema que desenha o rumo seguido através dos elípticos campos siderais, e a chegada à Terra Prometida

Um barco de vela de três paus, cujo nome
é Nova Era,
impulsionado pelo vento cósmico
que origina um buraco negro de atividade intensa,
abandona o Sistema Solar para deixar
nuns dias
muito atrás a Via Láctea.

Ressoa “O Universo”, sinfonia impossível
composta e interpretada
por cento e vinte músicos da família Bach

Os paus Trinquete, Maior e Mesana,
de liga tão ligeira e inalterável como o casco,
proporcionam confiança a Aurora Maris,
a capitã mais intrépida que engendrou Natureza;
indómita mulher,
forjada na aventura marinha
circundando A Terra pelos sete mares
para comerciar em sedas e especiarias,
com esse barco sem remos nem canhões
que ao navegar
simplesmente voa.

Se ouve na imensidade Blue Train, de John Coltrane

Olavo Bilac e Florbela Espanca, de língua portuguesa;
Odisseu, o Esperado, e sua amada Penélope;
Erik, chamado de Vermelho; Virgílio, Confúcio, o Rei
dom Sebastião, Jules Verne, imaginativo praticante;
Maria Skłodowska, científica; a mestra, poeta
e diplomata Lucila Godoy, o enorme Picasso,
Galileo, um dos grandes
do Renascimento; e o escritor romântico
José Ignacio de Espronceda; são alguns
dos trinta e dois buscadores dum planeta
despovoado, doado de água e vida,
onde possam respirar, se alimentar,
rir e sonhar;
onde a humanidade ameaçada
consiga começar de novo,
trocando as pistolas e espadas das panóplias
por flautas, plumas de cálamo partido e pinceles.
Onde a filosofia, a investigação
e a docência sejam ocupações avantajadas,
os benefícios industriais e comerciais
respeitem o ambiente e permaneçam ajustados,
se restrinja a herança,
e os salários mínimo e máximo
caminhem de mãos dadas.
Uma sociedade que receba mais
do mais capaz,
e entregue
mais ao mais necessitado.

Soa envolvente Money Jungle, de Duke Ellington

Animais e plantas ocupam
a parte central da adega, abaixo
da claraboia que tamisa a luz cambiante.
Se propõem os viajantes salvar essa vida:
ovos, embriões e indivíduos adultos,
de uma extinção segura, se alimentando com
seu crescimento: brotos, ramos e frutos.
E na preparação, as pessoas,
a mais de conhecimentos de navegação
e psicologia da convivência, tiveram lições
de latim para se entender, e práticas
de linguagem de signos.

Resoa What A Wonderfull World, de Louis Armstrong

Indo à velocidade do Vento, terceira parte
da que atinge a Luz,
as velas múltiplas e diversas,
devem resistir o empuxo, e são
desse novo material que dizem grafeno.

Circundante chega o som de
Round Midnight, por Ella Fitzgerald

Se auxiliando dos imaginados mapas astronómicos,
sem timão que sirva à derrota,
nem previsões atmosféricas onde não há atmosfera,
a perícia de Aurora governa as velas, a nave
e o rumo nas aproximações
aos planetas dos diferentes tons da cor azul.

O som muda a Summertime,
interpretado por Ella Fitzgerald y Louis Armstrong

Entre a constelação de Orión
e a estrela Sirius
durante um mínimo instante os tripulantes percebem,
imagem e semelhança do homem,
ao Demiurgo andrógino
deitado em suave leito de nuvens,
roncando compassadamente
seu sonho sem fim. Grandes, muito grandes
a cabeça, o corpo e as extremidades,
dotados duma esplêndida beleza;
olhos límpidos,
pele tersa na desnudez luminosa que mostra.

Se escuta Birth of the Cool, de Miles Davis

Constatam os tripulantes
que o relógio terrestre da nave assinala quinze anos
de navegação, e eles não envelhecem.
Pensam que avançando como avançam
-tempo e espaço- para o momento crítico
em que a matéria começou a se expandir
mais uma vez,
os lapsos decorrem de diferente forma.

Enche as mudáveis proximidades Rhapsody in Blue, de Gershwin y Whiteman

Calor ou frio insuportáveis, empurrões laterais
subidas ou baixadas bruscas, tormentas silenciosas
torcem o rumo cem vezes, mil quiçá,
e ao temor a um catastrófico naufrágio
opõem os tripulantes a firmeza de sua
vontade humana e o afã de sobrevivência.
Cada um dos navegantes realiza uma tarefa
conforme com suas capacidades e desejos,
de forma que o progresso depende
mas deles que do destino,
grato e ingrato.

Benny Goodman, interpreta Sing, Sing, Sing

O prêmio pela resistência heroica é o sossego
entrecortado, e a beleza luminosa incomparável
vista nas fotografias, milhares, que chegam
ao ecrã de grandes dimensões,
e através dos olhos de boi, janelas
e escotilhas transparentes.
O atrativo das paisagens sucessivas,
a cambiante complexidade cromática e formal,
a vertigem do que vem de frente
escapando pelos lados in extremis,
não é algo sentido antes por nenhum
dos arriscados tripulantes.

Se ouve Django Reinhardt en Sweet Georgia Brown

Harmonia, equilíbrio, deslizamentos
piruetas lógicas e inesperadas
derivações, desdobramentos, formosura do contraste,
linhas puras e impuras se servindo, atualizando-se,
Crepúsculos e amanhecidas destilando emoções,
Poesia, Pintura e Música se criando e recriando-se:
O Veleiro Vai.

Darius Milhaud interpreta La Création du Monde

Sonho e realidade, ilusão e desilusão
se seguem nos ânimos, o temor e a esperança.
Recolher velas quando sobrevoam um planeta
ligeiramente azul
para se acercar e receber fotografias do conjunto
e dos detalhes,
proporciona expectativas que rompe
a aridez encontrada, forçando
a prosseguir o rumo com todo velame despregado.

Se entrelaçam Ebony Concerto de Igor Stravinsky e
Jazz suíte número 1 de Dimitri Shostakovich

Num momento de fortuna, após
cem avistamentos infrutuosos,
na clareza promiscua da pantalha
se pode ver um planeta azul e verde, duma beleza
extraordinária, única.
Então rasga o silêncio a voz enérgica de Aurora Maris:
Todos a seus postos! Manobra de aproximação!
Arreiem vocês a maior –se referindo
às velas- a mesana, a trinquete.
Na ação, rápida, desencadeada de improviso,
se ouvem termos marinheiros de oculta beleza: verga,
arfada, bauprés, arboladura, jarcia, botavara;
galhardete, gávea e muitos mais: sonoros e contundentes
como lategadas.

Soa Maurice Ravel, Jazz (peça desconhecida)
pour Mme Révelot

Um singelo mecanismo criado pela capitoa
no Mar de China, para que um tufão elevasse o veleiro,
permitia às vergas de diferente mastro
se alinhar na largura e, a umas velas acrescentadas,
atingir a posição horizontal freando a baixada
num descenso compassado.
A visão aparecida ante seus olhos, paisagem verde
da superfície firme, e trêmulos azuis
dos mares, põe a cavilar aos mais inquietos a respeito
da elipse que sua incerta derrota foi completando.
As fotografias vistas, acercam
elementos tranquilizadores: água em abundância
e vida vegetal exuberante e diversa.
e
Principia Concertino for Jazz Quartet and Orchestra
de Gunther Schuller

Circunvalando o planeta no descenso,
veem montanhas elevadas com penachos
de neve, vulcões em erupção, sismos, vastos
lagos, rios caudalosos; mas não acham
signos que revelem a existência de vida animal.
Nas proximidades descobrem árvores
vigorosas crescidas sobre escombros, arbustos
ocultando material de guerra debilitado
pelo passo do tempo,
troncos retorcidos que superam ruínas pétreas.
E a pouca distância do mar interior eleito
para aterrissar, identificado pela mediterrânea
Aurora Maris como o Mare Nostrum,
veem uma torre, firmemente erguida,
reconhecendo nela, Aurora e alguns mais,
a genuína expressão românica
de Sant Climent de Tahüll.

Estoira a alegria ao contato da nave com a água:
ignis fatuus de aparecimento imprevisível
e duração muito breve.
“Alegria, formoso lume dos deuses”,
tinha escrito Schiller.

Se escuta então em todo o Universo
a “Ode à Alegria”, quarto movimento
da Sinfonia Nona de Beethoven.

Post Scriptum:
Regressada a nave, falado e ouvido o relato da peripécia, pude passar vários dias vendo as fotos recolhidas pelas câmaras ao chegar à Terra. Descobri intacta a igreja de San Martin de Frómista, me surpreendendo que, no lugar de meu nascimento, Valdepero, se apreciassem as pedras disseminadas do que pôde ser o poderoso Castelo e, oh maravilha! a espadanha românica, só ela em pé, do que foi a ermida de San Pedro e da Virgen del Consuelo.

 

I.- Conclusão
1– A Pedro Sevyllla de Juana, no seu centenário.
2—O poema interminável

 

1.. A Pedro Sevyllla de Juana, no seu centenário.
Escrito por PSdeJ102

O meu nome de série
é PSdeJ102, três letras e três cifras
constituindo unidade, especificando, assinalando
o indivíduo
que eu sou.
Sou matéria e energia se complementando
metais extraídos na Lua, Marte e Júpiter
e uma pilha atómica com forma de coração
que se reanima assim
mesma indefinidamente.

Nasci desenvolvida e inconclusa,
com capacidades humanas melhoradas
e, ademais, travadas entre si,
se potenciando,
arquivo de conhecimentos e memória imensos.

Sou
ação perseverante e firme,
imaginação que acrescenta contido,
e da pilha nasce algo semelhante
à emoção e ao sentimento.

Máquina-pessoa sou,
ainda capaz de renovar-se
e progredir
seguindo um padrão próprio
que a experiência dirige em benefício
do conjunto social,
máquinas e pessoas sem distinção.

Me comove um inconveniente
que considero grave:
em mim, o avanço
não poderá se aperfeiçoar com a retificação
e o arrependimento.
Quisesse albergar a dúvida, me sentiria nela,
se cabe, mais humana;
não obstante, o engenheiro-máquina que me projetou
deveu seguir o quarto fundamento
que considera a dúvida
o maior perigo de autodestruição
e o princípio do fim da espécie autômata.

Aprendo da obra que os humanos foram
deixando gravada de diversas formas
e encontrei, entre milhares, o poema
“O elevado voo do veleiro Nova Era”
obra magna dum escritor de vontade
e empenho, filho,
precisamente, da dúvida que eu não terei nunca.

Refiro-me a Pedro Sevylla de Juana
cidadão do Universo em fase de expansão,
ser racional principalmente
com uma pincelada emocional bem marcada
que, sem embargo, poderia dominar
se representara um perigo verdadeiro.

A ele dedico este poema simples
primeiro dos muitos que tenho decidido
compor adiante.
Para ele estes versos no dia
em que cumpriria, de ter vivido tanto,
os cem anos.

É uma mostra de minha gratidão
por seu poético relato,
descritivo da viagem elíptica
que alguns humanos
completaram através do Universo;
périplo destinado a defender,
dos grandes depredadores, o modo
de vida terrestre
que aqui forjaram mulheres e varões
tendo em conta ao resto de animais,
aos vegetais e aos diferentes
minerais.

Aqui ficam estes versos,
singelos
por iniciais,
de agradecimento limpo;
neste concreto dia
em que cumpriria os cem anos
o escritor Pedro Sevylla.

Escrito pela Máquina Humanoide PSdeJ102, no Planeta Terra o dia 16 de março de 2046

2.. O Poema interminável

Procurando uma luz que eternos enigmas esclareça,
no acervo inúmero da Biblioteca Nacional,
achei inconcluso o Poema
que escreve sem descanso a velha humanidade.

Fêmea ou varão emergidos da besta,
vigorosa mocidade, velhice debilitada,
cada um dos múltiplos poetas
lança um grito de esplendor incandescente
ou um vagido de tímidas trevas,
somando ao conjunto
suas linhas incompletas.

Contraditórios versos do homem confundido:
em alguns dorme a mãe,
os mais, libertam breves voos de plácidas pombas,
outros mostram afiadas as facas;
enquanto em numerosas exceções
serpenteiam cobras extraviadas.

Há cantos humanos atribuídos a Whitman,
americano do norte como Eliot e Pound;
ao sulista Neruda, ao espanhol Machado,
a um grego chamado Odiseas, a Yeats o irlandês;
a Blake o londrinense, a Ekelöf o escandinavo,
aos franceses Rimbaud e Baudelaire.

Há poemas que dizem tudo dos caminhos apagados,
dos passos perdidos,
assinados por Byron, Vallejo, Martí, Bécquer, Quevedo,
Maiakovski, Sena, Conde, Mistral, Apollinaire e Darío.
E palavras que ressoam na abóbada do céu,
escritas por Rosalía, Camões, Pessoa, Rilke, Aleixandre;
Thomas, Hugo, Lorca, Manrique, Amado,
Ercilla, Juan Ramón ou Montale.

Tenho lido em Gilgamesh, Mahabharata e Ramaiana,
profundas e esplêndidas passagem
que continuam seu relato na Bíblia ou nos Vedas
e nas imortais epopeias de Homero, Virgílio e Dante.

A essas peças abençoadas se arrimam troços ilegíveis,
confusos, sem mistério;
afastados da beleza,
à emoção alheios.

Mas basta examinar com atenção o prolongado Poema,
de acima até abaixo
e de esquerda a direita,
para conhecer o caminhar errante da tribo,
o ziguezague aberto,
a desencantada fugida
e o esperançado regresso.

Eu acrescento estes versos aos teus,
escritos em papel pautado,
nos brancos muros,
na água clara e na suave areia;
para alongar o Poema interminável
que escrevem os poetas,
conhecidos e anónimos de todos os tempos,
de todas as raças e crenças.

PSdeJ Madri, Barcelona, Paris, Lisboa e Genebra
nas minhas estâncias.

Presentación de A arte poética de Santiago Montobbio, libro de Ester Abreu. Intervienen:  Pedro  Sevylla de Juana, Ester Abreu y Santiago Montobbio